HISTÓRIAS DE NINGUÉM
(MEU TERCEIRO LIVRO [ROMANCE])
(ainda não publicado)
Foi o bêbado mais inchado da cidade, de olhos vermelhos e recendendo a azedo, que chegou resmungando no bar. Aproximou-se do balcão. Tomou uma pinga. Pediu um tira-gosto qualquer. Eu estava encostado à parede ao lado. Saí de perto pra evitar a aproximação daquele sujeito. Parei de pé na porta e me encostei ao batente. Após beber a pinga, o moço pôs o copo sobre o balcão. Não dei sorte. Ele veio atrás de mim, deu-me um leve toque na barriga. Saco!
---- Oi, Júlio César?
---- Oi.
---- Num trabaia de pintor mais, não?
---- Trabalho.
---- Num foi trabaiá hoje?
---- Tô sem serviço.
---- Sabe aquele prédio alto que o dotôr Amorim tocava lá na praça?
---- Sei.
---- Pois é; tem uma placa lá na frente dele pidino pião. Pedrero. Pintor. Servente. Eletricista tamém! Carpintero!
---- Mas aquela obra tava parada, porra!
---- Tava mesmo, mais uma firma da capital vai tocá ela. É purisso que tão pidino pião.
---- Vamos lá então!
---- Vãobora.
Demorou a chegar a minha vez. Sentei-me em frente ao moço. E1e me estendeu a mão, eu lhe entreguei a carteira profissional. Chamava-se Mateus. Leu minha carteira sem fazer observações e me mandou voltar dali a três dias. Exatamente no principio da semana seguinte. Podia levar roupa de serviço pra começar o trampo. Eu fora aceito na firma.
À noite, após a saída do pessoal, a obra se transformava em uma cidade em tarde de domingo: ninguém! Em cada canto, a marca pessoal de um peão: um par de chinelos de borracha remendados com arame, o par de botas. Logo acima, pendurada em um prego na parede, a roupa de serviço: uma ca1ça imunda, normalmente esfrangalhada, e a camisa suja, rasgada. Em cima, o capacete de segurança, de cores fortes. Se alguém ia fazer hora extra, o silêncio era quebrado um pouco, mas não muito. Havia como que um respeito tácito, implícito, dos operários, pelo seu local de trabalho, túmulo capitalista em que eles enterravam o melhor de suas vidas e de sua saúde para encher de dinheiro o rabo do patrão.
Mateus era da capital, o dono da firma era parente distante de sua família. Por isso ele conseguira o emprego de escriturário, embora não tivesse qualquer experiência. Detestava o serviço. Principiara o curso de Letras em uma universidade federal, mas, não terminara os estudos, embora mantivesse o hábito da leitura. Tinha sempre alguns livros por perto. Eu demorei a ter coragem de tocar no assunto das manchas com o cara:
---- Você já nasceu com estas manchas?
Ele olhou um pouco as costas das mãos e os braços feios:
---- Não, isto começou a aparecer a uns dois anos. Depois se alastrou. Esta merda!
Mateus costumava me contar as façanhas que tinha perpetrado na capital, até que o pai perdesse a cabeça e o tivesse pressionado a largar a vagabundagem e a trabalhar. As muitas vezes que perdera aulas da faculdade pra pitar maconha e beber a noite inteira e terminara a noite na cadela, sem ao menos saber porquê. As vezes que tinha roubado carros apenas pra dar uma voltinha e depois abandoná-los. As muitas vezes que entrara em pomares de pessoas velhas pra apanhar frutas pelo simples prazer de lhes perturbar o sossego. Mateus, pelo que eu via, em mais ordinário do que parecia. Talvez o vitiligo fosse um castigo! Uma coisa que o cara me contou realmente me deixou chapado.
Na primeira oportunidade que tive a grana nas mãos, corri para um telefone, após ter escolhido um número nos classificados do jornal. Uma mulher atendeu. A voz prometia. Tratamos o encontro. Fui correndo para seu apartamento. Era começo de noite quando toquei na campainha. A mulher que me abriu a porta era simplesmente um sonho.
---- Oi! - ela cumprimentou.
Eu só consegui sorrir em resposta.
---- Meu nome é Sara.
---- Vamos pra cama!
Ela me pegou pela mão e me conduziu. Era a dona da situação. O quarto de Sara era ótimo. Grande, lindas cortinas azul-claro. Um grosso tapete no chão. Um enorme espelho pendurado sobre uma penteadeira. A cama era larga, de fofura média. Propícia para uma foda. Sara ligou o som da vitrola. Música romântica, baixinho. A mulher me deitou de bruços. Quase desfaleci ao contato daquelas mãos de veludo. Parecia que a moça estava gostando do meu corpo. Parava com as caricias em determinado lugar, demorava-se, lambia, mordiscava. Eu já estava louco de vontade de enfiar nela o peru. Mas isto ainda demorou. Antes, ela me virou de costas, e repetiu todo o processo com a parte frontal do corpo. A cara trabalhava compenetrada. Gostava mesmo de homem! Por fim, disse:
Mas, quando me dei conta, estava lambendo o leite de todas as partes daquele corpo. Minha língua escorregando naquela pele lisa, lisa, e a mulher me acariciando. E não resisti quando Sara me beijou com força, com a boca pegajosa de minha própria porra. E nem acreditei no que eu mesmo fazia quando enfiei a língua no meio daquelas pernas macias, onde a mulher me oferecia uma frutinha vermelha piscando, piscando, com um grelinho aparecendo.
Vários homens da obra já tinham trepado com Tereza - a Sambeira. E ela não se importava que a gente comentasse suas transas. Era viúva, nova ainda. Branca. De cabelos castanhos ondulados. Vivia de vender pastéis e não tinha filhos. Adorava dançar. Daí o apelido.
Penso que ninguém sabia o nome de Jacaré, um pedreiro que entrara em serviço mais ou menos um mês após o reinício da obra. Só sabíamos que viera da zona metalúrgica e que era fanfarrão. Se tivesse o apelido de matraca também seria apropriado. Falava sem parar, às vezes coisas sérias, às vezes fazendo graça. Morava em uma pensão.
Contou que já passara toda sorte de apertos. Mas não reclamava. Ganhara muito dinheiro, mas gastara tudo. Vivera a vida! Bebera demais! E comera muitas mulheres. E que jamais uma mulher fora pra cama com ele e deixara de gozar.
Ao ouvir isso, os homens ligaram as antenas! Todos já sabiam que a Sambeira nunca tinha orgasmo e vinha um garganta andarilho falando que todas as mulheres gozavam com ele!
---- Como você consegue isso? Tem mulher que num goza de jeito nenhum, porra!
---- Goza! Goza sim! Todas elas goza! É preciso saber, cara!
---- Saber?! Saber o quê?
---- Saber do ponto G, intenderam? Toda muié tem o ponto G. É preciso apenas descubri onde fica o ponto G!
O ponto G! Em qual estrada aquela besta tinha aprendido aquilo? Em qual alojamento de trecho? Em qual esconderijo de lagartixa...?
---- E o que é o ponto G? - alguém perguntou.
---- G de gozá, intenderam? De gozá!
---- E onde fica ele?
Quando Jacaré ficou de pé e tirou a camisa, lvair cochichou: -- Vai cumeçá o fracasso do papudo! Depois, Jacaré tirou a calça, a cueca, as botinas, e ficou nu na frente da Sambeira. Ela ficou olhando pra ele, indiferente. A seguir, o cara se sentou mais perto da mulher. Falava qualquer coisa em voz baixa. Tereza ria. Ele passava a mão devagar em seu braço direito.
Os amantes ficaram muito tempo se lambendo, se alisando, se apertando, se amassando. Demorou algum tempo para que eles interrompessem aquilo. Jacaré não esperou pra inventar outra coisa. Virou a mulher de bruços, beijou-lhe a popa e, abrindo-lhe a bunda com as mâos, enfiou-lhe a língua melada no botão. Desta vez, a Sambeira exclamou alto; -- Ai, Jacaré!
Tereza Sambeira chegou na hora do almoço. Vestia a mesma roupa. Não tinha a cesta de pastéis. Tinha os cabelos cheios de capim.
---- Nossa Senhora, gente! Eu gozei muito, ontem! Gozei até meia-noite! Que delícia!
Ela ficou calada um momento olhando para nós, depois, disse:
---- Gozar é gostoso dimais! Dá uma tontura esquisita na gente! Uma vertigem de gente bêbada!
Nós ficamos olhando pra ela.
---- O pau de Jacaré deu até calo na minha perereca!
Depois, a mulher deu umas rodadas na rua, sambando, e cantou:
"E hoje que eu vou me acabar,
Amanhã eu não sei
Se eu chego até lá... "
Tereza era muito sapeca! Em seguida, ela perguntou, tirando um capim do cabelo:
---- Jacaré taí?
Mateus girava, em silêncio, a caneta nas pontas dos dedos. Devagar. Estava tão absorto que eu não quis quebrar o silêncio para interpelá-lo. Eu ficava imaginando o que o sujeito sentia longe de casa, com salário baixo, sem a namorada de quem tanto gostava, e com aquelas manchas horrorosas se espalhando mais e mais pelo rosto, pelos braços. Afinal, ele perguntou:
---- Júlio César, como é a vida dos operários?
Antes de responder, fiz um minuto de silêncio assustado! Eu esperava que o cara logo tentasse se desligar daquele povo marginalizado, fodido, e fosse embora, e ele vinha me fazer aquela pergunta! Surpreendente!
---- Por que você quer saber?
---- Como é a vida desse povo, cara? Eu quero saber!
---- Normalmente, é merda! É a pior possível!
---- Como assim? Em que sentido?
---- Bom, como você pode observar, tudo o que se refere a operários se relaciona à pobreza, quando não à miséria. Nos cálculos estatísticos do custo de vida, por exemplo, você nunca lê ou ouve falar em "o custo de vida subiu tanto para a classe operária”, ou "o aluguel da classe operária ficou em x ... ". É só: "o custo de "ida da classe média subiu tanto ... '" "a classe média foi arrochada pela alta do aluguel", "está alta a importação de brinquedos para os filhos da classe média", "o governo está providenciando financiamento para moradias da classe média”, "a classe média está viajando mais ao exterior", "a mensalidade escolar dos filhos da classe média...."." Na escala social, é como se o operário não existisse - é como se fosse uma classe de merda, de nada. É como se houvesse uma lacuna na base da pirâmide social. Como se existisse um monte de ninguém.
---- E como é a vida dos operários na sociedade?
---- Que sociedade, cara!? Pois se os operários podem mal e mal andar nas ruas! Eles têm uma expressão que sintetiza a discriminação, que diz: Em festa de inhambu jacu não entra! Isto porque se sentem desconsiderados, humilhados, desprezados - são a classe dos ninguém - as pessoas de classe social inferior. Então, consciente ou inconscientemente, eles evitam os lugares freqüentados por pessoas bem vestidas, elegantes, afetadas. Quando entram em lojas chiques. o fazem ressabiados, com medo de serem confundidos com ladrões, ou mesmo receosos de serem acusados de algum roubo eventual. Procedem do mesmo modo em restaurantes, em bares, com medo de serem escorraçados.
---- É o seguinte: nós podíamos conseguir histórias de operários e escrever um livro, ou mais de um, relacionado com a vida desse povo. Deve haver muita coisa interessante a respeito dessas pessoas. É um campo inexplorado. E ninguém se preocupa com essa gente! Depois, nós arranjamos um editor e ganhamos uma boa grana. Se esse tipo de literatura pegar, pode - se mesmo ganhar muito dinheiro, cara! Entre nessa comigo que nós dividimos os lucros dos direitos autorais!
---- Mas eu não entendo nada disso - respondi - eu posso procurar saber de histórias, falar com os caras para lhe contar algum fato relevante. Só isso!
---- É suficiente para fazermos o corpo do livro. E você pode tentar imaginar uma história de amor para eu usar no livro. Eu vou tentar construir um romance, que é o que tem mais apelo popular. A gente mistura situações, casos diferentes. Com o tempo, o livro começa a se desenvolver por si.
---- Você seria capaz de escrevê–lo?
---- Eu já li centenas de livros, cara! E tenho noção de escrita de romances. É preciso observar as pessoas. Seus atos e gestos, seu jeito de falar, de andar. Suas roupas, sua interação com o ambiente. O papel que desempenham no contexto social. As limitações impostas pelas convenções sociais! Deve-se também observar a natureza. O sol subindo numa árvore. A formiga andando no chão. As sombras cobrindo os morros ao entardecer. A beleza da aurora. Os dias cinzentos, chuvosos. A lua. Os pássaros. É preciso observar o mundo como um todo! E o livro deve ser um retrato da sociedade, de modo que as pessoas que o lerem, daqui a alguns anos, saibam como era a cidade, bem como seus habitantes. Tenham um retrato da realidade atual!
Eu, então, disse aos operários que o escriturário estava pensando em escrever um livro sobre o pessoal de obras. Que ele precisava de muitas histórias, de qualquer tipo, de encheção de saco. De exploração. Histórias com pessoas da sociedade, também. As reações foram as mais variadas:
---- Oh, bobo! O pessoal da sociedade persegue a gente!
---- Eu tô fora dessa!
---- Lespra!
---- E cumé qui eu vô tratá de famia?
---- Quem cunversa dimais leva tinta!
Eu, então, expliquei que a pessoa podia escrever, ou mandar alguém escrever, se fosse completamente analfabeto, e enfiar debaixo da porta do escritório. Não era preciso colocar o nome. Que falassem com os outros operários, de qualquer obra, de qualquer bairro da cidade.
Mateus abriu a gaveta da escrivaninha, retirou um livrinho, e me passou. Era "Estrutura do Romance", de Edwin Muir.
---- Eu vou estudar isso a fundo, você vai me ajudar a conseguir histórias, e nos vamos ganhar dinheiro. Este livro vai ser o primeiro de uma série de sucessos!
---- Deus queira!
Os homens riram. Me deram conselhos. Disseram que eu não me assustasse com mulher nua. Que enfiasse o peru só depois de ter amassado a mulher um pouco pra ela ficar com tesão. Eu devia acariciá-la hem devagar. Apertar os peitinhos. E que depois do pau dentro, eu não devia deixá-lo escapulir de jeito nenhum porque as mulheres ficam com raiva. Que trepasse buscando os cantinhos, que as mulheres acham gostoso.
Os caras me alertaram para os vários tipos de orgasmo. Algumas mulheres gozavam gritando, uns dois ou três minutos após o início da trepada. Que outras prendiam a gente numa chave de pernas e ficavam gemendo e peneirando em baixo da gente. Outras riam. E outras pediam para morrer: Me mata! Me mata!
Havia outras ainda que enfiavam as unhas nas costas da gente, enquanto chupavam cana. E outras ficavam sussurrando nos ouvidos da gente, fazendo ai, ai, e chamando a gente de benzinho.
Eu fiquei ouvindo aquilo com a boca aberta, com olhar curioso.
Aquilo era tudo novidade pra mim.
Ao notar que eu tava tentando fazê-la gozar, a mulher deu uma risadinha de deboche e fez:
---- Huumm!
Quase imediatamente, ela falou:
---- Tá molhado aqui em baixo! Deixa ver o que é?
Dizendo isto, ela se levantou e, saindo de baixo de mim, acendeu a luz.
---- Sangue! - exclamou. O lençol, debaixo da bunda da mulher,
estava todo ensangüentado!
---- Mas de onde saiu este sangue? - perguntei.
---- Sei lá! Isto deve ser algum problema seu!
---- Meu não! Eu não tenho problema de por sangue pelo peru! Nunca tive!
---- Mais é um bobo mesmo! - alguém exclamou.
---- É trouxa demais! - um ninguém emendou.
---- Num disconfiô que a muié tava menstruada, cara? – outro inseto falou.
---- Vai vê qui ela falô com ele qui ela era virge ainda e ele acriditô, achano qui tinha tirado um cabaço! - completaram.
Fiz papel de palhaço. Todo mundo ria de mim.
---- Calma, gente, calma! - mais um ninguém contemporizou - o rapaz tá conhecendo essas coisas agora! Depois ele acostuma! Depois tudo conserta!
---- Que dia você vai voltar lá?
---- Não sei. Depois resolvo!
Durante alguns dias fiquei ouvindo deboche nos meus ouvidos.
---- Sabe qual o nome que os operários dão pra este lugar?
---- Não.
---- Cudomínio!
---- Cu por que?
---- Eles fazem analogia com os condomínios fechados onde moram as pessoas de nível social superior. Os doutores, os professores, os grandes comerciantes, os empresários. As pessoas da sociedade!
---- Hhuummm!
---- É uma forma de ironizar o bairro .
---- É! Realmente, é bastante diferente de um condomínio fechado.
