ENCONTROS NA GARAGEM
Lembro-me que havia chovido, era noite, e eu estava bêbado, e ia andando entre os carros na rua e torcendo pra não ser atropelado, e que depois eu entrei num bar e me encostei ao balcão com os punhos fechados apoiados à borda e pedi umas bebidas ao garçon.
Lembro-me que o cara deu uma olhada pra um colega, como que pedindo uma opinião devido ao meu alto grau de zonzura, e que depois ele me mandou ocupar uma mesa e me trouxe as bebidas.
Lembro-me que eu fiquei sentado lá no bar. Havia uma garrafa de cerveja sobre a mesa e eu enchia e esvaziava o copo e, quando a cerveja acabava, eu batia na mesa com o fundo do copo e o garçom trazia mais cerveja e eu enchia e esvaziava o copo e, quando a cerveja da garrafa acabava, eu batia na mesa com o fundo do copo e o garçom trazia mais cerveja. Vez ou outra eu tomava uma pinga e ia sempre batendo na mesa com o fundo do copo. E assim foi e eu, que já estava bêbado, fui bebendo e continuei a entortar.
Tinha uma televisão ligada e um cara falava alguma coisa na televisão. Que tinha chovido muito em algum lugar e muitas pessoas tinham morrido e ainda chovia. E eu enchia e esvaziava o copo. Ninguém dentro do bar parecia estar preocupado com o destino das pessoas que tinham morrido ou que estavam tendo problemas por causa da chuva, porque só se ouviam assuntos banais e, quando o locutor ia dar as últimas notícias sobre a enchente, o pessoal continuou conversando normalmente. E os copos estavam sempre cheios de cerveja ou de pinga.
Minha cabeça começou a rodar. Eu estava zonzo mas estava do jeito que queria: miando! Fechei os olhos para degustar mais minha zonzura. Como eu tinha vindo parar ali? Tinha saído a lista com o resultado do vestibular e eu tinha sido aprovado. Engenheiro florestal! Aí, apareceu um montão de gente que eu nunca tinha visto fazendo festa, gritando, bebendo, e eu acompanhei. Depois os caras tinham desaparecido, havia algumas mulheres no meio, e eu nem sabia quem eles eram nem onde eles tinham ido.
Então eu fiquei bebendo lá no bar e quando acordei não sabia como tinha conseguido chegar ao meu quarto nem se tinha pagado as bebidas no bar ou se alguém tinha pagado por mim. Sabia que estava com uma tremenda ressaca, a boca babenta, a cabeça doendo, um gosto de cano de guarda-chuva na garganta. Estava de ressaca!
Eu estava sentado lá no mesmo bar, quando me cortaram os cabelos. Eu estava lá sentado com um copo na mão e havia uns caras da universidade bebendo e conversando e, não sei como, eles descobriram que eu tinha sido aprovado no vestibular e eu ainda tava com a cabeça cheia de cabelos e um deles se chegou pra mim e perguntou:
---- Então, você foi aprovado no vestibular, cara?
---- Fui!
---- Qual curso?
---- Engenharia florestal, he, he!
Aí, então, todos os outros caras se levantaram, se aproximaram de mim e disseram:
---- Vem cá fora. Senta na calçada, que vamos cortar seu cabelo.
Nem pensei em dizer que não, porque estavam já quase começando as aulas, e eu seria de qualquer modo obrigado a cortar os cabelos. Além do mais, os calouros sempre ficavam por conta da encheção de saco dos veteranos, pelo menos durante o primeiro mês de aulas.
De modo que saí do bar, me sentei na calçada e, quando me levantei, tinha a cabeça completamente tomada de caminhos de rato.
Ao passar em frente à porta fechada de um bar, uma mulher que estava sentada no passeio falou:
---- Hei, moreno, vem cá conversar com a gente!
