Em 1768, um misterioso imigrante português subiu a Serra do Caraça e, encantado com a beleza e a solidão do vale, decidiu comprar as terras e erguer ali uma ermida dedicada à Virgem Maria. Agora conhecido como Imão Lourenço de Nossa Senhora, e tendo doado as terras e a construção para a coroa portuguesa, o ermitão manifestou o desejo que ali fosse instalado um colégio de meninos. Nasceu assim, em 1820, o Colégio do Caraça. De disciplina rígida, estudo de excelente qualidade, o Caraça se tornou o colégio mais afamado do Brasil. Na madrugada de 28 de maio de 1968, um fogareiro esquecido aceso por um aluno que trabalhava na encardenação na biblioteca provocou um incêndio que pôs fim à gloriosa existência do Caraça como instituição de ensino. Paulo Cézar da Paz, ex-aluno caracense, escreveu um livro relatando de forma ficcional o fim do Caraça, enquanto, com conhecimento de causa, descreve as normas e as relações entre os alunos e destes como os padres, além de descrever sítios e lugares que, de tão belos, fizeram com que o vale do Caraça e seus entornos fossem considerados Reserva Ambiental, protegida por leis estaduais e federais e, agora mais do que nunca, continuasse a receber visitantes brasileiros e de outros países.
EXCERTO DE A SERRA EM CHAMAS
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
No princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas no estado de Minas Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram para o estado. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas mineiras literalmente brilhavam no escuro. Não havia alimentos, nem remédios, nem médicos, nem estradas. De concreto e inevitável, havia apenas muito perigo, incerteza e a extrema coragem dos garimpeiros e faiscadores para se embrenhar em terras desconhecidas: existiriam ouro e pedras preciosas por todos os lados ou apenas na região mais ao leste do estado? Não obtendo a resposta, os aventureiros a iam buscando, abrindo fronteiras, não só nos leitos e margens dos rios como também no meio das matas mais fechadas. Muitas cidades nasceram assim: primeiro, casinhas aparecendo às margens de um rio, um local de alojamento para mineradores, um rancho para tropeiros, plantios providenciais para futuros bandeirantes, e iam aparecendo pequenos armazéns, boticas, amoladores de ferramentas, fornecedores de arreios e produtos animais, mascates, e, como não podia deixar de ser, com a exacerbada religiosidade herdada dos colonizadores portugueses, uma igreja, mesmo que minúscula (capela), e ali estava um povoado em desenvolvimento. A intenção de todos, coroa portuguesa ou forasteiros, era tirar tudo o que pudessem da terra mineira, riquezas, ouro, pedras preciosas, pepitas, rapidamente, e assim estava sendo. As pessoas deixavam os navios e iam a pé para as Minas Gerais – pessoas muitas vezes oriundas de países frios, desacostumadas ao calor tropical (ou mesmo o desconhecendo por completo), inconscientes dos perigos existentes nas matas e matos das terras mineiras, não sabedoras da geografia mineira, - e sem o apoio de uma rede de ajuda hospitalar ou comercial; enfim, aventureiras até à medula do termo: para elas, o que existia era o brilho das montanhas de ouro no fim dos muitos caminhos que levavam a Minas. Onde uma pessoa sensata enxergaria o 'fim do mundo', elas viam o eldorado, o pote de ouro no fim de um imaginário arco-íris.