Mateus tirou uma folha de papel do bolso, uma caneta, abriu sobre o joelho e fez algumas anotações e um esboço do fundo do vale, inclusive das nuvens e dos morros longínquos.
Depois, ficamos sentados no chão, conversando, até que o sol desapareceu atrás do morro, colorindo as nuvens de vermelho.
Demorei poucos dias a voltar à zona. Voltei de dia. Por acaso, encontrei a mesma mulher. Quando a vi, de longe, ela estava sentada no meio-fio. Passava a mão nas pernas, como se estivesse tirando alguma coisa que a incomodasse. Fiquei sem jeito de chegar perto dela. Parei com as mãos na cintura, enquanto fingia olhar distraído para o lado. Ela se levantou, ao me ver, e se aproximou de mim:
---- Você é o cara que transou comigo no dia do sangue, não é? ------- Eu mesmo.
---- Eu tava menstruada naquele dia.
---- E nem me avisou, cara?
---- Você ficou insistindo, porra! E eu precisava levantar uma grana.
A mulher ficou me olhando de alto a baixo por um momento,
Depois, perguntou:
---- Aquela noite foi sua primeira trepada, não foi?
---- Por que você sabe?
---- Sou velha no pedaço, cara. É lógico que eu sei!
---- Foi minha primeira foda, sim!
---- Gostou?
---- Não!
---- Vamos pra cama?
Vacilei um pouco. Um segundo fracasso podia ser traumatizante.
Mas, fomos. A cama estava do mesmo jeito que a vez anterior. Tudo a
mesma coisa.
Depois desse dia, fiquei amigo de Auxiliadora. Às vezes, quando eu estava de folga e ela estava desocupada na zona, nós íamos pro quarto. Ela me ensinava varias posições de trepada. Eu deitado de barriga pra cima, com o pau bem duro e ela, de frente pra mim, me enfiando a xoxota; esta é, talvez, a melhor posição, porque a mulher fica inteira na nossa mão. Eu encostado à parede, sentado com o pau bem duro, e ela com ele atolado na xoxota, de costas pra mim, sentada com a bunda macia, gostosa, no meu colo. Ela encostada à parede, com as pernas afastadas e abertas. Deste modo, eu abaixava o corpo e nós trepávamos com raiva, eu levantando o peru, com força, de baixo pra cima, e ela trazendo, com fúria, a boceta de cima pra baixo. E nós gemendo e suando os corpos. E nós gozávamos no chão. Era ótimo!
Depois. Auxiliadora sumiu.
.... Uma vizinha dele, que costumava levar almoço para o marido, foi quem chegou com a fofoca na obra. Que um carpinteiro chamado Alonso estava comendo a mulher do cara no meio dos pés de eucalipto, quase todo dia, depois que o marido dela saía para o serviço, desde a segunda semana do casamento! Que, ás vezes, ela trepava com ele na própria cama do casal!
Os homens da obra se reuniram pra discutir o que fazer. Aquilo não podia ficar assim. O Geraldão era boa praça! Walter foi encarregado de falar com ele. Disse:
---- Geraldão, tem um problema na sua casa que precisa ser resolvido.
---- Problema na minha casa eu resolvo. Não preciso da interferência de ninguém!
---- Nós sabemos, mas alguém veio aqui e disse que Alonso carpinteiro tá trepando com sua mulher no meio dos pés de eucalipto. Tem dia que ele come e1a na sua cama de casal.
---- Geraldão, nós vamos te arrumar um revólver amanhã, sexta· feira. Se você encontrar os dois juntos, mete fogo nos dois e foge do flagrante. Na segunda-feira você aparece. Não tem problema nenhum! Nós limpamos sua barra! Sua vizinha testemunha a seu favor.
---- Mas eu vou conseguir fazê isso? Nem nunca peguei num revólver!
---- Consegue! Consegue sim. É só se lembrar de Eva peneirando debaixo do Alonso que você puxa o gatilho!
Na segunda-feira, logo de manhã, a mulher dele apareceu na obra, com muita raiva. Estava vivinha da silva. E ralhou:
---- Que caralho deu na cabeça do Geraldão? Ele ficou resmungando pelos cantos sábado e ontem o dia inteiro. Sumiu ontem à noite e eu encontrei ele morto agora de manhã, em cima de um pedaço de papelão, no meio dos eucaliptos, bem perto de nossa casa, com um tiro na cabeça! Um buraco de bala de todo tamanho! Os homens ficaram lívidos.
---- Quem deu o revólver pra de? Silêncio.
---- Por que ele tava andando armado?
Silêncio.
---- Ele tava com algum problema?
Silêncio.
Mateus ficara tão entusiasmado com a feitura do livro que comecei a acreditar que aquilo poderia dar algum resultado favorável de fato. Ele já tinha escrito a história de Jacaré com a Sambeira, além das andanças do sujeito, a triste história de Geraldão, descrevera o prédio onde trabalhávamos, e lia muito o livro sobre a estrutura do romance que conseguira. De acordo com seu projeto, no prédio mesmo seria ambientado o romance que tencionava escrever. As descrições dos operários também estavam prontas.
Interessante é que Mateus começou a circular com desenvoltura no meio das pessoas da sociedade. Levantava-se de manhã, nos fins de semana, se arrumava direito, e ia para a porta da lanchonete mostrar os esboços do livro, observar a afetação das pessoas de nível social superior, trocar idéias esperando conseguir algum fato que pudesse usar no desenvolvimento do enredo. Às vezes, era convidado para festas em condomínios fechados, em prédios da classe alta. Ao me encontrar, sempre mostrava as anotações que tinha feito, baseadas em suas últimas observações.
E o Petrônio? Foi o último operário a ser contratado pela firma. Era o mais enigmático. E o menos enturmado com o pessoal da obra. Andava sempre limpíssimo, da cabeça aos pés. Cabelos bem penteados. Fazia o serviço de eletricista. Nunca se envolvia com os operários da obra, mas, chegava perto deles, embora mantendo uma certa distância. Colocava a mão direita no queixo, a esquerda na cintura, e ficava analisando e observando, em silêncio, o comportamento dos peões. Talvez fosse um filósofo. Ou talvez estivesse ensaiando para se tomar escritor. Só sei que costumava fazer intervenções idiotas nos papos dos operários, dizendo: “Assim disse Shakespeare", ou, "de acordo com a teoria psicanalítica de Lacan....”
Recitava poesias em voz baixa. Andava sempre com recortes de seções culturais de jornais nos bolsas das calças. Seu comportamento era indefinido: não se sabia se gostava dos operários ou se era amigo apenas do patrão. Sempre que ouvia alguma critica a alguém importante da cidade, dizia: ---- Gente, gente, não façam isso! O mundo é dividido em classes! Alguns mandam, outros obedecem! É a lei do mundo!
Apenas Ernâni não dizia nada. Ernâni era servente. Um bom jogador de baralho. Era forte, bastante coroa. Toda vez que saía assunto de mulher perto do cara, ele abaixava a cabeça e ficava pensativo olhando para
o chão. Foi Ivair que atentou para o fato de nunca ninguém ter visto aquele sujeito com mulher. E ele não era casado. Nunca ia à zona. Nenhuma mulher jamais dissera ter sido cantada por ele. Pior ainda, depois do horário do serviço, desaparecia. Zé Maria, saliente, perguntou:
---- Ocê num é viado, não, Ernâni?
Boa praça, o sujeito não ralhou. Apenas disse:
---- Eu não, porra! Eu gosto dimais de muié! Vê lá se ieu vô dá a bunda!
---- Negócio seguinte: eu cumecei a trepá muito cedo. Na minha casa tinha uma impregada chamada Rosa. Morena clara, forte, de pernas grossas deliciosas. Peitos grandes durinhos. A primeira vez que ela me pegou eu era muito novo ainda. Tinha treze anos. Eu tava sozinho com ela. Rosa lavava roupas e eu tava incostado no tanque, observano. Ela era sortera, muito safada. Tava isfregano roupas e me dava umas olhadas isquisitas. A gente cunversava umas gororobas sem sintido. De repente, ela me disse:
---- Naninho, passa as mão nas minhas coxas um pouquinho?
Eu nem istranhei aquilo. Eu era muito bobo.
---- Pra quê?
---- É qui eu tô com tesão!
---- Que tesão?
---- Eu tô com vontade de dá!
---- Que qui é isso?
---- Passa as mão nas minhas coxas que eu ixplico.
---- Chanfrado era o corte qui dexava uma única ponta no pau. O bico de chalera tinha uma entrada no meio e dexava duas ponta. Uma in baxo e outra in cima. Prifiri o chanfrado. Ele me cortô a cabeça do piru e eu tive de fazê um monte de curativos. Como dueu! Eu sufri pra caramba! E mmca mais tive coragi de tirá a roupa na frente de uma muié! En não! Um pau isquisito desses! E o medo de pegá duença grave outra vez e ficá sem o resto?!
---- E sua muIher dentro do guarda-roupa?
---- É de burracha, porra!
Os homens viraram a cara pro outro lado de modo a não ver aquele troço esquisito. Logo depois, o dono do pedaço de peru levantou as roupas e ninguém fez nenhuma observação. Ernâni não era viado mesmo não! Era o maior comedor de borracha da paróquia! Cruz credo!
---- Que idéia foi essa sua de trepar comigo sabendo que tava com gonorréia, cara? Será que sabe que eu trabalho, que sou um fodido, que tenho de aproveitar todos os dias da semana?
---- Eu num sabia que tava doente, porra! Só cumecei a sinti dor no dumingo à noite. Se eu soubesse tinha te avisado.
---- Não acredito! Você sabia!
---- Júlio César, pegá uma gonorréia é como tê um acidente de trabaio. Acontece quando se menos espera. Ocê acha qui eu sei quando tou transano com um cara com gonorréia? Não! Lógico qui não! Essa gonô foi um acidente!
---- Mas eu fiquei puto, porra! Me deu uma mão-de-obra danada!
---- Mais aconteceu e já acabou. Se num quer corrê o risco de pegá duença, num trepa com puta!
Cida tinha razão. O melhor era sair fora da zona, mesmo! O diabo é que eu não estava considerando esta hipótese. Eu nem consegui ficar com raiva da mulher. Só não transamos mais.
Mateus teve um grande susto e um motivo de preocupação certo dia de manhã. Eu também fiquei intrigado. Ele me chamara ao escritório. Queria ver se eu conseguia identificar o remetente de um texto que havia sido deixado sob a porta, durante a noite. Eu me sentara ao lado da escrivaninha e lia a historia. Eram três paginas de garranchos e de erros de linguagem. Quase ilegíveis. Ouvi passos no assoalho de madeira da casa velha. Percebi quando pessoas entraram no escritório e pararam a uma certa distância da escrivaninha. Não levantei os olhos, tão absorto estava na leitura. Apenas o fiz após ouvir a voz de Mateus:
---- Bom dia! Posso servi-los em alguma coisa?
Levei um susto! Era o prefeito da cidade! Com uma mulher! Tinha o peito excessivamente estufado, o nariz excessivamente empinado, a tez avermelhada, os dentes trincados! Cu de porco era bonito perto da cara de merda com que ele olhava para o escriturário! Estava imponente, com as duas mãos dobradas sobre o saco. Era alto, barrigudo, o nariz grande, cabelos grisalhos. A mulher era alta, 1oura, da bunda larga e das coxas grossas. Bastante arrumada. Nenhum dos dois respondeu à pergunta do cara. Ficaram parados, encarando o escritor, durante certo tempo, depois, saíram. O homem pisava com força, dando passadas pausadas, como um autêntico
soldado SS alemão. A mulher pisava com leveza.
O escritor não entendeu a presença daquele cara no escritório e eu nada podia fazer para ajudá-lo. Apenas lhe disse que, já há algum tempo atrás, tinha havido campanha para prefeito e uma das facções das oligarquias políticas da cidade, provavelmente receosa de perder o poder local, tinha decidido pressionar as classes baixas a votarem em seu candidato --- que era aquele sujeito que aparecera no escritório. E que o falecido dono da incorporadora que construía aquele prédio, na época - o doutor Amorim - tinha feito uma reunião na garagem, o encarregado de então tinha colocado dois caixotes com o fundo virado pra cima num canto da garagem, tinha amontoado os operários no cômodo, e o candidato mais o dono da incorporadora tinham subido cada qual em um caixote, e que o cara apresentara o candidato, apontara o dedo para os peões, ameaçara com o desemprego, dizendo:
---- Se meu candidato não ganhar, você pode ser mandado embora, você pode ser
mandado embora, você pode ser mandado embora, e você... Aí, o povo tinha votado em peso naquele sujeito!
Mateus ficou me olhando com cara de indiferença. Parecia não estar acreditando em uma palavra do que eu dizia! Esperei que ele fizesse alguma observação, como tal não aconteceu, continuei:
---- Perseguem qualquer pessoa que esteja enchendo o saco?
---- Qualquer uma!
---- E se o cara for soldado?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for pobre!
---- Tá fodido.
---- E se o cara for rico?
---- Tã fodido.
---- E se o cara for operário?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for padre?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for delegado?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for preto?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for reitor?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for sindicalista?
Eu já estava com o saco cheio daquelas indagações do Mateus. Por um momento, fiz uma pausa, achando que ele estava com ironias. Ele ficou me encarando. Depois, continuei:
---- Se for sindicalista, o cara tá mais do que fodido!
---- E se o cara for bicha?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for comedor?
---- Tá fodido.
---- E se o cara for gilete?
---- Tá fodido.
Mateus parou de fazer aquelas perguntas irritantes. Ficou olhando pra tela do monitor, aparentemente pensando alguma coisa.
Eu disse:
---- Em resumo, eles perseguem as pessoas que ousam ter opiniões diferentes e expressá-las. Perseguem em qualquer lugar que a pessoa esteja ou vá: na missa, no boteco, na zona, no mato, no colégio, na universidade, nos empregos (principalmente), na rua, em casa. É um inferno!
O escritor manchado teve um acesso de gargalhadas:
---- Ha! Ha! Ha! - fez ele, deitando completamente a cabeça sobre o encosto da cadeira, debochando - Ha! Ha! Ha!
Mesmo detestando ouvir as gargalhadas do cara, eu ainda disse:
---- Os políticos da cidade, os mais antigos, os conservadores, que acham que a cidade é deles, fazem de tudo para inviabilizar a vida de seus possíveis adversários, para forçá-los a sair da cidade, entende?
---- Mas, Júlio Cesar, primeiro você me diz que os operários são explorados, são humilhados, sofrem deboche por qualquer motivo; depois me diz que eles têm medo até de andar nas ruas, de entrar em lojas, de abrir a boca, de chegar perto das pessoas de nível social superior. Agora inventa uma reunião na garagem, porra? Acho que você tá com a cabeça muito fértil! Estas coisas que você tá me dizendo não fazem o mínimo sentido, cara!
---- Deixe-me ler alguns artigos da constituição para você: I - homens e mulheres são iguais em direitos e em obrigações; II - ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei; III - ninguém será submetido a tortura ou a tratamento desumano ou degradante; IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; V - é assegurado o direito de resposta ... IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença; X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas... É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz...
Mateus não deu mostras de ter achado graça em minha observação. Ao invés disso, trancou a cara e voltou a olhar para a tela do monitor. Eu também fiquei olhando. Esperando. O monitor entrou em descanso. Na tela, começou a se desenrolar uma história:
Há um náufrago solitário numa diminuta ilha deserta. Apenas um triste náufrago solitário e um pé de cocos. A lua brilha. Seus reflexos criam pálidas figuras na água. O triste náufrago solitário dá voltas inúteis ao redor do coqueiro: é preciso sair dali! Mas, como?
Tirei os olhos da tela do monitor e os fixei no escritor. Eureca! Por um momento eu achei que tivesse descoberto o remédio para o vitiligo: era só o cara ficar permanentemente com raiva! As manchas da cara do Mateus tinham desaparecido todas! Ele ficara vermelhíssimo! Putíssimo!
E o escritor ainda pensava.
---- O trinômio da mesquinharia!
---- Isso mesmo! Os políticos, principalmente os mais antigos, têm os correligionários deles, que se infiltram em todos os meios, em todos os lugares. Sempre que ouvem alguma coisa que pensam vai desagradar a um dos caciques, ou sempre que ficam sabendo de alguma coisa que possa ser usada pra foder um suposto adversário, correm a lhe dizer!
---- Ao se assistir televisão, é comum se ver a esposa do prefeito dando uma sacola de alimento não-perecível às mães de crianças carentes e dando um tapinha bem carinhoso nas cabecinhas dos nenês das mulheres. Se estas pessoas costumassem reclamar de qualquer coisa que incomodasse o prefeito ou a sua esposa, ou a algum figurão da cidade, a perseguição política ocuparia o lugar da sacola de alimentos! Acredita?