Olhei. Era uma loura já bastante passada. Vestia calças vermelho-claro, camisa jeans da mesma cor. Havia uma colega sentada no meio-fio com ela, esta de costas para a rua. Me aproximei das mulheres. De perto dava para se ver melhor o estrago que o tempo tinha feito na coroa: a pele escorrendo pelo rosto, a carne do braço toda enrugada, manchada, os cantos dos olhos cheios de pés-de-galinha, a voz horrorosa - não falava, grasnava. Me sentei na borda do passeio e ficamos ali, conversando. A coroa estava de fato querendo transar comigo. Me dava umas cubadas gulosas, ria com meus gracejos. Mas eu tinha ficado parado na sua colega. A outra - morena-clara, fortinha - usava um short muito apertado, cor-de-rosa, estampado com grandes flores brancas, uma mini-blusa preta com botões dourados, tinha o umbigo lindo todo de fora, os peitos do tamanho ideal, as pernas grossas, os lábios grandes, o cabelo pretinho dividido ao meio, num bonito topete, e eu fiquei conversando com a amiga dela e olhando pra ela, para o testeiro da xoxota dela, enorme e, depois, não resisti e disse:
---- E aí, cara?
---- Aí o quê?
---- Aí!
---- Aí o quê, porra?
---- O que você acha?
---- Acha o quê?
---- O que o quê, cara?
A mulher ficou me olhando com os grandes olhos verdes e ficou olhando para a colega dela e depois voltou a olhar para mim. Eu fiquei só sacando aquele corpo e ela notou e eu tornei a falar:
---- Você conhece algum lugar onde a gente possa ir?
---- Ir pra que?
---- Não enche, cara! Você sabe o que tô querendo!
---- Num tô a fim hoje, não, moço! Enjeitei uma grana boa agorinha mesmo!
---- Vamos sim! Vai ser muito bom!
---- Será que vai mesmo?
Na verdade, a moça queria ir comigo. Estava com receio de chatear a colega, era ela quem tinha me chamado.
---- Quanto você vai me pagar?
Tratamos um preço, nos levantamos, a mulher me pegou pela mão e saiu me levando. Não pude deixar de notar a tristeza da coroa! Se ela estivesse sozinha, sem dúvida eu trepava com ela.
A mulher me conduziu pela mão até a uma casa velha, pintada de amarelo vivo, ao lado da estação de estrada de ferro. Havia inúmeros vagões parados sobre os trilhos. Sobre a porta única da casa, uma inscrição: PENSÃO DA ESTAÇÃO. A porta estava aberta. Entramos.
A moça já era conhecida do dono, um velho muito decrépito. Foi chegando e lhe perguntando:
---- Fulano, aquele quarto tá desocupado?
Aquele quarto! Estava.
---- Me dá uma toalha?
O velho saiu arrastando as sandálias. Num instante voltou com um pequeno pedaço de pano encardido, cheio de buracos. Era a "toalha". Eu tinha me sentado numa poltrona caindo aos pedaços e esperava. Então, a mulher pegou naquele pedaço de pano, me pediu que pagasse uma mixaria pelo uso do quarto, e disse:
---- Vem comigo.
O quarto era fodido, mal pintado, de teto de esteira, com cheiro de mofo, mas era enorme. Arejado. E tinha uma espaçosa cama de casal. Dava para transar com sossego. Pus meu caderno de Cálculo num canto da cama. Me deitei de roupa e a mulher ficou nua. Se se vestisse como uma madame e tivesse modos distintos, ninguém diria que era uma rampeira! Gostosíssima! Os peitos firmes, nem grandes nem pequenos, as coxas mais do que lisas, a bunda mais do que perfeita, a barriga também firme. A moça dobrou as roupas, colocou em cima de um caco de cadeira e veio para o meu lado. Desabotoou minha camisa, tirou, fez o mesmo com minhas calças, com meus sapatos, com minha cueca. Pôs junto com suas roupas. Enfim... nus!