Barão de Cocais também fez parte do ciclo do ouro. Em todo o seu entorno e ao longo da extensão de seu rio, agora quase um filete de água, que já foi caudaloso, homens bateavam e sonhavam com grandes pepitas, embora não se saiba se o Rio São João que corta a cidade fosse pródigo em metais preciosos. Antigamente chamada de São João do Morro Grande, Barão de Cocais deve seu atual nome a um antigo coronel, morador de um lugarejo próximo, sítio histórico, Cocais, ao qual era creditada a crença de possuidor de imensa fortuna depositada em bancos ingleses em meados do século dezoito. 'Barão' era, na verdade, a alcunha de José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, nascido na Fazenda da Cachoeira, a dois quilômetros da vila colonial de Cocais (hoje, distrito da sede, Barão de Cocais), tendo sido batizado em 16 de dezembro de 1792, na Capela de Santa Ana de Cocais – Matriz de São João Batista do Morro Grande, Barão de Cocais - uma incrivelmente bela igreja barroca, que mais de um turista, espantado, afirmou ser a 'oitava maravilha do universo'. Filho do brigadeiro Antônio Caetano Pinto Coelho da Cunha, ele foi enviado pelos pais para estudar no Rio de Janeiro, onde acabou ingressando no Exército Imperial, alcançando a patente de tenente-coronel. Era primo de Felício Pinto Coelho de Mendonça, o primeiro marido da marquesa de Santos, D. Domitila de Castro. Em 1822, participou do movimento da Independência e, em 1830, elegeu-se deputado geral do Império. Em 1833, tornou-se empresário, ao fundar a Companhia de Mineração Brasileira da Serra de Cocais, em associação com os ingleses da National Mining Company. O regente Diogo Feijó, em 1835, o nomeou governador da província de Minas Gerais e, em 1840, ele votou pela maioridade de D. Pedro II. Em 1842, foi aclamado governador interino de Minas Gerais, em Barbacena, aceitando ser Comandante-Chefe da Revolução Liberal de Minas, ao lado de Teófilo Ottoni, do Cônego Marinho e outros. Como estrategista militar, venceu todas as batalhas, mas resolveu recuar ao quartel-general de Santa Luzia, para atender ao pedido de pacificação do futuro duque de Caxias, que o visitou na Vila de Cocais. Cassados os seus direitos políticos, dois anos depois e anistiado, reelegeu-se Deputado Geral de 1844 a 1848. Devido à sua lealdade, D. Pedro II o intitulou barão em 1855. Viria a falecer catorze anos depois, vítima de tuberculose, sendo sepultado na Igreja de Santana, em Cocais. Enquanto acionista da companhia de mineração do Morro Velho, o barão de Cocais enviou para depósito num banco em Londres vultosas somas em moeda corrente e em ouro. Morreu sem ter sacado as quantias aí depositadas, nem seus herdeiros à época reclamaram quaisquer direitos a esta herança. Em 1965, o banco inglês informou ao governo brasileiro da existência desta conta que, após 100 anos sem que os valores fossem levantados, iria prescrever a favor da coroa britânica. Seus descendentes, de 4.ª e 5.ª gerações, acorreram a arquivos e a advogados para provar seu parentesco e fazer o processo de habilitação à herança. Os herdeiros não se entenderam nem mandaram um procurador comum à Inglaterra; passaram-se 5 anos, e a fabulosa herança foi perdida. Segundo consta, como o valor acumulado seria de 120 milhões de libras, com juros de 100 anos, o banco não teria capacidade de repassar tal soma aos eventuais herdeiros. Sabedores desta situação, e vislumbrando uma oportunidade de conseguir dinheiro fácil de pseudo-herdeiros incautos (como a notícia da prescrição da posse foi amplamente veiculada em vários jornais, não tardou que aparecessem milhares de “herdeiros do barão de Cocais” em várias regiões de Minas Gerais e mesmo do Brasil), advogados inescrupulosos contatavam os pretensos herdeiros, indo a seu encontro até no interior de outros estados, alertando-os de que, com a prescrição, a coroa britânica se apoderaria de todo o montante, em caso de não reclamação, exigindo dinheiro para “tocar o processo”. Nunca foi provado que o finado barão possuísse, de fato, tal fortuna, mas, advogados encheram as burras à sua custa e toneladas de jornais foram vendidas devido a este conto da carochinha. (Como uma atenuante para o fracasso na recuperação da “fortuna do barão”, os advogados afirmaram que, devido ao enorme montante acumulado através de mais de um século, os bancos britânicos não tiveram como pagar aos seus herdeiros.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez ou outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como uma vistosa águia de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde ele conseguiu o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família. Não é certo que, nas Minas Gerais, tenha sido garimpeiro ou bandeirante, ou negociante de pedras, mas, para incrementar o mistério, alguns dizem que ele foi tudo isso. Sabe-se que, descrente das coisas do mundo, entrou em uma congregação religiosa e, após sete meses de aprendizado em Santo Antônio do Tijuco, recebeu o hábito da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, e que, ao ser admitido, escolheu o nome pelo qual ficaria definitivamente conhecido: Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Desejoso de erguer uma ermida à Virgem Maria, o Irmão Lourenço peregrinou por caminhos desconhecidos, subiu serras inóspitas, vadeou e atravessou rios e cachoeiras, e deu com a abertura que leva ao vale onde hoje está o Caraça. Admirou-se com a paisagem. Ali, fez uma oração à Virgem Santíssima e, levado por seu desprendimento do mundo, decidiu erigir sua capela e sua ermida.