---- Se você está dizendo!
Mateus tem profundos pensares. Escora o queixo na mão direita. Apóia o cotovelo no tampo da mesa. Por fim, diz:
---- Ditaduras são um problema! Primeiro, Getúlio Vargas! Depois 1964! O uso do cachimbo...
----- Júlio César, houve um presidente da republica que deixou marcas profundas no modo de se fazer política na vida pública do país!
---- O que ele fazia?
---- Infernizava a vida das pessoas que ele considerava adversárias. Perseguia, desempregava, fazia sumir! Em suma – caçava! E arranjou uma rede de espiões pra tomar conta da vida das pessoas, também!
----- Quando?
---- Antigamente! Lá no princípio do século passado!
---- Quem era ele?
---- Arthur Bernardes!***
---- É mesmo?! - exclamei.
Deixei meu olhar vagar pela mesa, pelas paredes, enquanto pensava. Mateus olhava, ora para mim, ora para o monitor. Para o nada! Pensava, do mesmo modo.
---- Será que... -- começou a dizer. Parou.
---- Eu acho então que... -- eu comecei. Parei. Mateus olhava interrogativamente pra minha cara. Ele estava pensando o mesmo que eu!
---- Então, eles aprenderam com Arthur Bernardes! - eu disse.
---- Vou dar um enfoque sócio-político ao livro! Pretendo provocar uma mudança, uma democratização, uma modernização na cidade!
A maldição das manchas! A piração das letras!
---- Manda brasa, cara! Ponha todos esses troços aí!
Encontrei-me com Jesus na praça. Estava bêbado. Tinha o corpo jogado para a frente, como se preparando um mergulho. Pernas e braços abertos. O topete na testa. A calça marrom em frangalhos. A camisa amarela em frangalhos. Os pés no chão. Tentei sair fora dele. Não consegui. Ele colocou a mão direita sobre o meu ombro esquerdo, Tentei desviar o rosto daquele bafo de pinga, daquele cheiro ruim de cacos de dentes:
---- Ocê... ocê .. .ta sujo, cara! Tava interrado?
---- Tô com pressa!
---- A pulícia tá atrais docê aí! O que qui ocê arrumô?
---- O quê?
---- É isso mesmo! Aquele iscriturário man... man ... manchado... nois pensemo... qui... ocê tinha ... tinha... sumido com ele!
---- O que ele fez?
Eu comecei a sentir vertigem. A bola de gelo voltou a crescer no
---- Ele .... de ... deu um gorpe. na filma... tiro um monte de grana ... onti di dia... e sumiu com ... com o dinhero!
---- E as roupas dele? As coisas dele?
---- Levô tudim ... tudim! Num dexõ nada pra trais!
---- Meu Deus! - eu exclamei – e o livro?
---- Qui livro? Tá bebo, cara?
Desvencilhei-me dele. Saí em disparada pra casa. Não andei quinhentos metros e dei de cara com o Petrônio. Nojento! Ele estava lá, encostado a um prédio, tranqüilamente fumando um cigarro. Punha o pito nos lábios, puxava vagarosamente a fumaça, fechava os olhos, levantava um pouco o nariz, e soltava a fumaça, fazendo círculos perfeitos com um movimento da língua dentro da boca. Tentei escapulir dele, mas foi impossível:
---- Olá, Júlio César?
---- Olá!
---- Você tava sumido!
---- Tava na capital, você tá cansado de saber disso!
---- Viajando, então?
Que saco, porra! Eu tava quase mandando aquele cara ir tomar no cu!
---- É!
---- Você tá suado! Sujo!
---- Tava correndo na poeira!
---- Quero te contar um negócio.
---- Tô com muita pressa!
---- É importante pra você!
---- ENTÃO FALA, CARALHO!
---- He! He! Foi o prefeito da cidade! Ele descobriu tudo a respeito do livro!
---- GRACINHA... E ENTÃO?
---- Então, ele mandou espalhar por todos os lados da cidade que Mateus tinha virado bicha!
---- E quando ele passava perto dos motoristas de táxi que o reconheciam...? Eles apontavam os dedos e diziam: --- olha lá, gente, a boneca mais nova da cidade!
---- Espere aí – eu tentei dizer – mas tem um negócio...!
Petrônio, aquele filho de uma puta, perdera completamente a cabeça por causa da façanha do prefeito e de seus cupinchas! Dava um risinho curto, de vez em quando, e emendava:
---- E nas portas dos salões de beleza! As mulheres apontavam pra ele e falavam: --- olha lá, o cara que virou bicha, gente! Coitado! Será que ele se cansou das pererecas?
---- Parece não! – outra dizia – Vai ver, ele joga nas duas!
---- Gilete ele? A primeira lâmina faz tchan, a segunda faz tchan, tchan, e a terceira faz tchan, tchan, tchan...!
---- HEI, EU QUERO FAZER UMA PERGUNTA, PORRA!-exclamei com raiva, entorpecido de desgosto-ELE CONVIVEU COMIGO MUITO TEMPO E É MUITO CHEGADO NUMA BOCETA, POR QUE O PREFEITO MANDOU ESPALHAR QUE ELE VIROU BICHA?
Petrônio não respondeu de pronto. Ainda deu outra tragada no cigarro, soltou a fumaça devagar, fazendo círculos, deu uma olhada no toco que já quase lhe queimava a mão, e disse:
---- He! He! O prefeito mandou espalhar que o Mateus enfiou uma garrafa na bunda!
---- GARRAFA?!
---- HA! HA!
O que era aquilo, porra? Pra mim, não passava de brincadeira daquele cara! Mas Petrônio apertava com força a mão esquerda sobre a boca, tentando abafar o riso! Suas bochechas estavam inchadas, avermelhadas!
---- Garrafa?!
---- E, toda hora que a mulher do prefeito via o cara, ela dizia: -- olha o cara que enfiou a garrafa na bunda, gente! Virou bicha... e fica falando mal da cidade, ainda!
---- Garrafa?!
---- .... ?!!
---- Sabe o que dois maconheiros falaram quando viram ele na rua, cara? Ele ia passando e um falou assim com o outro: --- "Olha lá, bicho, o cara que infiô a garrafa já vai ali; saca!" e o outro exclamou: -- "É mesmo!? Num garrô no saco, não, cara? Ha! Ha! Ha! E um gringo viu ele e falou:
---- Una garrafa?! ULA-LÁÁÁ!
---- HEI! EU PRECISO...
---- Sabe aquele maluco gordo que fica catando latas e papelão e falando sozinho pelas ruas? Aquele que usa uns brincos esquisitos na orelha e só anda com a bunda cheia de pinga? Pois ele, pra fazer graça, saiu falando que ‛a muié do prefeito infiô aquela bundona branquela lá dela na garrafa, he, he, he’, debochando porque a esposa do prefeito tem a bunda muito grande, e o prefeito mandou avisar pra ele que, se ele não parasse com isso, ele, o prefeito, mandaria lhe dar uma surra e o faria sair da cidade pra nunca mais. Aqui, ele não cataria mais nada!
---- Mas como o Mateus ficou?! Ele...
Eu apertei minha cabeça entre as mãos e fechei os olhos. Sentia um enorme desconforto interior. Meu estômago embru1hava, minhas têmporas latejavam, minha cabeça zunia, minhas pernas estavam bambas. Eu estava triste! Eu estava quase chorando! E Petrônio tinha perdido completamente a compostura. Era a primeira vez que eu o via agir daquele modo. Palhaço! Ele pulava, ora num pé, ora no outro, rebolava a bunda, e cantava:
"Mesmo que eu mande em garrafas
Mensagens por todo o mar
Meu coração tropical
Partirá esse gelo e irá..."
---- Me diga uma coisa: como poderia uma pessoa enfiar uma garrafa uma bunda?
Era a primeira vez que aquele desgraçado evitava me olhar nos olhos. Olhou de um lado para outro, sem graça, passou a mão direita no queixo, depois, ficou mirando o chão em silêncio, enquanto movia a guimba do cigarro com o bico do sapato, pensativo.
---- Como?
Petrônio continuava do mesmo modo. Eu fui tomado de uma raiva incontroláve1. Berrei, com todas as minhas forças:
---- COMO, SEU FILHO DE UMA PUTA? EU QUERO SABER!
Silêncio.
---- E, ficando bem falado, Júlio César, a sociedade vai dar sempre esmolas para você e sua família. Roupas velhas. Sapatos velhos. E, quando você morrer, talvez a prefeitura compre uma urna novinha pra você! Ou pra sua mulher, se for o caso. Quer reconhecimento melhor do que esse?
---- ESPORRO EM CIMA DE SUAS PALAVRAS!
---- Com todos os operários obedientes assim, Júlio César, o pais vai ser melhor! Todo mundo vai viver em paz! Cada camada social respeitando a outra! Todo mundo vai ser alegre, feliz! Lembre-se, rapaz: ordem e progresso!
---- FOI VOCÊ QUEM MANDOU AQUELA CARTA! FOI VOCÊ QUEM DEDUROU O MATEUS COM O PREFEITO, DESGRAÇADO! POR ISSO ELE FOI AO ESCRITÓRIO, UM DIA, CONHECÊ-LO! - gritei com o Petrônio - FOI VOCÊ!
Silêncio.
---- Você precisa compreender, Júlio César, o mundo é dividido em classes!
--- É PRECISO MANTER O STATUS QUO DA SOCIEDADE, JULIO CÉSAR!
---- STATUS CU! SOClEBUNDA! VÁ À PUTA QUE TE PARIU!
Virei as costas. Saí em disparada para o meu quarto.
Despi-me de minhas roupas. Peguei a toalha. Entrei no banheiro. Abri o chuveiro. Abri pouco. A água começou a cair. Encostei-me à parede de azulejos. Eu estava assustado! Atordoado. Entorpecido... e cansado; muito cansado. Comecei, lentamente, a escorregar as costas em direção ao piso, até que me sentei com as pernas dobradas de encontro ao peito. Dobrei os braços sobre os joelhos e encostei a cabeça sobre eles.
Eu estava fodido!
Fodid
Fodi
Fod
Fo
F...
E minha Quidinha ia aparecer na televisão recebendo uma sacola de alimentos não-perecíveis das mãos da esposa do prefeito.
E a esposa do prefeito ia dar
um tapinha
bem carinhoso
na cabecinha
do meu
nenê.
Então, começo a ouvir o barulho contínuo e seco da Mauser nove milímetros. As balas zunem à minha volta, eu me curvo ao máximo e continuo a correr. Mas, elas começam a me atingir em cheio, nos braços, no tronco, na cabeça. Como queimam! Eu sinto dor. Tropeço. Caio. Então, acordo assustado!
Eu abrira pouco a torneira. Cai pouca água do chuveiro elétrico. A água está fervendo, me sapecando, e o vapor tomou conta do cômodo. Ajusto rapidamente o jato e me banho, bem devagar...
Era a Vagabunda que tinha batido o portão. Tinha se deitado de bunda pra cima na minha cama, com o testeiro da ferramenta de trabalho virado pra baixo. E tinha deixado aberta a porta do quarto! Nem estava ali! Estava de olhos fechados e não os abriu quando joguei a toalha sobre a cama. Bati a porta do quarto.
---- Cumeu a gostosa lá na capital, cara? - perguntou, debochando.
---- A muié do prefeito falô comigo qui ele infiô uma garrafa na bunda, Julinho -- e virô bicha! E fica falano mal da cidade, ainda!
Só faltava me aparecer aquilo!
---- Vira esta boceta pra cima, cara, senão eu enfio o pau neste rabo seu agora mesmo! -- eu disse, com rispidez.
---- Tem portância, não, querido! Eu dexo! - ela respondeu.
Mas se virou de costas. Tirou a calcinha. A saia. Abriu as pernas. Deitei-me em cima daquilo. Segurei-lhe os ombros, enfiando as mãos debaixo de seu corpo. Ela jogou, com displicência, os braços em volta do meu pescoço. E estava de bom humor, a putona!
---- Julinho, ocê me ama?
Vagabunda!
Encarquei nela o peru!
Ela grunhiu como uma porca.
Eu estava tristíssimo!
Eu estava soluçando!
Eu tinha os olhos cheios de lágrimas!
sábado, 13 de agosto de 2011
sábado, 6 de agosto de 2011
HOMENS TRABALHANDO
MEU PRIMEIRO LIVRO [ROMANCE]
(ainda a ser publicado)
Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encarregado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras páginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, perguntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!
Um enorme guincho fora colocado na frente do prédio e funcionava como um elevador, levando e trazendo material e homens para os diversos andares, por meio do contato de uma chave elétrica. Os homens chamavam o guincho, dos diversos andares, puxando um arame esticado junto à lateral do aparelho, desde o térreo até o topo da construção. Paramos ao lado do guincho, esperando que ele fosse trazido ao térreo. Quando chegou, subimos na plataforma.
---- Sétimo! - disse Zé Antônio ao rapaz que manejava a chave elétrica. O cara fez o contato e rapidamente chegamos ao sétimo andar.
Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície lixada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquentar o almoço dos peões.
A um canto, duas extensas fileiras de tijolos, tendo filas transversais de pedaços de ferragens roliças que serviam como trempe, formavam o que constituía o suposto fogão.
---- Todo dia vou esquentar meu almoço! - eu disse.
---- Nada disso! - o encarregado afirmou - um dos empregados vai a todos os andares meia hora antes do almoço, pega as marmitas, traz pra garagem, acende o fogo, aquece a comida e, no momento certo, cada um pega a sua marmita. Nada de todo mundo se amontoar aqui pra fazer bagunça e perder tempo!
---- Certo!
Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpinteiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, batendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digitou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra enxugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!
Esmeraldo era o nome do servente do pedreiro azulejista do sétimo. Era um dos negros mais feios nunca vistos. Baixinho, magrelo, de cara encovada e barbicha dura, esticada. Usava um par de botinas de plástico, pretas, que lhe davam um chulé de primeira qualidade. Ele mesmo não se lembrava da última vez que tirara a roupa de serviço para ser lavada. Porquíssimo! Mas era boa praça. Depois que tomei intimidade com ele, um dia ele me gritou na hora do almoço:
---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, falando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!
Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos compradores dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como autônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que morando e trabalhando na mesma cidade.
Era uma tarde de sexta-feira e ele me disse:
---- Júlio César, hoje nós vai fazê um programão! Nois vamo lá na Helena dançá e bebê. Lá tem cada garota da ponta da oreia!
---- Onde fica isso?
---- Ocê vai vê!
Ivair era mulherengo, embora fosse casado. Tinha doze filhos. A mulher, de tanto sofrimento, tinha a expressão compungida da imagem de Nossa Senhora. Quaisquer cinco minutos que tinha livres, ou em qualquer momento que escapulia do serviço, Ivair aproveitava para tomar uma lambada da destilada.
Ivair chegou. Colocou o pé direito no umbral da porta. Vacilou, porque estava bêbado e o salto da bota dificultava a firmeza dos pés. Firmou-se com as duas mãos nos batentes sujos e jogou o corpo para a frente. Ficou de pé dentro do cômodo e disse, com voz anasalada:
---- Boa noite, minha gente!
Ninguém respondeu. Ele se achegou da mulher de pituca na cabeça. Sentou-se a seu lado:
---- Dá licença?- perguntou. A mulher olhou para ele e permaneceu em silêncio.
---- Qualé sua graça? - insistiu.
---- Hein?
---- Seu nome, qualé?
---- Lídia.
Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.
Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara bebendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.
---- Nã... não. N... nã... não tenho. - ela respondeu.
---- Você não fuma?
---- Fu... fumo, m...mas ho...hoje tô s... sem cigarros.
---- Como você se chama, moça?
---- Meu no... nome é... é Madalena.
E eu lhe disse que me chamava Júlio César e perguntei:
---- Você tá vindo de onde, querida? Tava mandando umas biritas?
---- Eu? Não. Ve... venho da casa de umas... umas colegas. Eu tava es... estu... dando!
Estudando?! Houvesse cachaça para estudante daquele tipo!
---- Você estuda onde?
---- Na uni... universidade. Na fe... federal.
Que chique!
---- E você estuda o quê?
---- Pós...pós-graduação!
---- E em qual curso você faz pós-graduação, querida?
---- Fa...faço pós em ... ci... ciências do... domésticas.
---- Que ótimo! - eu exclamei - vamos dar umas voltas por aí? - eu perguntei, ao mesmo tempo que enfiava o braço esquerdo em volta do pescoço da moça.
---- Se.... será que.... que va... vale a pe... pena?
---- O que você acha? "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"- eu perguntei, roubando, em seguida, uma frase de Fernando Pessoa e já a fui puxando para um beco que levava a um bairro afastado.
Ela riu e perguntou:
---- O... o que é i...isso que... que v... você fa...falou?