Nem tive paciência de dar umas alisadas, uns apertos preliminares. Logo que a moça se deitou, fui montando em cima daquilo e atolando nela o peru. Nem vou dizer que era boa! Indescritível! A xoxota apertadinha, a pele maciinha, os braços aconchegantes, as coxas deliciosas! E eu ia apertando a mulher em cima da cama e ela ia me passando as mãos nos cabelos, na nuca, nas costas, nas coxas e nós ficamos ali até que ela decidiu inverter as posições: ela por cima e eu por baixo. Mais gostoso ainda! A cara abriu aquelas coxonas em cima de mim e desceu aquele volume de boceta em cima do meu pau e eu fazia força para apará-la no ar e ela forçava o corpo para baixo e se deitava sobre mim e o suor começou a escorrer em bátegas e nós nem ligando e fomos invertendo e desinvertendo as posições e...!
Como nada gostoso acontece sem uma encheção de saco, havia uma porra de uma mola solta no colchão. Me machucava as costas, principalmente quando a mulher me apertava o corpo sobre a cama. A mulher, provavelmente, já estava tão acostumada a transar naquela cama, a sentir o espetar daquela mola, que não fez qualquer observação a respeito.
Durante a trepada, descobri o que a moça pretendia fazer com a "toalha". À medida que íamos transando, a xoxota da gostosa ficava molhada e ela passava a "toalha" para enxugar. Logo, logo aquela delícia ficava enxutinha, da melhor qualidade. Molhava outra vez, outra vez ela passava a "toalha". Enxugava também meu peru. E a trepada ficava ainda mais gostosa. E nós fomos transando e ela ia cochichando umas bobagens nos meus ouvidos e me lembro de lhe ter perguntado:
---- Qualquer dia você deixa eu comer sua bundinha?
Ela respondeu:
---- Ah, não, querido! Dói!
Então, nós ficamos trepando e, como não havia modo de não gozarmos, o desfalecimento veio e eu ainda tentei segurar a mulher na cama até de manhã, mas ela afirmou que tinha de dormir em casa porque a mãe dela enchia o saco quando ela não aparecia para dormir e que qualquer dia nós nos veríamos de novo. De modo que a mulher passou a mão direita na xoxota, passou os dedos melando nos meus lábios, pegou minha grana e desapareceu. Por que ela passou a mão melando em meus lábios? Não sei! Passou e eu fiquei deitado de bunda para cima, sentindo o cheio da xoxota da moça perto do meu nariz. Escolhi um canto da cama onde não havia possibilidade de me encontrar com a mola e adormeci.
Acordei, ao amanhecer do dia, com uns hóspedes da pensão bochechando, escarrando, raspando as gargantas numa pia existente atrás da casa. Com uma composição da rede ferroviária fazendo baldeação nos trilhos. Sete horas! A prova de Cálculo era às oito horas! Aquela já era!
Fazia frio quando coloquei os pés na reta pro começo do meu segundo período. Uma densa névoa cobria as águas da lagoa, os gramados, saía vapor da superfície da água. Ao longe, não se podiam ver as árvores que margeavam o lago. Do primeiro prédio de alojamentos, só se tinha uma sombra desvanecida. Um reencontro com o perfume penetrante, adocicado, das folhas das magnólias!
Os jardins estavam estupidamente bem aparados, planos. Verdíssimos. E os canteiros de flores, no meio dos gramados, pareciam ter toda a beleza do mundo. ( aumentar isso )
Sensação estranha aquela! As salas de aulas estavam sempre cheias de calouros! Se eu tivesse um pouco de vergonha, me sentiria deveras sem-graça, mas... Além do mais, havia um monte de veteranos me fazendo companhia. Nós nos sentávamos sempre do meio da sala para trás e deixávamos a parte da frente para os novatos. A dificuldade maior era ter saco para assistir às aulas. Não era incomum um de nós sair antes do término ou mesmo perder a aula e ficar de pegar a matéria com alguém mais tarde. Quando o mestre fazia chamada, se pedia a alguém que assinasse em nosso nome. Fiquei mestre em fazer essas coisas. De qualquer modo, sempre se corria o risco de se perder a ponta da corda com a matéria.