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados. Embora a distância entre o pé da serra e o seminário fosse pequena (cerca de quinze quilômetros), a dificuldade de acesso obrigava o caminhão a rodar lentamente e, às vezes, fazer lentas manobras nas curvas, antes de avançar. Mas, não muito depois, o caminhão estacionou numa curva, a paisagem se abriu, o motorista desceu do veículo, e disse:
“Tem alguém aqui que não acredita em Deus, gente?”
Ninguém entendeu sua pergunta. Então, apontando para a enorme silhueta do educandário ao longe, no fundo vale, completou:
“Vejam lá: apenas Ele seria capaz de levar alguém a ter a idéia de construir esta maravilha neste lugar santificado. Apenas aqui o Caraça poderia ter sido erguido. É tudo bonito, majestoso, magnífico! É sagrado! Sem igual!”
Com os dias passando, Padirin foi descobrindo as coisas e percebeu porque o Caraça era o Caraça; primeiramente, aprendeu a lição mais importante: os alunos deviam obediência total e absoluta aos padres!; que, o sino do pátio interno marcava os horários das atividades: quando ele soasse, após os horários de recreio, era para se fazer silêncio imediato e absoluto. E, ao se dirigirem ao refeitório, à igreja, a qualquer lugar, deveriam fazê-lo em fila, e só poderiam abrir a boca pra conversar após o padre tocar (se tocasse!) a campainha, e dizer em latim: “DEO GRATIAS!” (DEMOS GRAÇAS A DEUS!); e que em vários dias da semana (quase todos) não se poderia conversar durante as refeições, pois havia a leitura de um livro ou a audiência de música clássica (óperas ou sinfonias) (nos cafés da manhã, a leitura era sempre a respeito do santo do dia – o martiriológio romano -, quando se ficava sabendo de suas virtudes e dos seus feitos, os alunos sendo admoestados a seguir seu exemplo de vida, suas virtudes). E aprendeu ainda o código para pedir que os colegas passassem as bandejas de alimentos, nos silêncios do refeitório: um dedo levantado, se estivesse pedindo a passagem da bandeja de feijão, dois dedos, o arroz, três dedos, a salada... enfim, a linguagem era a de sinais. E Padirin tomou conhecimento de uma particularidade que o intrigou: no Caraça, era proibido falar português errado; a correção era imediata, e os outros alunos achavam graça! Assim, ele ficou impedido de usar suas expressões mais costumeiras e, até àquela data, para ele, normais (embora ele já as tivesse estudado na escola, mas não lhes tivesse dado a devida atenção): pega ele, cortar ela, me dá a faca? E quanto às gírias, que ele usava amiúde com seus colegas da Lagoa?! Fora de cogitação – ele era aluno do Caraça – e carregaria este fardo pelo resto de seus dias! Ele teria de zelar por este nome e também pela língua portuguesa, cujo uso escorreito, falado e escrito (como os padres não se cansavam de repetir), vinha ajudando a fazer a glória e a construir e a preservar a fama do educandário!