---- Nada!
Voltamos para a mesa após algum tempo. Madalena ficou bêbada depressa. Eu perguntei:
---- Tem compromisso com alguém?
---- Só comigo mesma!
Logo vi, então, que não tinha com ninguém mesmo!
---- Que tal você dormir lá no meu quarto de vez em quando? - sugeri.
---- Vou fazer uma experiência. Se você for gostoso e bom de cama...é uma boa idéia! Quando nós sairmos daqui, a gente passa lá.
---- Pára de beber então, porra! - eu exclamei - você já começou a ratear!
Insolente, ela respondeu:
---- Não enche o saco, cara! Cuida de sua vida!
Era madrugada já quando saímos da cabana. Havia poucas pessoas no lugar, a música tinha sido desligada. Pior ainda, o lotação tinha deixado de circular. Fomos obrigados a andar a pé, bêbados, à noite, até chegarmos a casa. Viemos abraçados, trôpegos, Madalena me puxando, torta, para a direita, e eu a puxando, turbinado, para a esquerda.
Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair correndo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?
Depois de emassar o apartamento, era necessário lixar bem todas as paredes e tetos. É um serviço desagradável, mas tem a vantagem de espantar os chatos. Ninguém entra onde se trabalha. O pó finíssimo que se desprende da massa corrida parece farinha de trigo, alvíssimo, e fica em suspensão. Como é facilmente carregado pelo vento ou pela brisa, ele suja tudo e todos. Por isso, durante o tempo em que estive lixando os cômodos do apartamento, o Puxa-Saco só enfiava a cara na porta da sala quando passava no guincho, sem jamais entrar pra me perturbar. O doutor Amorim não apareceu.
Após a lixação, dei uma demão bastante diluída de selador pra fixar o pó na parede, o que propicia a colagem da tinta. Depois disso, o apartamento estava pronto pra receber a pintura.
(ainda a ser publicado)
Era princípio de setembro e eu estava sentado em frente à escrivaninha do encarregado da obra. Ele me perguntou:
---- Trabalha de pintor, então?
---- Sim! - respondi.
---- Há quanto tempo você pinta prédios?
---- Três anos.
---- Tá sem serviço no momento?
---- Sim!
---- E espera uma colocação nesta empresa?
---- Por isso eu tõ aqui.
---- Tem sua carteira profissional?
Levantei um pouco a bunda da cadeira, enfiei a mão no bolso traseiro direito da calça, tirei a carteira, a entreguei para o encarregado, e ele principiou a folheá-la; a princípio depressa, as primeiras páginas, depois, mais devagar, as páginas que registravam entradas e saídas em serviço. Antipático, o cara observou:
---- Vê-se que não era muito ligado aos locais de trabalho! - comentou, com a carteira aberta nas mãos, sem me olhar.
---- Normalmente, eram serviços de pouco tempo. Nada de monta.
Ele ficou em silêncio olhando para a carteira, depois, perguntou:
---- Mora na cidade desde que nasceu?
---- Não; há cinco anos.
---- Veio da roça?
---- Não; da zona metalúrgica.
---- Perto da capital, então?
---- Isso!
Um enorme guincho fora colocado na frente do prédio e funcionava como um elevador, levando e trazendo material e homens para os diversos andares, por meio do contato de uma chave elétrica. Os homens chamavam o guincho, dos diversos andares, puxando um arame esticado junto à lateral do aparelho, desde o térreo até o topo da construção. Paramos ao lado do guincho, esperando que ele fosse trazido ao térreo. Quando chegou, subimos na plataforma.
---- Sétimo! - disse Zé Antônio ao rapaz que manejava a chave elétrica. O cara fez o contato e rapidamente chegamos ao sétimo andar.
Zé Antônio me mostrou os cômodos, determinando o que gostaria que fosse feito: lixação das paredes, uma demão de selador nas paredes, duas demãos de massa corrida, lixação bem feita da massa corrida, de modo que não fosse visto um único risco na superfície lixada, outra demão de selador, para fixar o pó. Queria também uma demão de tinta a óleo nas janelas e uma de tinta plástica nas paredes. O serviço, então, seria interrompido neste ponto, para que fosse aplicado o sinteco. Eu deveria passar a outro apartamento. Passei a mão sobre algumas paredes para lhes sentir a textura:
---- Dá pra você?- ele me perguntou.
---- É simples!- respondi.
Descemos pelo guincho até ao térreo. O encarregado me mostrou a garagem subterrânea do prédio, enorme, atulhada de tijolos, de sacos de cimento, marcos, portas e montes de areia. A um canto se amontoavam as bicicletas e algumas motos dos operários.
---- Vê aquele monte de tijolos escurecidos ali?
---- Sim.
---- O pessoal chama aquilo de fogão. É usado pra esquentar o almoço dos peões.
A um canto, duas extensas fileiras de tijolos, tendo filas transversais de pedaços de ferragens roliças que serviam como trempe, formavam o que constituía o suposto fogão.
---- Todo dia vou esquentar meu almoço! - eu disse.
---- Nada disso! - o encarregado afirmou - um dos empregados vai a todos os andares meia hora antes do almoço, pega as marmitas, traz pra garagem, acende o fogo, aquece a comida e, no momento certo, cada um pega a sua marmita. Nada de todo mundo se amontoar aqui pra fazer bagunça e perder tempo!
---- Certo!
Fiquei lixando até que o encarregado chegou. Ele ficou de pé durante algum tempo, me olhando, depois, foi até ao banheiro onde o pedreiro assentava azulejos. Em seguida, foi encher o saco do carpinteiro. Quando voltou da inspeção, eu estava de pé perto da janela, batendo o pó dos cabelos, da cara, da roupa e assoando o nariz. Ele olhou para o relógio, ficou um minuto me encarando com as mãos às costas, depois, subiu pela escada para o andar de cima. Pouco depois, desceu e eu mudava a escada de lugar. Ele tornou a parar me fitando. E disse, tirando uma calculadora do bolso e olhando o relógio:
---- Júlio César, veja bem - apertou a tecla de ligar e digitou o número sete - você começou a trabalhar às sete horas, não foi?
---- Foi! - respondi.
---- Das sete às oito e meia você trabalhou sem interrupção, certo?
---- Certo!
---- Quando você interrompeu o serviço e desceu da escada pra olhar as ruas pela janela...
---- Hei! - eu exclamei - nada disso! Eu parei um pouco pra bater o pó que penetra na roupa e no cabelo da gente! Também pra enxugar o suor que cola a sujeira no corpo!
---- Mas você demorou dez minutos! - ele falou.
---- E daí? Todo mundo faz isso! Sempre se descansa um pouco!
---- Aqui, não! - ele insistiu.
---- Como não? Este serviço é foda!
Esmeraldo era o nome do servente do pedreiro azulejista do sétimo. Era um dos negros mais feios nunca vistos. Baixinho, magrelo, de cara encovada e barbicha dura, esticada. Usava um par de botinas de plástico, pretas, que lhe davam um chulé de primeira qualidade. Ele mesmo não se lembrava da última vez que tirara a roupa de serviço para ser lavada. Porquíssimo! Mas era boa praça. Depois que tomei intimidade com ele, um dia ele me gritou na hora do almoço:
---- JULINHO, VEM CÁ!
Eu fui. Ele destampou a garrafa de café e me passou, falando:
---- Toma aí. Um cafezinho.
---- Agora? Eu vou acabar de almoçar primeiro, porra!
---- Não! Toma! Toma!
Para satisfazê-lo, dei uma golada boa. Cruzes! Era pinga e da brava! Se o Puxa-Saco descobrisse, ele estaria perdido! Eu lhe disse e ele me respondeu:
---- Discobre não, bobo! Se discubri tamém, foda-se! Este sirviço num vale nada, mesmo! Sirviço fudido assim a gente arruma in quarqué lugar! Arruma à-toa!
Gente boa o Esmeraldo!
Os homens não trabalhavam sempre juntos. Quando havia um projeto de prédio, o engenheiro da firma construtora arregimentava os operários e os punha para trabalhar. Podia acontecer de eles serem deslocados para outra cidade, a serviço da firma, ou cedidos a outra. Caso ocorresse algum imprevisto, como inadimplência dos compradores dos apartamentos, ou mesmo um possível calote dos engenheiros responsáveis, os homens eram imediatamente dispensados e, se não conseguissem outro emprego, passavam a atuar como autônomos. A obra parava. Isto fazia com que os operários de obras se conhecessem praticamente todos uns aos outros, embora muitos deles passassem longos tempos, mesmo anos, sem se verem, ainda que morando e trabalhando na mesma cidade.
Era uma tarde de sexta-feira e ele me disse:
---- Júlio César, hoje nós vai fazê um programão! Nois vamo lá na Helena dançá e bebê. Lá tem cada garota da ponta da oreia!
---- Onde fica isso?
---- Ocê vai vê!
Ivair era mulherengo, embora fosse casado. Tinha doze filhos. A mulher, de tanto sofrimento, tinha a expressão compungida da imagem de Nossa Senhora. Quaisquer cinco minutos que tinha livres, ou em qualquer momento que escapulia do serviço, Ivair aproveitava para tomar uma lambada da destilada.
Ivair chegou. Colocou o pé direito no umbral da porta. Vacilou, porque estava bêbado e o salto da bota dificultava a firmeza dos pés. Firmou-se com as duas mãos nos batentes sujos e jogou o corpo para a frente. Ficou de pé dentro do cômodo e disse, com voz anasalada:
---- Boa noite, minha gente!
Ninguém respondeu. Ele se achegou da mulher de pituca na cabeça. Sentou-se a seu lado:
---- Dá licença?- perguntou. A mulher olhou para ele e permaneceu em silêncio.
---- Qualé sua graça? - insistiu.
---- Hein?
---- Seu nome, qualé?
---- Lídia.
Topete ficou um momento surpreso. Depois, gritou:
---- AI, MEU DEUS - pondo a mão direita sobre o lado esquerdo do peito, onde começava a brotar uma flor vermelha, de sangue - TÔ MORTO! - completou. E caiu.
Quando Madalena apareceu no meu caminho, eu ia pra casa, bêbado, cansado, dormir sozinho. Depois do serviço, ficara bebendo até tarde. Seriam já dez horas quando comecei minha trôpega caminhanda. A mulher vinha em minha direção, em sentido inverso e em iguais condições de zonzura. Trocava as pernas, cambaleava, errava o passeio, escorava as mãos nas paredes e grades dos prédios. Reduzi os passos; fiquei observando.
---- Vai cair! - pensei. Mas ela não caiu.
Ao passar por mim, gritei:
---- HEI!
Ela parou, cambaleante.
---- Você tem cigarros?- perguntei.
Eu não fumava, mas procurava uma brecha de conversa pra ver se conseguia atolar nela o peru.
---- Nã... não. N... nã... não tenho. - ela respondeu.
---- Você não fuma?
---- Fu... fumo, m...mas ho...hoje tô s... sem cigarros.
---- Como você se chama, moça?
---- Meu no... nome é... é Madalena.
E eu lhe disse que me chamava Júlio César e perguntei:
---- Você tá vindo de onde, querida? Tava mandando umas biritas?
---- Eu? Não. Ve... venho da casa de umas... umas colegas. Eu tava es... estu... dando!
Estudando?! Houvesse cachaça para estudante daquele tipo!
---- Você estuda onde?
---- Na uni... universidade. Na fe... federal.
Que chique!
---- E você estuda o quê?
---- Pós...pós-graduação!
---- E em qual curso você faz pós-graduação, querida?
---- Fa...faço pós em ... ci... ciências do... domésticas.
---- Que ótimo! - eu exclamei - vamos dar umas voltas por aí? - eu perguntei, ao mesmo tempo que enfiava o braço esquerdo em volta do pescoço da moça.
---- Se.... será que.... que va... vale a pe... pena?
---- O que você acha? "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"- eu perguntei, roubando, em seguida, uma frase de Fernando Pessoa e já a fui puxando para um beco que levava a um bairro afastado.
Ela riu e perguntou:
---- O... o que é i...isso que... que v... você fa...falou?
---- Nada!
Voltamos para a mesa após algum tempo. Madalena ficou bêbada depressa. Eu perguntei:
---- Tem compromisso com alguém?
---- Só comigo mesma!
Logo vi, então, que não tinha com ninguém mesmo!
---- Que tal você dormir lá no meu quarto de vez em quando? - sugeri.
---- Vou fazer uma experiência. Se você for gostoso e bom de cama...é uma boa idéia! Quando nós sairmos daqui, a gente passa lá.
---- Pára de beber então, porra! - eu exclamei - você já começou a ratear!
Insolente, ela respondeu:
---- Não enche o saco, cara! Cuida de sua vida!
Era madrugada já quando saímos da cabana. Havia poucas pessoas no lugar, a música tinha sido desligada. Pior ainda, o lotação tinha deixado de circular. Fomos obrigados a andar a pé, bêbados, à noite, até chegarmos a casa. Viemos abraçados, trôpegos, Madalena me puxando, torta, para a direita, e eu a puxando, turbinado, para a esquerda.
Outra vez, na cama, de noite:
---- Madalena?
---- Hein?
---- Quando você começou a dar, você tinha quantos anos?
---- Não sei, cara! Vá pro inferno!
---- Eu quero saber!
---- E eu vou me lembrar, bicho? Eu tenho muitos anos de estrada, porra! Só sei que, depois que abri o rabo pela primeira vez, eu saí dando a xoxota pra todo mundo!
---- Olhe aqui, durante o tempo que você estiver trepando comigo, não quero saber de bagunça não! Tá falado?
---- Por quê?
---- É perigoso!
---- Como assim?
---- E as doenças?
---- Que doenças?
---- Gonorréia, sífilis, herpes... esses montes todos de merdas que 'stão aparecendo por aí!
---- Tá achando que eu sou alguma galinha, tá? Nunca tive desses troços!
---- Pois é!
---- É o quê?
---- Ficamos assim: tá com vontade de dar... vem cá! Certo?
---- Tá bem! E você?
---- Você o quê?
---- Vai ficar comendo só a mim também ou vai sair correndo atrás de tudo enquanto é sirigaita que atravessar na sua frente?
---- Vou fazer força pra ser fiel!
---- Eu também! Enquanto você estiver agüentando, eu fico fiel!
---- Mas pára de encher o rabo, porra! Eu gosto de mulher fogosa, que me joga pra cima, me aperta, me faz suar!
---- Humm! Logo quem tá falando! Só anda mordebebo essa praga!
---- Madalena?
---- Humm?
---- Vira essa boceta pra cá, amor?
Depois de emassar o apartamento, era necessário lixar bem todas as paredes e tetos. É um serviço desagradável, mas tem a vantagem de espantar os chatos. Ninguém entra onde se trabalha. O pó finíssimo que se desprende da massa corrida parece farinha de trigo, alvíssimo, e fica em suspensão. Como é facilmente carregado pelo vento ou pela brisa, ele suja tudo e todos. Por isso, durante o tempo em que estive lixando os cômodos do apartamento, o Puxa-Saco só enfiava a cara na porta da sala quando passava no guincho, sem jamais entrar pra me perturbar. O doutor Amorim não apareceu.
Após a lixação, dei uma demão bastante diluída de selador pra fixar o pó na parede, o que propicia a colagem da tinta. Depois disso, o apartamento estava pronto pra receber a pintura.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
A SERRA EM CHAMAS
Em 1768, um misterioso imigrante português subiu a Serra do Caraça e, encantado com a beleza e a solidão do vale, decidiu comprar as terras e erguer ali uma ermida dedicada à Virgem Maria. Agora conhecido como Imão Lourenço de Nossa Senhora, e tendo doado as terras e a construção para a coroa portuguesa, o ermitão manifestou o desejo que ali fosse instalado um colégio de meninos. Nasceu assim, em 1820, o Colégio do Caraça. De disciplina rígida, estudo de excelente qualidade, o Caraça se tornou o colégio mais afamado do Brasil. Na madrugada de 28 de maio de 1968, um fogareiro esquecido aceso por um aluno que trabalhava na encardenação na biblioteca provocou um incêndio que pôs fim à gloriosa existência do Caraça como instituição de ensino. Paulo Cézar da Paz, ex-aluno caracense, escreveu um livro relatando de forma ficcional o fim do Caraça, enquanto, com conhecimento de causa, descreve as normas e as relações entre os alunos e destes como os padres, além de descrever sítios e lugares que, de tão belos, fizeram com que o vale do Caraça e seus entornos fossem considerados Reserva Ambiental, protegida por leis estaduais e federais e, agora mais do que nunca, continuasse a receber visitantes brasileiros e de outros países.