A orientadora me dera apenas quatro: Cálculo 1, Física 1, Climatologia Agrícola e Solos 1.
---- Faça bem estas disciplinas, que vai lhe aliviar enormemente o currículo; me havia dito a moça.
Eu não queria aceitar, queria mais disciplinas, mas decidí não criar caso. Passei a mão no horário, e saí do gabinete da cara.
Quando os professores começaram a repetir tudo aquilo que já haviam dito no princípio do ano anterior, achei que era brincadeira. A mesma coisa! O pior é que tudo era novidade para mim! Os pregos inclinados nas tábuas, as esferas rolantes, as molas! Tudo! E o saco que eram as aulas práticas! A calourada lá, de antena ligada, metendo o dedo e eu no meio deles, mais perdido do que cego em tiroteio! E o professor de Física Prática estendendo as molas, rolando as esferas, e depois dando voltas ao redor das mesas, se negando a responder, a tirar dúvidas dos alunos.
Certa noite - ainda Válber! - chegara à Zona e vira uma figura vestida de mini-blusa bege tampando os peitinhos baixos, micro-saia de pele de leopardo, botas pretas de salto, cabelos negros batendo nos ombros. Barriguinha firme. Fantásticas pernas cor de cobre. Se aproximou:
---- Há muitos dias que tá aqui?
---- Não, querido. Cheguei ontem!
Que voz!
---- De onde veio?
---- Da capital.
---- Deixa eu chupar sua xoxota?
---- Ah! quem me dera que eu tivesse xoxota!
---- Por quê?
---- Sou bicha, bem!
---- Oh!
E eles ficaram conversando banalidades e o bicha falou pro Válber:
---- Deixa eu chupar seu pau?
Então eles foram pro quarto e a bicha bateu de boca no pau do cara e eles ficaram muito amigos. Vez ou outra Válber pegava uma grana na mão do cara, mas nunca lhe rangou a bundinha porque não tinha jeito para esses troços. Mas quando estava no salão, após ter lambido as mulheres, era comum a bicha chegar e pedir:
---- Deixa eu sentar no seu colo?
E ele deixava e os dois ficavam conversando com as mulheres. O viado demorou pouco na cidade. Válber nunca mais o viu.
A mulher falava isso com a voz triste, me alisando devagar o rosto. Para levantar o astral, decidi brincar com ela.
Enfiei-lhe as pontas dos dedos nos cabelos lisos, os estiquei, e perguntei:
---- Pra que você tem os cabelos tão grandes?
Ela entrou no jogo:
---- É pra te amarrar!
Puxei-lhe a pálpebra do olho direito com as pontas dos dedos e perguntei:
---- Pra que você tem os olhos tão grandes?
---- É para te enxergar!
Depois, desci com a mão até seus lábios, os abri com as pontas dos dedos, e perguntei:
---- Pra que você tem os dentes tão grandes?
---- É pra te rangar!
Fui com as duas mãos sobre aquelas coxas indescritíveis, fiquei alisando durante bastante tempo, depois, perguntei:
---- Pra que você tem as coxas tão grandes?
---- É pra te apertar!
Então, eu lhe enfiei o dedo indicador direito na xoxota e perguntei:
---- Pra que você tem a xoxota tão grande?
A mulher não achou graça. Disse, fazendo cara de desagrado:
---- Minha xoxota é pequena, apertadinha, moço! Eu tô te dando ela porque ela é gostosa e meu marido não sabe aproveitar e ela não pode ser desperdiçada! Enfia o peru e aí e vai confirmar o que eu tô dizendo!
A mulher falou e abriu as pernas e eu me deitei em cima daquele corpo e fui empurrando bem devagar o peru e ela passou as duas pernas em volta de meu tórax e...