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
Turbino sabia que isso não era verdade: padre cocaiense ele, de fato, não conhecia nenhum, mas, os jovens de sua cidade não eram bagunceiros. Eriberto era um exemplo típico: educado, prestativo, caridoso. E poderia vir a ser padre: já tinha ido para o seminário maior! Como se desculpando pela suposta infidelidade vocacional e pelas estripulias dos seus concidadãos, afirmou, convicto:
“Então, eu vou ser o primeiro cocaiense a ser ordenado padre no Caraça... e vou proceder direitinho!”
Como se tentando fixar na memória o rosto de Turbino, o Irmão o encarou por uns segundos e, então, perguntou:
“A propósito, como é seu nome?”
“Meu nome é Turbino.”
“Os colegas ainda não lhe arrumaram um apelido? Aqui eles dão apelidos pra todo mundo!”
“Já sim; me puseram o apelido de Padirin.”
“Padirin?! Por que lhe deram este apelido esquisito?”
“Eu lhes contei que trabalhava de padeiro lá em Barão de Cocais.”
“Padeiro?! Você fazia pão?”
“Não; apenas ia à padaria, enchia o balaio, e saía vendendo nas ruas.”
“Era padeiro então!?”
“Isso!”
“E seu pai? Trabalha de que?”
“Meu pai é carroceiro!”
Como se assustado, o Irmão Nylo apertou as pálpebras, olhando nos olhos de Padirin, abriu desmesuradamente a boca, e exclamou, à meia-voz:
“Um aluno padeiro filho de um carroceiro!”
E saiu andando, jogando seu corpanzil pra cima e pra baixo, dizendo baixinho, como se contrariado:
“Ah, meu Deus, onde este Caraça vai parar!”
A primeira entrada na igreja gótica foi uma das visões mais deslumbrantes para Padirin: o silêncio inebriante, a atmosfera envolvente, os vitrais multicoloridos (que, depois, ele viria a saber, haverem sido doados por D. Pedro II) o corpo embalsamado de São Pio Mártir (explicar quem foi e a data da vinda), os blocos de mármore que formavam as colunas, a altura da nave, quadros de santos, via-sacra, pendurados nas paredes, tudo impressionou o rapazinho (Meu Deus, que mundo diferente! E aqui no meio destas montanhas!). Emocionante, porém, foi conhecer o som do harmônio, tocado nem sempre em todas as missas, mas, sempre à noite, antes de irem se deitar (“à noite, Tilucas tocava harmônio; Tilucas era um aluno antigo. Estava quase indo para o seminário maior, em Petrópolis. O pessoal ia sentir saudades dele. Até eu, que ainda não o conhecia, admirei: tocava muito e gostava do que fazia. Era ótimo aluno. E fazia graça também; brincava demais – quando podia. E jogava bola bem. Gente boa!”) Ou, como diriam seus colegas de “quebradas” em Barão de Cocais: sangue bom! Apenas alguns dias mais tarde, Padirin teve outra surpresa mais do que agradável: a missa de domingo foi acompanhada pelo som do harmônio e pelas vozes do coral – e os olhos do novato se encheram de lágrimas.
E o sacerdote – o conselheiro espiritual do Caraça - continuou lhe explicando, mão direita sobre o espaldar da cadeira, mão esquerda esparramada sobre o tampo da mesa, olhos perscrutadores por detrás dos óculos de lentes grossas, debruçado à sua frente, que, como ele estava entrando no seminário visando a ser padre (não era isso mesmo? Ele não desejava ser ordenado padre, trabalhar na messe do Senhor? Padirin não sabia o que era 'messe', mas, respondeu que era isso mesmo, claro; era sim, senhor! A messe?!), então, ele abria mão de sua sexualidade, de seus desejos sexuais, deixava a perpetuação das espécies para os outros homens (você sabe: padres não têm filhos e nem arranjam namoradas!), e assumia o voto de castidade, que era um compromisso assumido por todos os religiosos. Ele tinha consciência disso, não tinha? Tinha, ele sabia que os padres fazem voto de castidade. A fendazinha no meio das pernas, a – como dizia DaMata: “perseguida ou trem bão”-, para os padres e, por conseqüência, para aqueles que estavam estudando para serem padres, os seminaristas, deixava de existir.