EXCERTO DE A SERRA EM CHAMAS
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
No princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas no estado de Minas Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram para o estado. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas mineiras literalmente brilhavam no escuro. Não havia alimentos, nem remédios, nem médicos, nem estradas. De concreto e inevitável, havia apenas muito perigo, incerteza e a extrema coragem dos garimpeiros e faiscadores para se embrenhar em terras desconhecidas: existiriam ouro e pedras preciosas por todos os lados ou apenas na região mais ao leste do estado? Não obtendo a resposta, os aventureiros a iam buscando, abrindo fronteiras, não só nos leitos e margens dos rios como também no meio das matas mais fechadas. Muitas cidades nasceram assim: primeiro, casinhas aparecendo às margens de um rio, um local de alojamento para mineradores, um rancho para tropeiros, plantios providenciais para futuros bandeirantes, e iam aparecendo pequenos armazéns, boticas, amoladores de ferramentas, fornecedores de arreios e produtos animais, mascates, e, como não podia deixar de ser, com a exacerbada religiosidade herdada dos colonizadores portugueses, uma igreja, mesmo que minúscula (capela), e ali estava um povoado em desenvolvimento. A intenção de todos, coroa portuguesa ou forasteiros, era tirar tudo o que pudessem da terra mineira, riquezas, ouro, pedras preciosas, pepitas, rapidamente, e assim estava sendo. As pessoas deixavam os navios e iam a pé para as Minas Gerais – pessoas muitas vezes oriundas de países frios, desacostumadas ao calor tropical (ou mesmo o desconhecendo por completo), inconscientes dos perigos existentes nas matas e matos das terras mineiras, não sabedoras da geografia mineira, - e sem o apoio de uma rede de ajuda hospitalar ou comercial; enfim, aventureiras até à medula do termo: para elas, o que existia era o brilho das montanhas de ouro no fim dos muitos caminhos que levavam a Minas. Onde uma pessoa sensata enxergaria o 'fim do mundo', elas viam o eldorado, o pote de ouro no fim de um imaginário arco-íris.
Barão de Cocais também fez parte do ciclo do ouro. Em todo o seu entorno e ao longo da extensão de seu rio, agora quase um filete de água, que já foi caudaloso, homens bateavam e sonhavam com grandes pepitas, embora não se saiba se o Rio São João que corta a cidade fosse pródigo em metais preciosos. Antigamente chamada de São João do Morro Grande, Barão de Cocais deve seu atual nome a um antigo coronel, morador de um lugarejo próximo, sítio histórico, Cocais, ao qual era creditada a crença de possuidor de imensa fortuna depositada em bancos ingleses em meados do século dezoito. 'Barão' era, na verdade, a alcunha de José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, nascido na Fazenda da Cachoeira, a dois quilômetros da vila colonial de Cocais (hoje, distrito da sede, Barão de Cocais), tendo sido batizado em 16 de dezembro de 1792, na Capela de Santa Ana de Cocais – Matriz de São João Batista do Morro Grande, Barão de Cocais - uma incrivelmente bela igreja barroca, que mais de um turista, espantado, afirmou ser a 'oitava maravilha do universo'. Filho do brigadeiro Antônio Caetano Pinto Coelho da Cunha, ele foi enviado pelos pais para estudar no Rio de Janeiro, onde acabou ingressando no Exército Imperial, alcançando a patente de tenente-coronel. Era primo de Felício Pinto Coelho de Mendonça, o primeiro marido da marquesa de Santos, D. Domitila de Castro. Em 1822, participou do movimento da Independência e, em 1830, elegeu-se deputado geral do Império. Em 1833, tornou-se empresário, ao fundar a Companhia de Mineração Brasileira da Serra de Cocais, em associação com os ingleses da National Mining Company. O regente Diogo Feijó, em 1835, o nomeou governador da província de Minas Gerais e, em 1840, ele votou pela maioridade de D. Pedro II. Em 1842, foi aclamado governador interino de Minas Gerais, em Barbacena, aceitando ser Comandante-Chefe da Revolução Liberal de Minas, ao lado de Teófilo Ottoni, do Cônego Marinho e outros. Como estrategista militar, venceu todas as batalhas, mas resolveu recuar ao quartel-general de Santa Luzia, para atender ao pedido de pacificação do futuro duque de Caxias, que o visitou na Vila de Cocais. Cassados os seus direitos políticos, dois anos depois e anistiado, reelegeu-se Deputado Geral de 1844 a 1848. Devido à sua lealdade, D. Pedro II o intitulou barão em 1855. Viria a falecer catorze anos depois, vítima de tuberculose, sendo sepultado na Igreja de Santana, em Cocais. Enquanto acionista da companhia de mineração do Morro Velho, o barão de Cocais enviou para depósito num banco em Londres vultosas somas em moeda corrente e em ouro. Morreu sem ter sacado as quantias aí depositadas, nem seus herdeiros à época reclamaram quaisquer direitos a esta herança. Em 1965, o banco inglês informou ao governo brasileiro da existência desta conta que, após 100 anos sem que os valores fossem levantados, iria prescrever a favor da coroa britânica. Seus descendentes, de 4.ª e 5.ª gerações, acorreram a arquivos e a advogados para provar seu parentesco e fazer o processo de habilitação à herança. Os herdeiros não se entenderam nem mandaram um procurador comum à Inglaterra; passaram-se 5 anos, e a fabulosa herança foi perdida. Segundo consta, como o valor acumulado seria de 120 milhões de libras, com juros de 100 anos, o banco não teria capacidade de repassar tal soma aos eventuais herdeiros. Sabedores desta situação, e vislumbrando uma oportunidade de conseguir dinheiro fácil de pseudo-herdeiros incautos (como a notícia da prescrição da posse foi amplamente veiculada em vários jornais, não tardou que aparecessem milhares de “herdeiros do barão de Cocais” em várias regiões de Minas Gerais e mesmo do Brasil), advogados inescrupulosos contatavam os pretensos herdeiros, indo a seu encontro até no interior de outros estados, alertando-os de que, com a prescrição, a coroa britânica se apoderaria de todo o montante, em caso de não reclamação, exigindo dinheiro para “tocar o processo”. Nunca foi provado que o finado barão possuísse, de fato, tal fortuna, mas, advogados encheram as burras à sua custa e toneladas de jornais foram vendidas devido a este conto da carochinha. (Como uma atenuante para o fracasso na recuperação da “fortuna do barão”, os advogados afirmaram que, devido ao enorme montante acumulado através de mais de um século, os bancos britânicos não tiveram como pagar aos seus herdeiros.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez ou outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como uma vistosa águia de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde ele conseguiu o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família. Não é certo que, nas Minas Gerais, tenha sido garimpeiro ou bandeirante, ou negociante de pedras, mas, para incrementar o mistério, alguns dizem que ele foi tudo isso. Sabe-se que, descrente das coisas do mundo, entrou em uma congregação religiosa e, após sete meses de aprendizado em Santo Antônio do Tijuco, recebeu o hábito da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, e que, ao ser admitido, escolheu o nome pelo qual ficaria definitivamente conhecido: Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Desejoso de erguer uma ermida à Virgem Maria, o Irmão Lourenço peregrinou por caminhos desconhecidos, subiu serras inóspitas, vadeou e atravessou rios e cachoeiras, e deu com a abertura que leva ao vale onde hoje está o Caraça. Admirou-se com a paisagem. Ali, fez uma oração à Virgem Santíssima e, levado por seu desprendimento do mundo, decidiu erigir sua capela e sua ermida.
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados. Embora a distância entre o pé da serra e o seminário fosse pequena (cerca de quinze quilômetros), a dificuldade de acesso obrigava o caminhão a rodar lentamente e, às vezes, fazer lentas manobras nas curvas, antes de avançar. Mas, não muito depois, o caminhão estacionou numa curva, a paisagem se abriu, o motorista desceu do veículo, e disse:
“Tem alguém aqui que não acredita em Deus, gente?”
Ninguém entendeu sua pergunta. Então, apontando para a enorme silhueta do educandário ao longe, no fundo vale, completou:
“Vejam lá: apenas Ele seria capaz de levar alguém a ter a idéia de construir esta maravilha neste lugar santificado. Apenas aqui o Caraça poderia ter sido erguido. É tudo bonito, majestoso, magnífico! É sagrado! Sem igual!”
Com os dias passando, Padirin foi descobrindo as coisas e percebeu porque o Caraça era o Caraça; primeiramente, aprendeu a lição mais importante: os alunos deviam obediência total e absoluta aos padres!; que, o sino do pátio interno marcava os horários das atividades: quando ele soasse, após os horários de recreio, era para se fazer silêncio imediato e absoluto. E, ao se dirigirem ao refeitório, à igreja, a qualquer lugar, deveriam fazê-lo em fila, e só poderiam abrir a boca pra conversar após o padre tocar (se tocasse!) a campainha, e dizer em latim: “DEO GRATIAS!” (DEMOS GRAÇAS A DEUS!); e que em vários dias da semana (quase todos) não se poderia conversar durante as refeições, pois havia a leitura de um livro ou a audiência de música clássica (óperas ou sinfonias) (nos cafés da manhã, a leitura era sempre a respeito do santo do dia – o martiriológio romano -, quando se ficava sabendo de suas virtudes e dos seus feitos, os alunos sendo admoestados a seguir seu exemplo de vida, suas virtudes). E aprendeu ainda o código para pedir que os colegas passassem as bandejas de alimentos, nos silêncios do refeitório: um dedo levantado, se estivesse pedindo a passagem da bandeja de feijão, dois dedos, o arroz, três dedos, a salada... enfim, a linguagem era a de sinais. E Padirin tomou conhecimento de uma particularidade que o intrigou: no Caraça, era proibido falar português errado; a correção era imediata, e os outros alunos achavam graça! Assim, ele ficou impedido de usar suas expressões mais costumeiras e, até àquela data, para ele, normais (embora ele já as tivesse estudado na escola, mas não lhes tivesse dado a devida atenção): pega ele, cortar ela, me dá a faca? E quanto às gírias, que ele usava amiúde com seus colegas da Lagoa?! Fora de cogitação – ele era aluno do Caraça – e carregaria este fardo pelo resto de seus dias! Ele teria de zelar por este nome e também pela língua portuguesa, cujo uso escorreito, falado e escrito (como os padres não se cansavam de repetir), vinha ajudando a fazer a glória e a construir e a preservar a fama do educandário!
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
Turbino sabia que isso não era verdade: padre cocaiense ele, de fato, não conhecia nenhum, mas, os jovens de sua cidade não eram bagunceiros. Eriberto era um exemplo típico: educado, prestativo, caridoso. E poderia vir a ser padre: já tinha ido para o seminário maior! Como se desculpando pela suposta infidelidade vocacional e pelas estripulias dos seus concidadãos, afirmou, convicto:
“Então, eu vou ser o primeiro cocaiense a ser ordenado padre no Caraça... e vou proceder direitinho!”
Como se tentando fixar na memória o rosto de Turbino, o Irmão o encarou por uns segundos e, então, perguntou:
“A propósito, como é seu nome?”
“Meu nome é Turbino.”
“Os colegas ainda não lhe arrumaram um apelido? Aqui eles dão apelidos pra todo mundo!”
“Já sim; me puseram o apelido de Padirin.”
“Padirin?! Por que lhe deram este apelido esquisito?”
“Eu lhes contei que trabalhava de padeiro lá em Barão de Cocais.”
“Padeiro?! Você fazia pão?”
“Não; apenas ia à padaria, enchia o balaio, e saía vendendo nas ruas.”
“Era padeiro então!?”
“Isso!”
“E seu pai? Trabalha de que?”
“Meu pai é carroceiro!”
Como se assustado, o Irmão Nylo apertou as pálpebras, olhando nos olhos de Padirin, abriu desmesuradamente a boca, e exclamou, à meia-voz:
“Um aluno padeiro filho de um carroceiro!”
E saiu andando, jogando seu corpanzil pra cima e pra baixo, dizendo baixinho, como se contrariado:
“Ah, meu Deus, onde este Caraça vai parar!”
A primeira entrada na igreja gótica foi uma das visões mais deslumbrantes para Padirin: o silêncio inebriante, a atmosfera envolvente, os vitrais multicoloridos (que, depois, ele viria a saber, haverem sido doados por D. Pedro II) o corpo embalsamado de São Pio Mártir (explicar quem foi e a data da vinda), os blocos de mármore que formavam as colunas, a altura da nave, quadros de santos, via-sacra, pendurados nas paredes, tudo impressionou o rapazinho (Meu Deus, que mundo diferente! E aqui no meio destas montanhas!). Emocionante, porém, foi conhecer o som do harmônio, tocado nem sempre em todas as missas, mas, sempre à noite, antes de irem se deitar (“à noite, Tilucas tocava harmônio; Tilucas era um aluno antigo. Estava quase indo para o seminário maior, em Petrópolis. O pessoal ia sentir saudades dele. Até eu, que ainda não o conhecia, admirei: tocava muito e gostava do que fazia. Era ótimo aluno. E fazia graça também; brincava demais – quando podia. E jogava bola bem. Gente boa!”) Ou, como diriam seus colegas de “quebradas” em Barão de Cocais: sangue bom! Apenas alguns dias mais tarde, Padirin teve outra surpresa mais do que agradável: a missa de domingo foi acompanhada pelo som do harmônio e pelas vozes do coral – e os olhos do novato se encheram de lágrimas.
E o sacerdote – o conselheiro espiritual do Caraça - continuou lhe explicando, mão direita sobre o espaldar da cadeira, mão esquerda esparramada sobre o tampo da mesa, olhos perscrutadores por detrás dos óculos de lentes grossas, debruçado à sua frente, que, como ele estava entrando no seminário visando a ser padre (não era isso mesmo? Ele não desejava ser ordenado padre, trabalhar na messe do Senhor? Padirin não sabia o que era 'messe', mas, respondeu que era isso mesmo, claro; era sim, senhor! A messe?!), então, ele abria mão de sua sexualidade, de seus desejos sexuais, deixava a perpetuação das espécies para os outros homens (você sabe: padres não têm filhos e nem arranjam namoradas!), e assumia o voto de castidade, que era um compromisso assumido por todos os religiosos. Ele tinha consciência disso, não tinha? Tinha, ele sabia que os padres fazem voto de castidade. A fendazinha no meio das pernas, a – como dizia DaMata: “perseguida ou trem bão”-, para os padres e, por conseqüência, para aqueles que estavam estudando para serem padres, os seminaristas, deixava de existir.
O pico mais falado do Caraça é o Pico da Carapuça (assim chamado por ter o formato exato de uma carapuça), mas, não é o mais alto. Talvez por ser o mais próximo do colégio e o de mais fácil acesso (embora se deva subir uma encosta íngreme e pedregosa), demorando-se poucas horas para ir e voltar, tenha adquirido uma conotação sentimental, sendo o mais visitado. Mas há morros maiores e muito mais distantes; o Pico do Sol, por exemplo, ao lado da Cara do Gigante, ou o Inficcionado, contíguo ao Pico do Sol, além da do morro da Canjerana. Há, além deles, inúmeros outros morros sem grande expressão (mas repletos de plantas exóticas, vegetação característica, e orquídeas belíssimas, algumas raras,), mas de caminhada custosa, que os alunos, acompanhados por um padre-regente, costumavam visitar nas tardes de quarta-feira. O Morro de Santo Agostinho, o Morro Dois Irmãos, são alguns destas elevações menores. No seu primeiro passeio no Caraça, à Bocaina, e a uma imensa gruta sob a Cara do Gigante, Turbino, agora definitivamente conhecido como Padirin, acompanhou alguns alunos “grandes”, como eram chamados os que cursavam o clássico e estavam em vias de deixar o Caraça e ir para o seminário maior de Petrópolis, embora eles não o quisessem levar.
“Você não tem pernas fortes o bastante para nos seguir.”
“A caminhada é penosa e demorada.”
“Nós vamos regressar muito tarde.”
“Há uma cachoeira seca no caminho que exige muita resistência.”
“É longe, rapazinho.”
Mas ele insistiu e foi e as coisas aconteceram do modo como tinha sido previsto: Padirin parava a toda hora na volta, reclamava de cansaço, sentava-se, atrasava-se e ouvia observações jocosas:
“Não foi avisado?”
“Não sabe que cada coisa tem seu tempo?”
“Cresça, moço – e apareça!”
E regressaram ao colégio à noite, quase à hora de se deitar.
Dias depois, conversando com o irmão Nylo, que, Padirin não conseguia entender, não fora com sua cara desde sua chegada, afirmou:
“Meu primeiro passeio, no semestre que vem, vai ser à Carapuça! Ir lá é muito mais fácil! E, lá de cima, eu quero ver Catas Altas, Mariana, Ouro Preto, Santa Bárbara, Barão de Cocais...!”
Ao que o gordo respondeu:
“Ah, mas você não vai!”
Você não vai!? O que será que o Irmão pretendia dizer com aquilo?!
