sábado, 6 de agosto de 2011

HOMENS TRABALHANDO

MEU PRIMEIRO LIVRO [ROMANCE]
(ainda a ser publicado)

Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encar­regado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras pá­ginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, per­guntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!


Um enorme guincho fora colocado na frente do prédio e funcionava como um elevador, levando e trazendo material e homens para os diversos andares, por meio do contato de uma chave elétrica. Os homens chamavam o guincho, dos diversos andares, puxando um arame esticado junto à lateral do aparelho, desde o térreo até o topo da construção. Paramos ao lado do guincho, esperando que ele fosse tra­zido ao térreo. Quando chegou, subimos na plataforma.
---- Sétimo! - disse Zé Antônio ao rapaz que manejava a chave elétrica. O cara fez o contato e rapidamente chegamos ao sétimo andar.


Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície li­xada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquen­tar o almoço dos peões.
A um canto, duas extensas fileiras de tijolos, tendo filas transversais de pedaços de ferragens roliças que serviam como trempe, formavam o que constituía o su­posto fogão.
---- Todo dia vou esquentar meu almoço! - eu disse.
---- Nada disso! - o encarregado afirmou - um dos empre­gados vai a todos os andares meia hora antes do almoço, pega as marmitas, traz pra garagem, acende o fogo, aquece a comida e, no momento certo, cada um pega a sua marmita. Nada de todo mundo se amontoar aqui pra fazer bagunça e perder tempo!
---- Certo!


Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpin­teiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, ba­tendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digi­tou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra en­xugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!


Esmeraldo era o nome do servente do pedreiro azulejista do sétimo. Era um dos negros mais feios nunca vistos. Baixinho, magrelo, de cara encovada e barbicha dura, esticada. Usava um par de botinas de plástico, pretas, que lhe davam um chulé de primeira qualidade. Ele mesmo não se lembrava da última vez que tirara a roupa de serviço para ser lavada. Porquíssimo! Mas era boa praça. Depois que tomei in­timidade com ele, um dia ele me gritou na hora do almoço:
---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, fa­lando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!


Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos comprado­res dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como au­tônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que mo­rando e trabalhando na mesma cidade.


Era uma tarde de sexta-feira e ele me disse:
---- Júlio César, hoje nós vai fazê um programão! Nois va­mo lá na Helena dançá e bebê. Lá tem cada garota da ponta da oreia!
---- Onde fica isso?
---- Ocê vai vê!
Ivair era mulherengo, embora fosse casado. Tinha doze fi­lhos. A mulher, de tanto sofrimento, tinha a expressão compungida da imagem de Nossa Senhora. Quaisquer cinco minutos que tinha livres, ou em qualquer momento que escapulia do serviço, Ivair aproveitava para tomar uma lambada da destilada.


Ivair chegou. Colocou o pé direito no umbral da porta. Vacilou, porque estava bêbado e o salto da bota dificultava a firmeza dos pés. Firmou-se com as duas mãos nos batentes sujos e jogou o corpo para a frente. Ficou de pé dentro do cômodo e disse, com voz anasalada:
---- Boa noite, minha gente!
Ninguém respondeu. Ele se achegou da mulher de pituca na cabeça. Sentou-se a seu lado:
---- Dá licença?- perguntou. A mulher olhou para ele e permaneceu em silêncio.
---- Qualé sua graça? - insistiu.
---- Hein?
---- Seu nome, qualé?
---- Lídia.


Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado es­querdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.


Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara be­bendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.
---- Nã... não. N... nã... não tenho. - ela respondeu.
---- Você não fuma?
---- Fu... fumo, m...mas ho...hoje tô s... sem cigarros.
---- Como você se chama, moça?
---- Meu no... nome é... é Madalena.
E eu lhe disse que me chamava Júlio César e perguntei:
---- Você tá vindo de onde, querida? Tava mandando umas biritas?
---- Eu? Não. Ve... venho da casa de umas... umas colegas. Eu tava es... estu... dando!
Estudando?! Houvesse cachaça para estudante daquele tipo!
---- Você estuda onde?
---- Na uni... universidade. Na fe... federal.
Que chique!
---- E você estuda o quê?
---- Pós...pós-graduação!
---- E em qual curso você faz pós-graduação, querida?
---- Fa...faço pós em ... ci... ciências do... domésticas.
---- Que ótimo! - eu exclamei - vamos dar umas voltas por aí? - eu perguntei, ao mesmo tempo que enfiava o braço esquerdo em volta do pescoço da moça.
---- Se.... será que.... que va... vale a pe... pena?
---- O que você acha? "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"- eu perguntei, roubando, em seguida, uma frase de Fernando Pessoa e já a fui puxando para um beco que levava a um bairro afastado.
Ela riu e perguntou:
---- O... o que é i...isso que... que v... você fa...falou?
---- Nada!


Voltamos para a mesa após algum tempo. Madalena ficou bêbada depressa. Eu perguntei:
---- Tem compromisso com alguém?
---- Só comigo mesma!
Logo vi, então, que não tinha com ninguém mesmo!
---- Que tal você dormir lá no meu quarto de vez em quan­do? - sugeri.
---- Vou fazer uma experiência. Se você for gostoso e bom de cama...é uma boa idéia! Quando nós sairmos daqui, a gente passa lá.
---- Pára de beber então, porra! - eu exclamei - você já co­meçou a ratear!
Insolente, ela respondeu:
---- Não enche o saco, cara! Cuida de sua vida!
Era madrugada já quando saímos da cabana. Havia poucas pessoas no lugar, a música tinha sido desligada. Pior ainda, o lotação tinha deixado de circular. Fomos obrigados a andar a pé, bêbados, à noite, até chegarmos a casa. Viemos abraçados, trôpegos, Madalena me puxando, torta, para a direita, e eu a puxando, turbinado, para a es­querda.


Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair cor­rendo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?


Depois de emassar o apartamento, era necessário lixar bem todas as paredes e tetos. É um serviço desagradável, mas tem a vanta­gem de espantar os chatos. Ninguém entra onde se trabalha. O pó fi­níssimo que se desprende da massa corrida parece farinha de trigo, al­víssimo, e fica em suspensão. Como é facilmente carregado pelo vento ou pela brisa, ele suja tudo e todos. Por isso, durante o tempo em que estive lixando os cômodos do apartamento, o Puxa-Saco só enfiava a cara na porta da sala quando passava no guincho, sem jamais entrar pra me perturbar. O doutor Amorim não apareceu.

Após a lixação, dei uma demão bastante diluída de selador pra fixar o pó na parede, o que propicia a colagem da tinta. Depois disso, o apartamento estava pronto pra receber a pintura.

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