Fiel à linguagem e às mazelas dos trabalhadores da construção civil, de onde provém a maioria dos seus personagens, o autor não camufla situações nem modera palavras. Nesta mistura de realidade com ficção, onde as coincidências haverão de ser muitas, um apelo à cultura e à vida da classe operária, sem dúvida, é o ponto chave. Com um estilo despudorado, intrigante, inteligente e interessante, narra suas histórias e prende o leitor, mantendo-o perambulando por Ruas Tortas. (Nota do editor)
RUAS TORTAS (Trechos ):
1 - Encontro com o Vampiro: A mulher, enquanto dava o peito pro bebê, lhe tinha dito: vai lá e fala com ele. Deve ser gente boa. Ou, se preferir, vai ao salão de beleza da esposa e lhe exponha tudo. Ele mais a esposa são trabalhadores e já passaram dificuldades e saberão reconhecer nosso problema. Eu não tenho jeito pra isso... O filhinho não era pra ter vindo mas escapuliu. As madrugadas em cima da cama quente, eles inventavam tanta coisa! Durante o namoro, era tudo beleza; nos fins de semana tomavam umas pingas, faziam a cabeça e iam a um baile qualquer... Depois, até pra comprar uma vassoura era complicado... Era como com as putas: os caras estavam a fim de dar uma trepada, então, eles iam lá, tratavam o preço com as putas, comiam aquilo, e davam no pé.... Nem precisou bater à porta da casa do Armando: lá estava ele, na rua, lavando o carro.... Eu te dou um terço do salário mínimo pra fazer este serviço... Um terço do salário?! Tá achando pouco? Eu conheço pessoas que fazem mais barato... Você deve pensar o seguinte, Bebeto: não é muito, mas, é uma grana da qual você pode precisar... Eu pago impostos sobre meus imóveis alugados. Pago doze impostos! Doze! E o que eu ganho com isso? Eu preciso economizar, moço!... Então, ele, Bebeto, começou a andar para casa.Armando é quem não valia nada!..."
2 – Aparição: “Não havia ninguém olhando, por isso Grilo largou a enxada sobre a masseira, entrou coxeando na casa toda bagunçada pela reforma e... Olhou no espelho procurando fixar bem com seu olho esquerdo aquele ponto esbranquiçado de catarata que lhe cegava o olho direito e o fazia ficar tão puto... Além da catarata, o pé direito do cara era todo torto. Só conseguia pisar com as pontas do dedos, o calcanhar ficando alto; com o tempo, o pé do moço estufara e ele ia andando e era aquela coisa! Como diziam os colegas: Mula Manca ou Galo Cego? Mas a santa estava aparecendo na cidade próxima e ela certamente ia fazer um milagres e curá-lo, se não do pé torto, ao menos da catarata. A bem da verdade, ele não acreditava em milagres, a mãe, sim....Fora a única ocupação para a qual ele tivera alguma serventia: servente de obras; puxar o cabo da rabuda, como as pessoas falavam, debochando... então, o Capitão Gancho chegava ao serviço, o pulso direito faltando a mão, pagava a enxada não se sabe de que modo, e começava no trampo... E Zé Virgílio era pinguço também! Chegava ao desplante de trazer cachaça pra obra. E pedaços de carne! Zé Virgílio lhe aconselhou a não ficar trepando só papai-com-mamãe.... A mulher invoca com a mesmice e sai procurando quem gosta de fazer coisas diferentes... E as minhocas que havia dentro da cabeça do Comandante ficavam azucrinadas. E ele ia pro meio da rua e era só comandante pra cá, comandante pra lá – e as continências!... E os caras da obra ficavam matutando: como alguém podia tratar de família vendendo panelas de pedra, porra?! ... Grilo se assustou ao ver o filho dos velhos: branco, magrinho, magrinho. Um graveto!... Era mascate – o sujeito respondeu – vendia artigos de lingerie, bijuterias, cosméticos, perfumes baratos... Tá fodido! – o pai ia repetindo, em voz baixa – tá fodido!... Grilo ia andando no meio do povo e perguntando : você conhece alguém que tenha sido curado? Não, é a primeira vez que venho. E você, conhece alguém que...? Ninguém conhecia... Grilo nem sentiu o tempo da viagem. Silêncio constrangedor, rostos tristonhos... Chegar em casa foi fácil. A mãe era compreensiva, esperançosa, conformada. Corre, Grilo, corre! Nossa Senhora tá aparecendo! Vem depressa! Pede uma graça, Grilo, pede uma graça! HA! HA! HA! – faziam os homens... Ao levantar os olhos outra vez para o céu, Grilo viu que o avião já tinha desaparecido, o penacho de fumaça ainda estava se desfazendo."