Apenas tempos depois, e não muito tempo depois, Padirin obteve a resposta.
Naquela manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se refastelava ao sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica, outros apenas sentados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, começava a ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão. Formavam figuras de santos, de turíbulos, de castiçais, de apetrechos religiosos, imagens de igrejas. Padirin pensava: o que começara como uma empreitada supostamente tenebrosa – um retiro espiritual silencioso (três dias no mais completo mutismo, de profunda meditação e recolhimento, em que aprendia a respeito da feiúra do inferno, com alguns padres fazendo desenhos das profundezas da morada do demônio para lembrar os alunos do que lhes esperava se não seguissem fielmente as regras do seminário!), com alguns padres enrabichados atrás dos alunos o tempo todo, como se tentando saber o que eles estavam pensando – terminara da maneira mais prazerosa possível. Os antigos já afirmavam: nada como uma 'bodega', que era uma comilança do que havia de melhor na sabedoria culinária das Sampaias e das cozinheiras, em termos de quitutes e temperos (a bodega acontecera na Varginha, e era um acontecimento para jamais ser esquecido!). E tal fato só se dava em ocasiões muito especiais, como a que punha fim à Semana Santa: a Páscoa da Ressurreição, que se seguia ao retiro espiritual, ou no dia de Corpus Christi, dali a algum tempo. Tal celebração ocorrera ainda há pouco e marcara sobremaneira Padirin: as orações na igreja gótica, dia e noite, os cânticos que haviam sido exaustivamente ensaiados, a Quinta-Feira Santa com a emocionante cerimônia do lava-pés, a Vigília Pascal que entrara pela madrugada, e, contrastando fortemente com a luz do sol que penetrava belamente através dos vitrais coloridos nas manhãs, o negror noturno nas celebrações externas, que foram muitas, o acendimento do Círio Pascal no adro da igreja gótica, (ao levantarem as velas acesas cantando o refrão laudatório – Oh, grande noite verdadeira...!-, as vozes fortes, juvenis, dos alunos, enchiam o ar, e as florestas e montanhas repetiam, num eco soturno), o vento soprando levemente as folhas das palmeiras imperiais e assobiando entre as construções, quase apagando as chamas. Houve reza no monte do Calvário, a Via-Sacra, e os 'grandes' do curso clássico haviam composto as canções lamentosas, e pessoas externas ao santuário, que haviam subido a serra especialmente para participar das celebrações, se emocionaram e mais de uma derramou lágrimas sinceras ao ouvir os alunos cantando:
“Por que me abandonaste, oh, meu Deus!”, e os sermões repletos da boa-vontade divina em perdoar as faltas.
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“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Era verdade; e, seguindo as orientações de seu compadre Leandro, Cássio havia comprado roupas decentes, para ele e a mulher e a filha, calçados apresentáveis, e, sentindo-se mais aceito socialmente, ficara mais cortês com as pessoas, “mas não é porque fiquei educado, não; é que passei a ser considerado pela sociedade. As pessoas me param nas ruas; me perguntam pelo Turbino, como ele tá se saindo lá no alto da serra, no seminário. Algumas delas também têm filho no Caraça. Pessoas que nunca me enxergaram na rua. Tô sendo aceito. Então, eu tenho de proceder igual a gente boa.”
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados). Cássio, o peito como que tomado por uma angústia inenarrável, trancou-se num quarto com Turbino e tentou saber o que tinha acontecido. Porquê da vinda tão precoce? Ele tinha vindo só passear, ver a família? Era alguma folga? Não; tinha vindo em definitivo. Fora dispensado. Mas não era possível! Ele havia entrado no seminário ainda outro dia! E ele – Cássio -, a mulher dele, a filha dele, a família inteira estavam vivendo como que um sonho, pois ele – Turbino - podia estar colocando sua geração em “outros caminhos”, podia estar mudando a posição social de sua gente. Ou ele queria ver o pai para sempre pelas esquinas das ruas, sentado na carroça, no meio dos outros carroceiros, como um pedinte, esperando por carretos, pela esmola das pessoas, carretos que, ele estava cansado de saber, não lhe davam ganhos quase nenhuns? Ou quem sabe ele próprio desejava se tornar um carroceiro? Ficar o dia inteiro sentado na carroça, sentindo o cheiro da merda dos burros, o cheiro enjoativo da urina que os animais despejavam sem parar na calçada; e sem poder mudar de 'ponto', porque seu local de trabalho era delimitado pela prefeitura? Ou ficar eternamente carregando balaios pesados, ralando como um burro de carga, sofrendo como um reles padeiro? Que Turbino olhasse em volta, os móveis, as paredes, a casinha em que eles viviam. O lugar – fim de rua – onde a 'casa' se situava. “Olha o tamanho desses cômodos, menino!”
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Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser folga, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, isso seria permitido, mas isso era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse.
Foi numa dessas tardes que o Irmão Nylo, rondando o adro da igreja gótica, portando sua inseparável armadilha de pegar cobras, viu Cássio, baixo, moreno-escuro, camisa branca de mangas arregaçadas e peito aberto, as veias salientes se mostrando nos antebraços musculosos, cabelos lisos pretíssimos com o topete alto penteado para trás, calça creme, sapatos brilhantes, lábios enormes, cenho franzido, subir as escadarias frontais à igreja gótica, vindo da ponte. O Irmão parou e esperou. De imediato, reconheceu o pai de Padirin, por tê-lo visto agradecendo a aceitação do filho tempos atrás ao padre superior.
“Vou chamar o padre Murilo; talvez ele possa ser de alguma ajuda na situação.”
E, segurando firmemente a arma de madeira que usava para pegar cobras, pisando pausada e pesadamente, jogando o corpanzil, foi chamar o padre Murilo, o responsável pela disciplina no seminário.
E o padre superior, desejando permanecer cortês com o inesperado visitante, esclareceu de quem se tratava, o porquê de o Irmão tê-lo ido buscar:
“O padre disciplinário é quem mais tem contato com os alunos, razão pela qual é quem mais os conhece e mais tem envolvimento em suas atividades. Você vai gostar de conhecê-lo. É excelente pessoa.”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello e Castro (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo dito, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
O padre tinha a fisionomia alterada, mas, o que de fato alertou Cássio para o perigo foi o Irmão Nylo com o pau de pegar cobras. O Irmão, injuriado, vendo que os padres não tratavam o interlocutor do jeito que ele achava mais apropriado, se adiantou e, brigando com a língua portuguesa, pois tinha pouco mais conhecimento do que o carroceiro de Barão de Cocais, disse a Cássio que ele estava “conspurcando um local sagrado” onde já haviam pisado “pessoas importantes e respeitosas”.
Notando que o carroceiro estava deixando o santuário, o padre superior e o padre disciplinário, polidamente, se ofereceram para acompanhá-lo até ao portão, mas Cássio ia bem mais à frente e não se manifestou, o que não o impediu de ouvir os padres lhe afirmarem que 'não é necessário que o jovem seja aluno do Caraça para se dar bem na vida, “seu” Cássio! Independente das circunstâncias – seja rico ou pobre, preto ou branco -, o homem é aquilo que ele quer ser!
Cássio estava triplamente errado. Não era verdade que apenas jovens remediados ou ricos estudavam no Caraça. Nos registros do colégio, desde sua fundação até o dia de seu fechamento como seminário, há anotações de 'alunos pobres', inúmeros, que estudaram de graça ou foram financiados por fundações filantrópicas estrangeiras, como a Cáritas alemã, por exemplo. Para ser aluno do Caraça, era preciso ter bons princípios e ser inteligente (se fosse rico, melhor ainda, lógico!), além, é claro, de demonstrar pendor para o sacerdócio, embora fosse sabido, de antemão, que a vocação religiosa era uma dádiva concedida a poucos (muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos!) Um bom número dos jovens que ingressavam no Caraça ia em busca de ensino de ótima qualidade ou eram forçados a ir pelos pais para serem domados em seu gênio rebelde. “Se você não se emendar, eu te mando para o Caraça!” – e, se os meninos não se emendassem, mandavam mesmo!
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Vinte e oito de maio de 1968. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço, e lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o seminário do Caraça, quase nada se ouve. Alta madrugada, e, como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé.
Subiram outra vez para o morro do Calvário, e logo a fumaça subia aos magotes, entrando pelas escadas, penetrando nos dormitórios, e eles começaram a ouvir gritos apavorados de “FOGO, FOGO!”, e passos apressados, muitos passos, descendo as escadas dos dormitórios, palmas fortes sendo ouvidas - porque palmas eram o modo de despertar os seminaristas nas madrugadas ou de chamar sua atenção -, e passos apressados nos corredores, e Cássio viu, satisfeito, livros, mapas, infólios, incunábulos sendo atirados no pátio pelas janelas que iam tendo suas proteções de tela arrebentadas, numa tentativa de se salvar algumas daquelas preciosidades.
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, se tornou, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o morro da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol, o Campo da Urbis - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora dessas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Turbino vive se lamentando por não ter subido o Pico da Carapuça (deve ser bonito demais! lá é muito alto e a gente enxerga longe!). E tem péssimas lembranças do Irmão Nylo: “aquele balofo não gostava de mim; por isso disse que eu não ia subir a Carapuça no princípio do semestre seguinte! Ele já imaginava que os padres iam me mandar embora! Filho de uma puta!” Em certas horas, ele ainda fica se perguntando: “Será que não foi o Irmão Nylo que...?” E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo, das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' (“Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!”), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
EXCERTO DE A SERRA EM CHAMAS
A SERRA EM CHAMAS
(a morte do Caraça)
No princípio do século dezoito, no começo da corrida do ouro e das pedras preciosas no estado de Minas Gerais, com a disseminação da notícia de que as pepitas apareciam sobre a terra e nos leitos e margens dos rios como pedras comuns, e com o boato de que havia veios auríferos intermináveis em várias regiões e pessoas enriquecendo da noite para o dia, povos de todas as partes do mundo acorreram para o estado. Por isso é tão comum se encontrar, hoje, em Minas, descendentes de nações mais improváveis, além dos - como seria de se esperar - portugueses: libaneses, ingleses, turcos, sírios, e muitos outros, em lugares tão diferentes quanto Piranga, Ouro Preto, Porto Firme, Diamantina, São João Del Rei, Mariana, Cajuri, cidades da zona metalúrgica e do entorno de Belo Horizonte, e mesmo em lugarejos remotos, sem nenhuma expressão geográfica, enfim, onde se tenha tido, na ocasião, notícia, mesmo que infundada, da possibilidade de haver qualquer tipo de pedra preciosa e de riqueza fácil. Com a chegada das pessoas, não obstante a repressão ao contrabando e o controle pela coroa portuguesa, os garimpeiros continuaram sua frenética diuturna busca do ouro e dos diamantes e, à noite, as montanhas mineiras literalmente brilhavam no escuro. Não havia alimentos, nem remédios, nem médicos, nem estradas. De concreto e inevitável, havia apenas muito perigo, incerteza e a extrema coragem dos garimpeiros e faiscadores para se embrenhar em terras desconhecidas: existiriam ouro e pedras preciosas por todos os lados ou apenas na região mais ao leste do estado? Não obtendo a resposta, os aventureiros a iam buscando, abrindo fronteiras, não só nos leitos e margens dos rios como também no meio das matas mais fechadas. Muitas cidades nasceram assim: primeiro, casinhas aparecendo às margens de um rio, um local de alojamento para mineradores, um rancho para tropeiros, plantios providenciais para futuros bandeirantes, e iam aparecendo pequenos armazéns, boticas, amoladores de ferramentas, fornecedores de arreios e produtos animais, mascates, e, como não podia deixar de ser, com a exacerbada religiosidade herdada dos colonizadores portugueses, uma igreja, mesmo que minúscula (capela), e ali estava um povoado em desenvolvimento. A intenção de todos, coroa portuguesa ou forasteiros, era tirar tudo o que pudessem da terra mineira, riquezas, ouro, pedras preciosas, pepitas, rapidamente, e assim estava sendo. As pessoas deixavam os navios e iam a pé para as Minas Gerais – pessoas muitas vezes oriundas de países frios, desacostumadas ao calor tropical (ou mesmo o desconhecendo por completo), inconscientes dos perigos existentes nas matas e matos das terras mineiras, não sabedoras da geografia mineira, - e sem o apoio de uma rede de ajuda hospitalar ou comercial; enfim, aventureiras até à medula do termo: para elas, o que existia era o brilho das montanhas de ouro no fim dos muitos caminhos que levavam a Minas. Onde uma pessoa sensata enxergaria o 'fim do mundo', elas viam o eldorado, o pote de ouro no fim de um imaginário arco-íris.
Barão de Cocais também fez parte do ciclo do ouro. Em todo o seu entorno e ao longo da extensão de seu rio, agora quase um filete de água, que já foi caudaloso, homens bateavam e sonhavam com grandes pepitas, embora não se saiba se o Rio São João que corta a cidade fosse pródigo em metais preciosos. Antigamente chamada de São João do Morro Grande, Barão de Cocais deve seu atual nome a um antigo coronel, morador de um lugarejo próximo, sítio histórico, Cocais, ao qual era creditada a crença de possuidor de imensa fortuna depositada em bancos ingleses em meados do século dezoito. 'Barão' era, na verdade, a alcunha de José Feliciano Pinto Coelho da Cunha, nascido na Fazenda da Cachoeira, a dois quilômetros da vila colonial de Cocais (hoje, distrito da sede, Barão de Cocais), tendo sido batizado em 16 de dezembro de 1792, na Capela de Santa Ana de Cocais – Matriz de São João Batista do Morro Grande, Barão de Cocais - uma incrivelmente bela igreja barroca, que mais de um turista, espantado, afirmou ser a 'oitava maravilha do universo'. Filho do brigadeiro Antônio Caetano Pinto Coelho da Cunha, ele foi enviado pelos pais para estudar no Rio de Janeiro, onde acabou ingressando no Exército Imperial, alcançando a patente de tenente-coronel. Era primo de Felício Pinto Coelho de Mendonça, o primeiro marido da marquesa de Santos, D. Domitila de Castro. Em 1822, participou do movimento da Independência e, em 1830, elegeu-se deputado geral do Império. Em 1833, tornou-se empresário, ao fundar a Companhia de Mineração Brasileira da Serra de Cocais, em associação com os ingleses da National Mining Company. O regente Diogo Feijó, em 1835, o nomeou governador da província de Minas Gerais e, em 1840, ele votou pela maioridade de D. Pedro II. Em 1842, foi aclamado governador interino de Minas Gerais, em Barbacena, aceitando ser Comandante-Chefe da Revolução Liberal de Minas, ao lado de Teófilo Ottoni, do Cônego Marinho e outros. Como estrategista militar, venceu todas as batalhas, mas resolveu recuar ao quartel-general de Santa Luzia, para atender ao pedido de pacificação do futuro duque de Caxias, que o visitou na Vila de Cocais. Cassados os seus direitos políticos, dois anos depois e anistiado, reelegeu-se Deputado Geral de 1844 a 1848. Devido à sua lealdade, D. Pedro II o intitulou barão em 1855. Viria a falecer catorze anos depois, vítima de tuberculose, sendo sepultado na Igreja de Santana, em Cocais. Enquanto acionista da companhia de mineração do Morro Velho, o barão de Cocais enviou para depósito num banco em Londres vultosas somas em moeda corrente e em ouro. Morreu sem ter sacado as quantias aí depositadas, nem seus herdeiros à época reclamaram quaisquer direitos a esta herança. Em 1965, o banco inglês informou ao governo brasileiro da existência desta conta que, após 100 anos sem que os valores fossem levantados, iria prescrever a favor da coroa britânica. Seus descendentes, de 4.ª e 5.ª gerações, acorreram a arquivos e a advogados para provar seu parentesco e fazer o processo de habilitação à herança. Os herdeiros não se entenderam nem mandaram um procurador comum à Inglaterra; passaram-se 5 anos, e a fabulosa herança foi perdida. Segundo consta, como o valor acumulado seria de 120 milhões de libras, com juros de 100 anos, o banco não teria capacidade de repassar tal soma aos eventuais herdeiros. Sabedores desta situação, e vislumbrando uma oportunidade de conseguir dinheiro fácil de pseudo-herdeiros incautos (como a notícia da prescrição da posse foi amplamente veiculada em vários jornais, não tardou que aparecessem milhares de “herdeiros do barão de Cocais” em várias regiões de Minas Gerais e mesmo do Brasil), advogados inescrupulosos contatavam os pretensos herdeiros, indo a seu encontro até no interior de outros estados, alertando-os de que, com a prescrição, a coroa britânica se apoderaria de todo o montante, em caso de não reclamação, exigindo dinheiro para “tocar o processo”. Nunca foi provado que o finado barão possuísse, de fato, tal fortuna, mas, advogados encheram as burras à sua custa e toneladas de jornais foram vendidas devido a este conto da carochinha. (Como uma atenuante para o fracasso na recuperação da “fortuna do barão”, os advogados afirmaram que, devido ao enorme montante acumulado através de mais de um século, os bancos britânicos não tiveram como pagar aos seus herdeiros.