O pico mais falado do Caraça é o Pico da Carapuça (assim chamado por ter o formato exato de uma carapuça), mas, não é o mais alto. Talvez por ser o mais próximo do colégio e o de mais fácil acesso (embora se deva subir uma encosta íngreme e pedregosa), demorando-se poucas horas para ir e voltar, tenha adquirido uma conotação sentimental, sendo o mais visitado. Mas há morros maiores e muito mais distantes; o Pico do Sol, por exemplo, ao lado da Cara do Gigante, ou o Inficcionado, contíguo ao Pico do Sol, além da do morro da Canjerana. Há, além deles, inúmeros outros morros sem grande expressão (mas repletos de plantas exóticas, vegetação característica, e orquídeas belíssimas, algumas raras,), mas de caminhada custosa, que os alunos, acompanhados por um padre-regente, costumavam visitar nas tardes de quarta-feira. O Morro de Santo Agostinho, o Morro Dois Irmãos, são alguns destas elevações menores. No seu primeiro passeio no Caraça, à Bocaina, e a uma imensa gruta sob a Cara do Gigante, Turbino, agora definitivamente conhecido como Padirin, acompanhou alguns alunos “grandes”, como eram chamados os que cursavam o clássico e estavam em vias de deixar o Caraça e ir para o seminário maior de Petrópolis, embora eles não o quisessem levar.
“Você não tem pernas fortes o bastante para nos seguir.”
“A caminhada é penosa e demorada.”
“Nós vamos regressar muito tarde.”
“Há uma cachoeira seca no caminho que exige muita resistência.”
“É longe, rapazinho.”
Mas ele insistiu e foi e as coisas aconteceram do modo como tinha sido previsto: Padirin parava a toda hora na volta, reclamava de cansaço, sentava-se, atrasava-se e ouvia observações jocosas:
“Não foi avisado?”
“Não sabe que cada coisa tem seu tempo?”
“Cresça, moço – e apareça!”
E regressaram ao colégio à noite, quase à hora de se deitar.
Dias depois, conversando com o irmão Nylo, que, Padirin não conseguia entender, não fora com sua cara desde sua chegada, afirmou:
“Meu primeiro passeio, no semestre que vem, vai ser à Carapuça! Ir lá é muito mais fácil! E, lá de cima, eu quero ver Catas Altas, Mariana, Ouro Preto, Santa Bárbara, Barão de Cocais...!”
Ao que o gordo respondeu:
“Ah, mas você não vai!”
Você não vai!? O que será que o Irmão pretendia dizer com aquilo?!
Apenas tempos depois, e não muito tempo depois, Padirin obteve a resposta.
Naquela manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se refastelava ao sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica, outros apenas sentados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, começava a ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão. Formavam figuras de santos, de turíbulos, de castiçais, de apetrechos religiosos, imagens de igrejas. Padirin pensava: o que começara como uma empreitada supostamente tenebrosa – um retiro espiritual silencioso (três dias no mais completo mutismo, de profunda meditação e recolhimento, em que aprendia a respeito da feiúra do inferno, com alguns padres fazendo desenhos das profundezas da morada do demônio para lembrar os alunos do que lhes esperava se não seguissem fielmente as regras do seminário!), com alguns padres enrabichados atrás dos alunos o tempo todo, como se tentando saber o que eles estavam pensando – terminara da maneira mais prazerosa possível. Os antigos já afirmavam: nada como uma 'bodega', que era uma comilança do que havia de melhor na sabedoria culinária das Sampaias e das cozinheiras, em termos de quitutes e temperos (a bodega acontecera na Varginha, e era um acontecimento para jamais ser esquecido!). E tal fato só se dava em ocasiões muito especiais, como a que punha fim à Semana Santa: a Páscoa da Ressurreição, que se seguia ao retiro espiritual, ou no dia de Corpus Christi, dali a algum tempo. Tal celebração ocorrera ainda há pouco e marcara sobremaneira Padirin: as orações na igreja gótica, dia e noite, os cânticos que haviam sido exaustivamente ensaiados, a Quinta-Feira Santa com a emocionante cerimônia do lava-pés, a Vigília Pascal que entrara pela madrugada, e, contrastando fortemente com a luz do sol que penetrava belamente através dos vitrais coloridos nas manhãs, o negror noturno nas celebrações externas, que foram muitas, o acendimento do Círio Pascal no adro da igreja gótica, (ao levantarem as velas acesas cantando o refrão laudatório – Oh, grande noite verdadeira...!-, as vozes fortes, juvenis, dos alunos, enchiam o ar, e as florestas e montanhas repetiam, num eco soturno), o vento soprando levemente as folhas das palmeiras imperiais e assobiando entre as construções, quase apagando as chamas. Houve reza no monte do Calvário, a Via-Sacra, e os 'grandes' do curso clássico haviam composto as canções lamentosas, e pessoas externas ao santuário, que haviam subido a serra especialmente para participar das celebrações, se emocionaram e mais de uma derramou lágrimas sinceras ao ouvir os alunos cantando:
“Por que me abandonaste, oh, meu Deus!”, e os sermões repletos da boa-vontade divina em perdoar as faltas.