3 – Na Volta do Rio: “Havia algumas casas antigas ladeando a estrada depois da ponte, na saída da cidade. Casas pequenas, de telhas de barro, sujas, algumas de pesadas janelas de madeira lavrada a machado, nas quais se podiam ver as irregularidades deixadas pelas lâminas da ferramenta... A cidade era velha, as casas eram velhas, mas ambas estavam de pé... Em outros tempos passava um trem nos trilhos que agora o mato encobria... Depois, o guarda-chave se aposentara, a estação diminuta fora fechada, e mais nada de trem... Dimas tinha soltado foguetes logo em frente da casa de seu primo. Política... Dimas nem era de briga mas seu partido havia ganho, ele estava alegre, havia facções políticas diferentes naquele fim de mundo... E havia brigas por causa de política... Vocês têm de matar o Dimas! – “seu” Honório disse aos três filhos; - vocês têm de matar aquele rapaz!... –O que foi, moço? Você parece preocupado! Foi o Dimas, meu cumpadre. Eu lhe dei uma porretada e ele caiu... Era noite já quando dois cavaleiros – Lino e Beto – passaram pela volta do rio e deram com o corpo. --- É o Dimas, coitado!... e o cri-cri intermitente dos grilos e, pela primeira vez na vida, notou o quanto a noite era bonita... E, vendo a cabeça de Beto recortada contra o luar, envolta pela fumaça do pito que ele levava nos lábios, ficou matutando com seus botões por que o mundo era tão belo e os homens eram tão maus. ”
4 – Moça na Noite: “Por que eu faço uma coisa destas, porra, por que eu faço uma coisa destas? Ontem eu fiz, anteontem eu fiz e transanteontem foi a mesma coisa: eu fiz! Na verdade, há muitos anos eu venho fazendo e ficando chateado comigo mesmo: eu parei em todos aqueles botecos e demorei a sair pois achei a pinga gostosa e os tira-gostos impecáveis e os papos dos caras interessantes mas agora eu tô aqui fodido outra vez rastejando morro acima.... Se eu não tivesse bebido tudo isso já teria subido este morro e não estaria sem graça de passar perto daquela moça que vem lá longe... Mas ela também troca as pernas e escora a mão direita na parede e ao invés de deixar o passeio vem em minha direção... De onde você vem? Eu tava fazendo via-sacra – respondo – tava catando todos os botecos da parte baixa da cidade e ela soluça – tá com soluços – e tenta rir e diz pois eu também tava fazendo via-sacra tava catando todos os botecos da parte alta da cidade Me diga seu nome, querida, posso te chamar de querida? Faço questão, meu nome é Dodinha... Então eu aperto de leve o corpinho de Dodinha contra o meu e fico ciciando uma canção de ninar – nã, nã, nã – e... sua bocetinha é a coisa mais linda do mundo! Permaneço encostado algum tempo e... Alguém passa depressa e olha rapidamente pro meu rosto e diz “boa noite, amigo, espero que tenha bons sonhos se estiver indo se deitar para dormir agora!” mas eu estou muito distraído e não respondo. De madrugada – penso – vou ter de me levantar pra tomar água gelada e chupar um pedaço de limão – mas não importa! Eu rio sozinho e paro pra tomar um fôlego. Então respiro fundo e começo a subir, quase engatinhando, o último morro.”
5 – Eu Minha Condição: “Tô fodido – eu pensava – tô fodido! Eu tinha acabado de deixar o escritório de contabilidade, meu patrão tinha me despedido (contenção de despesas, segundo ele), e me tinha mandado receber meus direitos com seu contador, e mandara descontar os muitos vales que eu havia feito (eu sempre fazia muitos vales) e ali estava eu: parado numa esquina, fodido! ...Passo pela praça. Não quero, mas não tenho destino certo... Hei, moço, me dá um dinheiro? Eu não tenho dinheiro. Oh, que pena!... Eu lhe dou dinheiro se você namorar comigo! Namorar que você diz é fazer isso? Ela diz, fazendo gestos rápidos, com a mão direita em concha para baixo, num arremedo de trepada. É isso mesmo! Mas você acabou de dizer que não tem grana, cara?! Pra essas coisas a gente arruma. E como nós vamos fazer? Indico-lhe uma pensão perto da praça e digo:...” “Por que você começou a fazer programas? Ah, procurei emprego e não consegui; moro na casa de uma tia e ela vive me exigindo dinheiro... Deite-se de bruços um pouco. Deixe-me alisar sua bundinha. Eu não vou te dar a bunda!... Quer experimentar aquilo? Aquilo o quê? Uma chupada? Você enlouqueceu? Por que enlouqueceu?! Não gosta? É muito nojento!... Olho para a rua de onde vim e vejo as duas putas descendo abraçadas e rindo às gargalhadas. Olham pra mim e me sinto um tanto trouxa... Tô duro e leso! Atravesso rápido a avenida e entro ligeiro na praça. Vou falar um pouco de merda com os homens. Tô fodido!”