Se fosse perguntado a Turbino 'o que ele queria ser quando crescesse', ele responderia 'não sei'. Mas se a pergunta, ao contrário, fosse 'o que ele não queria ser', haveria uma resposta pronta: carroceiro; a profissão do pai, para ele, não existia. Seus antepassados haviam sido proprietários de tropas de burros, ele – o pai - herdara alguns animais (e agora possuía apenas um burro), e vivia daquilo: pequenos carretos, transportes insignificantes, quando havia algum, e muitas dificuldades (Turbino não desejava que o pai ao menos desconfiasse, mas, raramente ele passava ao lado do 'ponto' delimitado pela prefeitura para os carroceiros, principalmente ao sair da escola). Talvez por isso seu aborrecimento, o hábito de chegar em casa meio embriagado todas as noites, a irritação constante com a mulher. Vez ou outra Turbino trocava idéias com Cascudinho (“cruzes, o menino mais sujo que eu já vi!”), seu vizinho, sua idade, cujo pai, muito honesto, também trabalhava com uma carroça e, para incrementar a renda, fazia pequenos comércios com aves e outros animais de pequeno porte: vendia galinhas, frangos e leitões (por isso o apelido João Galinha), e se assustava.
A visão da ermida, à distância, no fundo do vale, branca, enorme, como uma vistosa águia de asas abertas, fazendo contraponto com os negros e altos contrafortes irregulares da serra do Espinhaço e com a densa e escura vegetação circundante, a torre da igreja gótica subindo, interminável, como o longuíssimo pescoço da ave, provoca a perplexidade das pessoas. “Quem era o Irmão Lourenço, o fundador do Caraça?”, “De onde veio?”, “Por que ele tinha esse nome?”, “De onde ele conseguiu o lampejo para erguer esta construção neste lugar?”, “De onde ele tirou este nome: Caraça?” - são algumas das perguntas que quase todos se fazem ao verem o santuário do Caraça pela primeira vez. Talvez a palavra mais adequada para se referir ao construtor da ermida seja: misterioso. É sabido que chegara de Portugal, fugindo do Marquês de Pombal (embora alguns historiadores afirmem que isso não é verdade). Seu nome era Carlos Mendonça de Távora, portanto, descendente de nobre família. Não é certo que, nas Minas Gerais, tenha sido garimpeiro ou bandeirante, ou negociante de pedras, mas, para incrementar o mistério, alguns dizem que ele foi tudo isso. Sabe-se que, descrente das coisas do mundo, entrou em uma congregação religiosa e, após sete meses de aprendizado em Santo Antônio do Tijuco, recebeu o hábito da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, e que, ao ser admitido, escolheu o nome pelo qual ficaria definitivamente conhecido: Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Desejoso de erguer uma ermida à Virgem Maria, o Irmão Lourenço peregrinou por caminhos desconhecidos, subiu serras inóspitas, vadeou e atravessou rios e cachoeiras, e deu com a abertura que leva ao vale onde hoje está o Caraça. Admirou-se com a paisagem. Ali, fez uma oração à Virgem Santíssima e, levado por seu desprendimento do mundo, decidiu erigir sua capela e sua ermida.
Assim, para gáudio de Cássio, num princípio de fevereiro, manhãzinha, um caminhão (onde já estavam alguns alunos antigos e uns poucos novatos) apanhou Turbino em Barão de Cocais e, sacolejando, passou por São Bento, Brumal, Fazenda do Engenho, e subiu a estrada de terra e pedras da serra do Espinhaço, em direção ao santuário. Foi uma viagem da qual Turbino jamais iria se esquecer: ele não tinha como se alojar na boléia (havia duas pessoas junto com o motorista), e, na carroceria, ele tinha total visão da estrada, que era amedrontadora: estrada de terra, atulhada de cascalho; curvas e mais curvas e, circundando-a, montanhas, florestas fechadas, cachoeiras, penhascos e pedras enormes. Várias vezes ele fechou os olhos para espantar o receio de que o motorista perdesse a direção, ou de que os freios falhassem, e o veículo desaparecesse entre as ravinas e os penhascos escarpados. Embora a distância entre o pé da serra e o seminário fosse pequena (cerca de quinze quilômetros), a dificuldade de acesso obrigava o caminhão a rodar lentamente e, às vezes, fazer lentas manobras nas curvas, antes de avançar. Mas, não muito depois, o caminhão estacionou numa curva, a paisagem se abriu, o motorista desceu do veículo, e disse:
“Tem alguém aqui que não acredita em Deus, gente?”
Ninguém entendeu sua pergunta. Então, apontando para a enorme silhueta do educandário ao longe, no fundo vale, completou:
“Vejam lá: apenas Ele seria capaz de levar alguém a ter a idéia de construir esta maravilha neste lugar santificado. Apenas aqui o Caraça poderia ter sido erguido. É tudo bonito, majestoso, magnífico! É sagrado! Sem igual!”
Com os dias passando, Padirin foi descobrindo as coisas e percebeu porque o Caraça era o Caraça; primeiramente, aprendeu a lição mais importante: os alunos deviam obediência total e absoluta aos padres!; que, o sino do pátio interno marcava os horários das atividades: quando ele soasse, após os horários de recreio, era para se fazer silêncio imediato e absoluto. E, ao se dirigirem ao refeitório, à igreja, a qualquer lugar, deveriam fazê-lo em fila, e só poderiam abrir a boca pra conversar após o padre tocar (se tocasse!) a campainha, e dizer em latim: “DEO GRATIAS!” (DEMOS GRAÇAS A DEUS!); e que em vários dias da semana (quase todos) não se poderia conversar durante as refeições, pois havia a leitura de um livro ou a audiência de música clássica (óperas ou sinfonias) (nos cafés da manhã, a leitura era sempre a respeito do santo do dia – o martiriológio romano -, quando se ficava sabendo de suas virtudes e dos seus feitos, os alunos sendo admoestados a seguir seu exemplo de vida, suas virtudes). E aprendeu ainda o código para pedir que os colegas passassem as bandejas de alimentos, nos silêncios do refeitório: um dedo levantado, se estivesse pedindo a passagem da bandeja de feijão, dois dedos, o arroz, três dedos, a salada... enfim, a linguagem era a de sinais. E Padirin tomou conhecimento de uma particularidade que o intrigou: no Caraça, era proibido falar português errado; a correção era imediata, e os outros alunos achavam graça! Assim, ele ficou impedido de usar suas expressões mais costumeiras e, até àquela data, para ele, normais (embora ele já as tivesse estudado na escola, mas não lhes tivesse dado a devida atenção): pega ele, cortar ela, me dá a faca? E quanto às gírias, que ele usava amiúde com seus colegas da Lagoa?! Fora de cogitação – ele era aluno do Caraça – e carregaria este fardo pelo resto de seus dias! Ele teria de zelar por este nome e também pela língua portuguesa, cujo uso escorreito, falado e escrito (como os padres não se cansavam de repetir), vinha ajudando a fazer a glória e a construir e a preservar a fama do educandário!
Depois, um acontecimento que marcou Padirin profundamente: o dia em que ficou conhecendo o Irmão Nylo. Corpulento, semblante fechado, avermelhado, de meia-altura e meia-idade, voz guinchante, de ratinho quica, que, inexplicavelmente, costumava mudar de diapasão de repente, baixando ainda mais de tom, rosto enrugado (cara cheia de pelotas), barriga saliente, um indefectível casquete sem abas enfiado na cabeçorra, as pontas dos cabelos brancos despontando sob as abas, o Irmão Nylo, além de ser o especialista em pegar serpentes no seminário (e lá as havia aos milhares), perambulava por todos os cantos o dia inteiro e tinha orgulho máximo disso:
“Sou o mestre de cerimônias. Recebo os visitantes e cuido para que tudo corra bem nos domínios do Caraça! Tomo conta de tudo!”
Andando pelo morro do Calvário, Padirin deu de cara com o Irmão, que fuçava numa moita à procura de serpentes. Ao vê-lo, o moço, que estava debruçado sobre o mato, se levantou, encarou Padirin, e perguntou:
“Conheço todas as pessoas no Caraça, menos você.”
“Sou aluno do seminário.”
“Tá entrando no Caraça neste semestre, rapaz?”
“Eu tô. Sou novato.”
“De onde você é?”
“De Barão de Cocais.”
O Irmão Nylo fez um muxoxo, girou a madeira que usava para pegar cobras no ar (o próprio Irmão havia projetado o aparelho, um bastão com um gancho na extremidade, e uma extensão de arame que ele usava para apertar o pescoço das cobras), e afirmou:
“Hum! Barão de Cocais! Mais um pé-de-pomba! E os jovens daquela cidade só vêm aqui pra trazer problemas! Só fazer bagunça! Nunca saiu padre nenhum de Barão de Cocais... e mais de uma centena de rapazes de lá já foram alunos do Caraça durante o tempo em que eu tô aqui!”
Turbino sabia que isso não era verdade: padre cocaiense ele, de fato, não conhecia nenhum, mas, os jovens de sua cidade não eram bagunceiros. Eriberto era um exemplo típico: educado, prestativo, caridoso. E poderia vir a ser padre: já tinha ido para o seminário maior! Como se desculpando pela suposta infidelidade vocacional e pelas estripulias dos seus concidadãos, afirmou, convicto:
“Então, eu vou ser o primeiro cocaiense a ser ordenado padre no Caraça... e vou proceder direitinho!”
Como se tentando fixar na memória o rosto de Turbino, o Irmão o encarou por uns segundos e, então, perguntou:
“A propósito, como é seu nome?”
“Meu nome é Turbino.”
“Os colegas ainda não lhe arrumaram um apelido? Aqui eles dão apelidos pra todo mundo!”
“Já sim; me puseram o apelido de Padirin.”
“Padirin?! Por que lhe deram este apelido esquisito?”
“Eu lhes contei que trabalhava de padeiro lá em Barão de Cocais.”
“Padeiro?! Você fazia pão?”
“Não; apenas ia à padaria, enchia o balaio, e saía vendendo nas ruas.”
“Era padeiro então!?”
“Isso!”
“E seu pai? Trabalha de que?”
“Meu pai é carroceiro!”
Como se assustado, o Irmão Nylo apertou as pálpebras, olhando nos olhos de Padirin, abriu desmesuradamente a boca, e exclamou, à meia-voz:
“Um aluno padeiro filho de um carroceiro!”
E saiu andando, jogando seu corpanzil pra cima e pra baixo, dizendo baixinho, como se contrariado:
“Ah, meu Deus, onde este Caraça vai parar!”
A primeira entrada na igreja gótica foi uma das visões mais deslumbrantes para Padirin: o silêncio inebriante, a atmosfera envolvente, os vitrais multicoloridos (que, depois, ele viria a saber, haverem sido doados por D. Pedro II) o corpo embalsamado de São Pio Mártir (explicar quem foi e a data da vinda), os blocos de mármore que formavam as colunas, a altura da nave, quadros de santos, via-sacra, pendurados nas paredes, tudo impressionou o rapazinho (Meu Deus, que mundo diferente! E aqui no meio destas montanhas!). Emocionante, porém, foi conhecer o som do harmônio, tocado nem sempre em todas as missas, mas, sempre à noite, antes de irem se deitar (“à noite, Tilucas tocava harmônio; Tilucas era um aluno antigo. Estava quase indo para o seminário maior, em Petrópolis. O pessoal ia sentir saudades dele. Até eu, que ainda não o conhecia, admirei: tocava muito e gostava do que fazia. Era ótimo aluno. E fazia graça também; brincava demais – quando podia. E jogava bola bem. Gente boa!”) Ou, como diriam seus colegas de “quebradas” em Barão de Cocais: sangue bom! Apenas alguns dias mais tarde, Padirin teve outra surpresa mais do que agradável: a missa de domingo foi acompanhada pelo som do harmônio e pelas vozes do coral – e os olhos do novato se encheram de lágrimas.
E o sacerdote – o conselheiro espiritual do Caraça - continuou lhe explicando, mão direita sobre o espaldar da cadeira, mão esquerda esparramada sobre o tampo da mesa, olhos perscrutadores por detrás dos óculos de lentes grossas, debruçado à sua frente, que, como ele estava entrando no seminário visando a ser padre (não era isso mesmo? Ele não desejava ser ordenado padre, trabalhar na messe do Senhor? Padirin não sabia o que era 'messe', mas, respondeu que era isso mesmo, claro; era sim, senhor! A messe?!), então, ele abria mão de sua sexualidade, de seus desejos sexuais, deixava a perpetuação das espécies para os outros homens (você sabe: padres não têm filhos e nem arranjam namoradas!), e assumia o voto de castidade, que era um compromisso assumido por todos os religiosos. Ele tinha consciência disso, não tinha? Tinha, ele sabia que os padres fazem voto de castidade. A fendazinha no meio das pernas, a – como dizia DaMata: “perseguida ou trem bão”-, para os padres e, por conseqüência, para aqueles que estavam estudando para serem padres, os seminaristas, deixava de existir.
O pico mais falado do Caraça é o Pico da Carapuça (assim chamado por ter o formato exato de uma carapuça), mas, não é o mais alto. Talvez por ser o mais próximo do colégio e o de mais fácil acesso (embora se deva subir uma encosta íngreme e pedregosa), demorando-se poucas horas para ir e voltar, tenha adquirido uma conotação sentimental, sendo o mais visitado. Mas há morros maiores e muito mais distantes; o Pico do Sol, por exemplo, ao lado da Cara do Gigante, ou o Inficcionado, contíguo ao Pico do Sol, além da do morro da Canjerana. Há, além deles, inúmeros outros morros sem grande expressão (mas repletos de plantas exóticas, vegetação característica, e orquídeas belíssimas, algumas raras,), mas de caminhada custosa, que os alunos, acompanhados por um padre-regente, costumavam visitar nas tardes de quarta-feira. O Morro de Santo Agostinho, o Morro Dois Irmãos, são alguns destas elevações menores. No seu primeiro passeio no Caraça, à Bocaina, e a uma imensa gruta sob a Cara do Gigante, Turbino, agora definitivamente conhecido como Padirin, acompanhou alguns alunos “grandes”, como eram chamados os que cursavam o clássico e estavam em vias de deixar o Caraça e ir para o seminário maior de Petrópolis, embora eles não o quisessem levar.
“Você não tem pernas fortes o bastante para nos seguir.”
“A caminhada é penosa e demorada.”
“Nós vamos regressar muito tarde.”
“Há uma cachoeira seca no caminho que exige muita resistência.”
“É longe, rapazinho.”
Mas ele insistiu e foi e as coisas aconteceram do modo como tinha sido previsto: Padirin parava a toda hora na volta, reclamava de cansaço, sentava-se, atrasava-se e ouvia observações jocosas:
“Não foi avisado?”
“Não sabe que cada coisa tem seu tempo?”
“Cresça, moço – e apareça!”
E regressaram ao colégio à noite, quase à hora de se deitar.
Dias depois, conversando com o irmão Nylo, que, Padirin não conseguia entender, não fora com sua cara desde sua chegada, afirmou:
“Meu primeiro passeio, no semestre que vem, vai ser à Carapuça! Ir lá é muito mais fácil! E, lá de cima, eu quero ver Catas Altas, Mariana, Ouro Preto, Santa Bárbara, Barão de Cocais...!”
Ao que o gordo respondeu:
“Ah, mas você não vai!”
Você não vai!? O que será que o Irmão pretendia dizer com aquilo?!
Apenas tempos depois, e não muito tempo depois, Padirin obteve a resposta.