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“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Era verdade; e, seguindo as orientações de seu compadre Leandro, Cássio havia comprado roupas decentes, para ele e a mulher e a filha, calçados apresentáveis, e, sentindo-se mais aceito socialmente, ficara mais cortês com as pessoas, “mas não é porque fiquei educado, não; é que passei a ser considerado pela sociedade. As pessoas me param nas ruas; me perguntam pelo Turbino, como ele tá se saindo lá no alto da serra, no seminário. Algumas delas também têm filho no Caraça. Pessoas que nunca me enxergaram na rua. Tô sendo aceito. Então, eu tenho de proceder igual a gente boa.”
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados). Cássio, o peito como que tomado por uma angústia inenarrável, trancou-se num quarto com Turbino e tentou saber o que tinha acontecido. Porquê da vinda tão precoce? Ele tinha vindo só passear, ver a família? Era alguma folga? Não; tinha vindo em definitivo. Fora dispensado. Mas não era possível! Ele havia entrado no seminário ainda outro dia! E ele – Cássio -, a mulher dele, a filha dele, a família inteira estavam vivendo como que um sonho, pois ele – Turbino - podia estar colocando sua geração em “outros caminhos”, podia estar mudando a posição social de sua gente. Ou ele queria ver o pai para sempre pelas esquinas das ruas, sentado na carroça, no meio dos outros carroceiros, como um pedinte, esperando por carretos, pela esmola das pessoas, carretos que, ele estava cansado de saber, não lhe davam ganhos quase nenhuns? Ou quem sabe ele próprio desejava se tornar um carroceiro? Ficar o dia inteiro sentado na carroça, sentindo o cheiro da merda dos burros, o cheiro enjoativo da urina que os animais despejavam sem parar na calçada; e sem poder mudar de 'ponto', porque seu local de trabalho era delimitado pela prefeitura? Ou ficar eternamente carregando balaios pesados, ralando como um burro de carga, sofrendo como um reles padeiro? Que Turbino olhasse em volta, os móveis, as paredes, a casinha em que eles viviam. O lugar – fim de rua – onde a 'casa' se situava. “Olha o tamanho desses cômodos, menino!”
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Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser folga, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, isso seria permitido, mas isso era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse.
Foi numa dessas tardes que o Irmão Nylo, rondando o adro da igreja gótica, portando sua inseparável armadilha de pegar cobras, viu Cássio, baixo, moreno-escuro, camisa branca de mangas arregaçadas e peito aberto, as veias salientes se mostrando nos antebraços musculosos, cabelos lisos pretíssimos com o topete alto penteado para trás, calça creme, sapatos brilhantes, lábios enormes, cenho franzido, subir as escadarias frontais à igreja gótica, vindo da ponte. O Irmão parou e esperou. De imediato, reconheceu o pai de Padirin, por tê-lo visto agradecendo a aceitação do filho tempos atrás ao padre superior.
“Vou chamar o padre Murilo; talvez ele possa ser de alguma ajuda na situação.”