6 – O Fruto Proibido: “Tinha um boteco perto de minha casa, na vila em que eu morava – o menino dizia – e os homens ficavam o dia quase todo lá. Eles se assentavam em volta das mesas, acendiam cigarros, mandavam colocar bebidas nos copos, se debruçavam sobre cartas de baralho, e iam jogando, bebendo e fumando... É uma infelicidade – minha mãe dizia a respeito daqueles sujeitos que ficavam tanto tempo dentro do boteco... E o filho do tenente com aquele palavreado e aquela bebedeira?! Como um homem pode ser tão à-toa assim, meu Deus? ...Eustáquio não falava palavrões. Ao ouvir relatos de casos de homens com mulheres, perguntava: é mesmo!? Ele comeu ela mesmo? E ela dá mesmo sem problemas? É preciso dar dinheiro pra ela? Onde ela mora?... Foi numa tarde escura e triste que a família do barbeiro se mudou para uma casa em frente à nossa. Ventava muito, o pé de amoras lançava folhas retorcidas e gravetos secos e espinhentos pra todos os lados... Era como que o prenúncio de alguma tragédia que estivesse a caminho. ... Algum tempo depois, a mulher do barbeiro abriu o jogo com minha mãe: meu marido não vale nada! – disse ela... Minha mãe dava graças a Deus: seu marido era exemplar, correto, trabalhador, nada deixava faltar em casa... Havia chovido bastante na noite em que meu pai chegou bêbado pela primeira vez em casa, após o serviço... Nós vamos passar dificuldades – minha mãe me disse, certa noite, muito preocupada. Por que? – eu perguntei – mas eu já sabia o porque. Seu pai se juntou com o barbeiro e caiu na vida. Tamos ferrados!... Sabe o que o seu pai tá aprontando, rapazinho? Não! Tá comendo todas as mulheres derrubadas da cidade!”... Dona Lulude esteve aqui ontem à noite. Aquela crente maluca e futriqueira? O que ela veio fazer? Veio ler a Bíblia e dizer algumas orações... Mulher crente mais idiota, porra! Nem sabe ler a Bíblia direito; tá escrito lá com todas as letras: Deus criou o homem e a mulher e disse: “Crescei e multiplicai-vos e enchei todas as terras!” Tem muita terra vazia no mundo ainda. O lance é metê o piru mesmo!... Saulo veio chegando. Quantos anos teria ele?... Eu fui lá na casa das mulheres ontem!... Quem te levou lá na casa das mulheres? O filho do tenente... O trem é gostoso, bicho! Depois que você deita em cima da mulher e enfia o peru e ela começa a se mexer, você não quer sair de jeito nenhum. De jeito nenhum mesmo!... Cresce depressa, moço, pra você ir lá também!... Aí a moça me puxou pra junto dela e eu fiquei passando a mão nas pernas dela e... E então, não tá vendo nada? Olhei pro meio das pernas da moça e vi que ela não tava usando calcinha e lá estava! ... O rachado vermelho com uma pontinha de carne apontando na parte de cima... Vou lhe dizer uma coisa moço: meu pauzinho começou a subir!... O que é isso, dona?! Você tá ficando maluca? Ele! O filho do tenente!... Então foi isso: eu fiquei muito puto! Antes de se mandar, mata a minha curiosidade, garoto: por que você não veio buscar o seu pai aqui no boteco, que é perto, e foi buscar ele lá no meio do mato... E ainda foi quase no começo da noite?... Filho de uma puta! Ele tinha matado a charada!... Ele desconfiou que eu tava a fim de ver o troço, o fruto proibido... Vai direto pra casa, rapazinho, e procede direito!... Minha mãe estava triste e pensativa quando cheguei em casa... Vou me lavar primeiro, mamãe , depois, eu janto e me deito... Eu estava chateado. A mulher tava sem calcinha e sutião e os peitos dela eram morenos e muito bonitos e tinha aquele negócio lá, brilhando no meio das pernas... Se o filho do tenente não tivesse aparecido eu... Eu teria chupado aqueles peitos, eu... O garoto parou de falar e ficou olhando pro chão, o semblante sério. Era muito novo ele ainda."
7 – Os Pretos: “Foi a dona de uma escolinha. Loura ela, branquinha, baixinha, gordinha, de óculos. Ia passando de carro, me viu na rua, me chamou, e disse: Sei que você trabalha de pintor.Tenho um serviço de pintura a ser feito. Quer pegar? Quero, sim, dona. Tô a fim de trampar... Conhece um preto que conserta telhados que mora à beira linha? Não, senhora, não conheço, mas, posso perguntar... O marido da senhora é o homem que conserta telhados? É sim... Não vou; definitivamente, não vou! ... de modo que, ao se trabalhar para estas pessoas, nada se ganha. Não vou!... Como foi; conseguiu se encontrar com o homem? Respondo que consegui e lhe conto o que o consertador de telhados falou: que ela era ruim de conta, pagava pouco, além de ser muito exigente e ele não desejava mais trabalhar para ela... Aparentemente, a dona não se toca com as minhas palavras... Então veja se você arranja alguém para fazer este serviço pra mim – mas que não seja preto... Os pretos são muito problemáticos."
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
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