Naquela manhã de domingo, a grande maioria dos alunos se refastelava ao sol, alguns jogando bola, outros aglomerados no adro da igreja gótica, outros apenas sentados sob as velhas palmeiras imperiais, no pátio frontal à construção. Padirin saiu andando; desceu a ladeira, parou rapidamente ao lado da efígie imperial onde o imperador havia desabado, passou pela casa das Sampaias, e caminhou lentamente em direção à estrada que circundava o sopé do morro do Calvário, e levava à entrada lateral do colégio. No término do calçamento de pedras, ao pé da ladeira, começava a ornamentação, feita, havia poucos dias, pelos alunos, do tapete para a procissão da Páscoa da Ressurreição. Os ramos de cipreste, perfumados, assim como as flores secas e os galhos e as folhas de outras árvores, a areia e a serragem coloridas, ainda estavam no chão. Formavam figuras de santos, de turíbulos, de castiçais, de apetrechos religiosos, imagens de igrejas. Padirin pensava: o que começara como uma empreitada supostamente tenebrosa – um retiro espiritual silencioso (três dias no mais completo mutismo, de profunda meditação e recolhimento, em que aprendia a respeito da feiúra do inferno, com alguns padres fazendo desenhos das profundezas da morada do demônio para lembrar os alunos do que lhes esperava se não seguissem fielmente as regras do seminário!), com alguns padres enrabichados atrás dos alunos o tempo todo, como se tentando saber o que eles estavam pensando – terminara da maneira mais prazerosa possível. Os antigos já afirmavam: nada como uma 'bodega', que era uma comilança do que havia de melhor na sabedoria culinária das Sampaias e das cozinheiras, em termos de quitutes e temperos (a bodega acontecera na Varginha, e era um acontecimento para jamais ser esquecido!). E tal fato só se dava em ocasiões muito especiais, como a que punha fim à Semana Santa: a Páscoa da Ressurreição, que se seguia ao retiro espiritual, ou no dia de Corpus Christi, dali a algum tempo. Tal celebração ocorrera ainda há pouco e marcara sobremaneira Padirin: as orações na igreja gótica, dia e noite, os cânticos que haviam sido exaustivamente ensaiados, a Quinta-Feira Santa com a emocionante cerimônia do lava-pés, a Vigília Pascal que entrara pela madrugada, e, contrastando fortemente com a luz do sol que penetrava belamente através dos vitrais coloridos nas manhãs, o negror noturno nas celebrações externas, que foram muitas, o acendimento do Círio Pascal no adro da igreja gótica, (ao levantarem as velas acesas cantando o refrão laudatório – Oh, grande noite verdadeira...!-, as vozes fortes, juvenis, dos alunos, enchiam o ar, e as florestas e montanhas repetiam, num eco soturno), o vento soprando levemente as folhas das palmeiras imperiais e assobiando entre as construções, quase apagando as chamas. Houve reza no monte do Calvário, a Via-Sacra, e os 'grandes' do curso clássico haviam composto as canções lamentosas, e pessoas externas ao santuário, que haviam subido a serra especialmente para participar das celebrações, se emocionaram e mais de uma derramou lágrimas sinceras ao ouvir os alunos cantando:
“Por que me abandonaste, oh, meu Deus!”, e os sermões repletos da boa-vontade divina em perdoar as faltas.
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“Foi uma glória pra minha família, gente; uma coisa muito boa. Só de ele ter esta oportunidade, já mudou o astral de minha esposa. Eu, por mim, tô lá no céu! Quando olho pra essas casas velhas, ou quando ando por estas ruas antigas, as casas de pau-a-pique – conservadas (porque reformadas pelo Patrimônio Histórico), mas de pau-a-pique -, ou vejo aquela bica ali na frente, recordo meus antepassados, tropeiros, uns na frente e outros atrás da tropa, até crianças aprendendo o ofício com os pais, andando essas distâncias enormes, eles morando nessas casinhas fuleiras de fim de rua, buscando água na bica, e, agora, meu filho no Caraça... se ele estivesse estudando em um colégio de verdade, já era motivo de comemoração, mas, no Caraça - é motivo de júbilo! Pela primeira vez em minha vida, eu vejo minha família andando pra frente! Com Turbino, a gente tá começando a andar por caminhos diferentes!”
Era verdade; e, seguindo as orientações de seu compadre Leandro, Cássio havia comprado roupas decentes, para ele e a mulher e a filha, calçados apresentáveis, e, sentindo-se mais aceito socialmente, ficara mais cortês com as pessoas, “mas não é porque fiquei educado, não; é que passei a ser considerado pela sociedade. As pessoas me param nas ruas; me perguntam pelo Turbino, como ele tá se saindo lá no alto da serra, no seminário. Algumas delas também têm filho no Caraça. Pessoas que nunca me enxergaram na rua. Tô sendo aceito. Então, eu tenho de proceder igual a gente boa.”
Turbino tinha garrichado. O carro do seminário o havia trazido à tardinha, o deixara à porta de casa, com sua mãe, mas ele fora para a rua e ficara dando voltas pela cidade, revendo lugares, conversando com amigos (já tinha ido, inclusive, à Lagoa), e chegara à casa apenas à noite - só com a roupa do corpo! (suas roupas seriam entregues dias depois, após serem coletadas e lavadas na lavanderia do seminário, como era o costume com os alunos dispensados). Cássio, o peito como que tomado por uma angústia inenarrável, trancou-se num quarto com Turbino e tentou saber o que tinha acontecido. Porquê da vinda tão precoce? Ele tinha vindo só passear, ver a família? Era alguma folga? Não; tinha vindo em definitivo. Fora dispensado. Mas não era possível! Ele havia entrado no seminário ainda outro dia! E ele – Cássio -, a mulher dele, a filha dele, a família inteira estavam vivendo como que um sonho, pois ele – Turbino - podia estar colocando sua geração em “outros caminhos”, podia estar mudando a posição social de sua gente. Ou ele queria ver o pai para sempre pelas esquinas das ruas, sentado na carroça, no meio dos outros carroceiros, como um pedinte, esperando por carretos, pela esmola das pessoas, carretos que, ele estava cansado de saber, não lhe davam ganhos quase nenhuns? Ou quem sabe ele próprio desejava se tornar um carroceiro? Ficar o dia inteiro sentado na carroça, sentindo o cheiro da merda dos burros, o cheiro enjoativo da urina que os animais despejavam sem parar na calçada; e sem poder mudar de 'ponto', porque seu local de trabalho era delimitado pela prefeitura? Ou ficar eternamente carregando balaios pesados, ralando como um burro de carga, sofrendo como um reles padeiro? Que Turbino olhasse em volta, os móveis, as paredes, a casinha em que eles viviam. O lugar – fim de rua – onde a 'casa' se situava. “Olha o tamanho desses cômodos, menino!”
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Nas tardes do Caraça, como já foi dito, em dias de semana, os alunos estavam nas salas de aulas e os pátios, a não ser nas horas de recreio, ficavam sempre vazios e, mesmo às quartas-feiras, quando, por ser folga, não havia estudo ou aulas, e era facultado aos alunos escolher a ocupação preferida: passear nos arredores do colégio, ir nadar no Banho do Imperador ou na piscina construída por antigos alunos (um enorme buraco retangular escavado na argila, logo após a Bela Vista), ou jogar futebol na Varginha (a diversão predileta da maioria), havia apenas silêncio nas grandes áreas internas e no pátio frontal ao prédio. Evidentemente, se alguém preferisse estudar ou ouvir música, ou mesmo praticar algum instrumento, isso seria permitido, mas isso era raro. O certo é que o modo de preenchimento dos horários, do momento logo após o almoço até à tardinha, quando a folga chegava ao fim, ficava por conta do aluno – desde que o padre disciplinário concordasse.
Foi numa dessas tardes que o Irmão Nylo, rondando o adro da igreja gótica, portando sua inseparável armadilha de pegar cobras, viu Cássio, baixo, moreno-escuro, camisa branca de mangas arregaçadas e peito aberto, as veias salientes se mostrando nos antebraços musculosos, cabelos lisos pretíssimos com o topete alto penteado para trás, calça creme, sapatos brilhantes, lábios enormes, cenho franzido, subir as escadarias frontais à igreja gótica, vindo da ponte. O Irmão parou e esperou. De imediato, reconheceu o pai de Padirin, por tê-lo visto agradecendo a aceitação do filho tempos atrás ao padre superior.
“Vou chamar o padre Murilo; talvez ele possa ser de alguma ajuda na situação.”
E, segurando firmemente a arma de madeira que usava para pegar cobras, pisando pausada e pesadamente, jogando o corpanzil, foi chamar o padre Murilo, o responsável pela disciplina no seminário.
E o padre superior, desejando permanecer cortês com o inesperado visitante, esclareceu de quem se tratava, o porquê de o Irmão tê-lo ido buscar:
“O padre disciplinário é quem mais tem contato com os alunos, razão pela qual é quem mais os conhece e mais tem envolvimento em suas atividades. Você vai gostar de conhecê-lo. É excelente pessoa.”
“Nós obedecemos a um código de ética, a um manual de conduta moral e espiritual, que foi estabelecido há um século e meio, meu senhor. Um dos antigos padres do Caraça, o padre Leandro Rebello e Castro (um santo!), traçou este código em 1835, e nós o seguimos com fidelidade até hoje. Um século e meio são cento e cinqüenta anos! E não temos porque nem como sair fora dele! Nós seguimos uma tradição, somos seus guardiães! E é esta tradição que fez e faz a fama deste educandário. Ao adentrar o Caraça, todos os alunos são alertados para o fato de que 'se num cesto de laranjas sadias houver uma só laranja podre, ela deve ser imediatamente extirpada para que não contamine as outras!' Entre outras atribuições, os alunos devem se persuadir de que não vêm apenas para aprender os estudos, mas, também, as virtudes. Devem respeitar-se mutuamente, evitando inimizades, e os estudantes devem ser muito políticos, educados, no trato com seus semelhantes. E seu filho não estava se guiando por estas normas.”
Parando de falar, o padre disciplinário como que deu um tempo para que Cássio digerisse o que estava sendo dito, e ver se ele diria alguma coisa, mas, não; ele permaneceu em silêncio.
O padre tinha a fisionomia alterada, mas, o que de fato alertou Cássio para o perigo foi o Irmão Nylo com o pau de pegar cobras. O Irmão, injuriado, vendo que os padres não tratavam o interlocutor do jeito que ele achava mais apropriado, se adiantou e, brigando com a língua portuguesa, pois tinha pouco mais conhecimento do que o carroceiro de Barão de Cocais, disse a Cássio que ele estava “conspurcando um local sagrado” onde já haviam pisado “pessoas importantes e respeitosas”.
Notando que o carroceiro estava deixando o santuário, o padre superior e o padre disciplinário, polidamente, se ofereceram para acompanhá-lo até ao portão, mas Cássio ia bem mais à frente e não se manifestou, o que não o impediu de ouvir os padres lhe afirmarem que 'não é necessário que o jovem seja aluno do Caraça para se dar bem na vida, “seu” Cássio! Independente das circunstâncias – seja rico ou pobre, preto ou branco -, o homem é aquilo que ele quer ser!
Cássio estava triplamente errado. Não era verdade que apenas jovens remediados ou ricos estudavam no Caraça. Nos registros do colégio, desde sua fundação até o dia de seu fechamento como seminário, há anotações de 'alunos pobres', inúmeros, que estudaram de graça ou foram financiados por fundações filantrópicas estrangeiras, como a Cáritas alemã, por exemplo. Para ser aluno do Caraça, era preciso ter bons princípios e ser inteligente (se fosse rico, melhor ainda, lógico!), além, é claro, de demonstrar pendor para o sacerdócio, embora fosse sabido, de antemão, que a vocação religiosa era uma dádiva concedida a poucos (muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos!) Um bom número dos jovens que ingressavam no Caraça ia em busca de ensino de ótima qualidade ou eram forçados a ir pelos pais para serem domados em seu gênio rebelde. “Se você não se emendar, eu te mando para o Caraça!” – e, se os meninos não se emendassem, mandavam mesmo!
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Vinte e oito de maio de 1968. A lua está alta sobre a Serra do Espinhaço, e lá no cimo das montanhas, no vale onde se situa o seminário do Caraça, quase nada se ouve. Alta madrugada, e, como se respeitando os séculos de história e as enormes tradições do colégio, a natureza queda estática, quase muda: os padres estão repousando (eles necessitam de repouso, de silêncio, pois se levantam antes de todos), os alunos dormem, porque, como sempre foi sabido, no Caraça, embora houvesse folguedos, o estudo era obrigação tão importante quanto as orações e os alunos ficavam exaustos. Os funcionários, irmãos leigos e os empregados, não vão demorar também a ficar de pé.
Subiram outra vez para o morro do Calvário, e logo a fumaça subia aos magotes, entrando pelas escadas, penetrando nos dormitórios, e eles começaram a ouvir gritos apavorados de “FOGO, FOGO!”, e passos apressados, muitos passos, descendo as escadas dos dormitórios, palmas fortes sendo ouvidas - porque palmas eram o modo de despertar os seminaristas nas madrugadas ou de chamar sua atenção -, e passos apressados nos corredores, e Cássio viu, satisfeito, livros, mapas, infólios, incunábulos sendo atirados no pátio pelas janelas que iam tendo suas proteções de tela arrebentadas, numa tentativa de se salvar algumas daquelas preciosidades.
Ao chegarem à Curva da Saudade, pararam e olharam. Lá estava: na manhã muito clara e bonita, como são as manhãs de sol no Caraça (céu azul, algumas nuvens alvas, as montanhas negras brilhando belamente), uma visão aterradora: como um monumento bombardeado por uma aviação perversa, uma Dresden cultural moribunda, um Titanic divino mergulhando nas profundezas de um mar desconhecido, as ruínas centenárias do Caraça fumegando no fim do mês de maio: vinte e oito de maio, mil novecentos e sessenta e oito. Esta data, infelizmente, se tornou, como tudo o que se refere ao Caraça, celeiro de mentes e homens brilhantes, também histórica. Atrás do colégio fumegante, os negros contrafortes de pedra – o morro da Carapuça, a Cara do Gigante, o Inficcionado, o Pico do Sol, o Campo da Urbis - as montanhas da Serra do Espinhaço, que haviam, há tempos e tempos, cativado o Irmão Lourenço de Nossa Senhora e, pelos anos seguintes, atraído a atenção de imperadores, presidentes, governadores, intelectuais e cientistas nacionais e estrangeiros e demais figuras influentes, se exibiam, imponentes.
O Caraça ia comemorar século e meio de existência em 1970 e o programa de festividades já estava sendo elaborado pelos padres lazaristas. Ao invés de comemorações, na manhã de 28 de maio de 1968, após a última refeição, um padre disse:
“O colégio acabou. Vocês peguem o que sobrou de seus pertences e voltem pra casa.”
Os alunos se levantaram e, de frente para o quadro da Ceia de Ataíde (que, à época do incêndio, ficava no refeitório, tendo sido, após minuciosa restauração, transferido para a igreja gótica), rezaram a última oração, como faziam havia 147 anos. Havia lágrimas e soluços. Depois, deixaram o refeitório.
O que Cássio não sabia, ou fingia não notar, era que Leandro havia sido afetado pelo incêndio de um modo diferente: torturado pelo remorso, ele, que se considerava um fracassado, entregou-se ao misticismo (nas madrugadas, ao se dirigir para casa, lembrava-se, contrariado, de que os alunos do Caraça estariam, numa hora dessas, preparando-se para os estudos e as orações – se ele não tivesse contribuído para o fim do seminário levando seu compadre até à porta da ermida e atiçado sua ira ao descrever a biblioteca, e que, também por sua causa, grandes homens, grandes sacerdotes, deixariam de se formar em terras mineiras e o país muito tinha a perder com isso), converteu-se, e ele, antes tão descrente das coisas do Alto, vendeu seu carro velho, doou o dinheiro aos vicentinos, comprou uma bíblia que carregava diuturnamente sob o braço, passou a usar camisetas estampadas com motivos religiosos, pendurou um crucifixo e uma medalha com a imagem da Virgem Santíssima no pescoço, passou a ir à missa todos os dias da semana, a rezar o terço, e, ao se aproximar dos fregueses de jogo, erguia o dedo indicador da mão direita (ar sacerdotal, olhos vidrados), e dizia: “Buscai o Senhor, enquanto se pode achar!”, “Vigiai e orai, pois não sabeis o dia nem a hora!”, “O Senhor é meu pastor, nada me faltará!”
Turbino vive se lamentando por não ter subido o Pico da Carapuça (deve ser bonito demais! lá é muito alto e a gente enxerga longe!). E tem péssimas lembranças do Irmão Nylo: “aquele balofo não gostava de mim; por isso disse que eu não ia subir a Carapuça no princípio do semestre seguinte! Ele já imaginava que os padres iam me mandar embora! Filho de uma puta!” Em certas horas, ele ainda fica se perguntando: “Será que não foi o Irmão Nylo que...?” E, embora não tenha sido testemunha ocular, costuma relatar o incêndio pavoroso que destruiu aquele monumento cultural e religioso de Minas Gerais e do Brasil. Dos lamentos que foram ouvidos em todas as partes do mundo, das reclamações com a falta de atenção com a preservação do patrimônio histórico. “A biblioteca era muito seca e foi pro brejo. Incendiou-se rapidinho!”
A palavra que Turbino mais gosta de usar é 'incunábulo'. Dizem que, ao conversar com seus colegas operários e usar o termo 'incunábulo' (“Todos os incunábulos pegaram fogo, cara! Todos!”), eles perguntam, curiosos:
“Cu de quê?”
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