E, segurando firmemente a arma de madeira que usava para pegar cobras, pisando pausada e pesadamente, jogando o corpanzil, foi chamar o padre Murilo, o responsável pela disciplina no seminário.
E o padre superior, desejando permanecer cortês com o inesperado visitante, esclareceu de quem se tratava, o porquê de o Irmão tê-lo ido buscar:
“O padre disciplinário é quem mais tem contato com os alunos, razão pela qual é quem mais os conhece e mais tem envolvimento em suas atividades. Você vai gostar de conhecê-lo. É excelente pessoa.”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello e Castro (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo dito, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
O padre tinha a fisionomia alterada, mas, o que de fato alertou Cássio para o perigo foi o Irmão Nylo com o pau de pegar cobras. O Irmão, injuriado, vendo que os padres não tratavam o interlocutor do jeito que ele achava mais apropriado, se adiantou e, brigando com a língua portuguesa, pois tinha pouco mais conhecimento do que o carroceiro de Barão de Cocais, disse a Cássio que ele estava “conspurcando um local sagrado” onde já haviam pisado “pessoas importantes e respeitosas”.
Notando que o carroceiro estava deixando o santuário, o padre superior e o padre disciplinário, polidamente, se ofereceram para acompanhá-lo até ao portão, mas Cássio ia bem mais à frente e não se manifestou, o que não o impediu de ouvir os padres lhe afirmarem que 'não é necessário que o jovem seja aluno do Caraça para se dar bem na vida, “seu” Cássio! Independente das circunstâncias – seja rico ou pobre, preto ou branco -, o homem é aquilo que ele quer ser!
Cássio estava triplamente errado. Não era verdade que apenas jovens remediados ou ricos estudavam no Caraça. Nos registros do colégio, desde sua fundação até o dia de seu fechamento como seminário, há anotações de 'alunos pobres', inúmeros, que estudaram de graça ou foram financiados por fundações filantrópicas estrangeiras, como a Cáritas alemã, por exemplo. Para ser aluno do Caraça, era preciso ter bons princípios e ser inteligente (se fosse rico, melhor ainda, lógico!), além, é claro, de demonstrar pendor para o sacerdócio, embora fosse sabido, de antemão, que a vocação religiosa era uma dádiva concedida a poucos (muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos!) Um bom número dos jovens que ingressavam no Caraça ia em busca de ensino de ótima qualidade ou eram forçados a ir pelos pais para serem domados em seu gênio rebelde. “Se você não se emendar, eu te mando para o Caraça!” – e, se os meninos não se emendassem, mandavam mesmo!
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Vinte e oito de maio de 1968. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço, e lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o seminário do Caraça, quase nada se ouve. Alta madrugada, e, como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé.
Subiram outra vez para o morro do Calvário, e logo a fumaça subia aos magotes, entrando pelas escadas, penetrando nos dormitórios, e eles começaram a ouvir gritos apavorados de “FOGO, FOGO!”, e passos apressados, muitos passos, descendo as escadas dos dormitórios, palmas fortes sendo ouvidas - porque palmas eram o modo de despertar os seminaristas nas madrugadas ou de chamar sua atenção -, e passos apressados nos corredores, e Cássio viu, satisfeito, livros, mapas, infólios, incunábulos sendo atirados no pátio pelas janelas que iam tendo suas proteções de tela arrebentadas, numa tentativa de se salvar algumas daquelas preciosidades.
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, se tornou, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o morro da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol, o Campo da Urbis - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora dessas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Turbino vive se lamentando por não ter subido o Pico da Carapuça (deve ser bonito demais! lá é muito alto e a gente enxerga longe!). E tem péssimas lembranças do Irmão Nylo: “aquele balofo não gostava de mim; por isso disse que eu não ia subir a Carapuça no princípio do semestre seguinte! Ele já imaginava que os padres iam me mandar embora! Filho de uma puta!” Em certas horas, ele ainda fica se perguntando: “Será que não foi o Irmão Nylo que...?” E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo, das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' (“Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!”), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
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