...o negócio é o seguinte: os caras nascem, vão crescendo, viram adolescentes, começam a amadurecer e depois vão para as obras. Normalmente começam de baixo, lógico!: serventes, ajudantes de qualquer categoria. Depois, começam a pegar em ferramentas. E ficam alegres! Estão se tornando homens sérios, respeitados. Eles ao menos acham isso! E vão pregando tábuas, estendendo tubos, furando paredes para montar andaimes, amontoando tijolos, levantando prédios. Jogando a massa de alvenaria nas paredes nuas. Pintando as paredes prontas. E dando gritos dentro das obras, porque acham que são os donos da situação e o terreiro é deles - dos galos! À noite, vão pra Zona, vão pras quebradas, vão atrás de mulheres. Além da necessidade de molhar o pavio, precisam arranjar casos pra contar. Sempre se casam com uma delas. Fazem uma casinha fodida, ou um barraco mais do que fodido e ficam ali. Vão trabalhando de dia e trepando de noite. E chegam às obras contando para os outros, de manhã: --- tirei três ou cinco ou oito na noite passada! O trem é bão dimais!
E continuam jogando massa nas paredes, pintando paredes, furando paredes para montar andaimes e essas coisas. Há sempre um encarregado para exigir rapidez no trampo. E o corpo começa a reclamar. Cansaço!
Então, nesta época, provavelmente já compraram uma televisão a crédito - como era o caso da bundudinha casada. Saem do serviço, doidos pra chegar a casa, alguns ainda enchem o rabo, ou tomam apenas uma pinguinha, o que, de qualquer forma, já ajuda a atrapalhar. E, estourados, chegam em casa, fazem um lanche, batem a bunda na frente da TV e ficam ali. Estão com o corpo dolorido. Estão mortos! Ficam arrumando assunto pra contar na obra, durante o serviço: futebol, notícias policiais, shows de música sertaneja ou mesmo novelas. A esposa fica esperando se sai alguma coisa: um carinho, um sarro, uma ereção, uma trepada, qualquer coisa. Qualquer manifestação de ternura. Nada! Não sai nada! Depois, vão dormir. O oficial entra debaixo das cobertas, vira a cara pra parede e...
Os caras estão preocupados, porra!, eles têm de estar no trampo de manhã, logo cedo, que o encarregado é chato, o patrão é exigente, a obra está atrasada. Costumam também estar trampando em condomínios de pessoas da classe média que acham que os operários são propriedade delas e vivem dando ordens, perturbando, enchendo o saco! Ás vezes é necessário fazer horas extras. E a mulher fica esperando...
Fui empurrando o peru na dona e fui pensando nisso. Ela era proprietária de uma daquelas pererequinhas gostosas, macias, que ficam mordendo o pau da gente! Escorregadia! De mãos mais do que carinhosas. Como o peão podia chegar em casa, bater a bunda na frente da televisão preto e branco e deixar aquela delícia pra lá? Cansaço! Preocupação! Só podia ser isso!
E a dona foi me apertando entre as pernas com muito carinho e me passando as mãos e me beijando na boca e eu fiquei lhe puxando os cabelos e ela me olhava com os olhos semi-abertos e suspirava e gemia e...
Demoramos na trepada. Gostoso demais!
Estava tudo como não podia ter acontecido: o rolo nas disciplinas! Estavam lá no meu horário: três matérias básicas de quando eu ainda era calouro! Cálculo 1, Química 1 e Física 1! E estava Climatologia Agrícola também! O orientador me deu Solos 2 para que eu não ficasse com muitas janelas no horário e para que não me atrasasse demais o curso. E tudo isso no quarto período!
---- Você não pode perder mais estas disciplinas básicas, Júlio César. Isto pode comprometer seriamente seu currículo! Seu acumulado fica extremamente baixo, irrecuperável, e os conflitos de matérias nos períodos seguintes serão inevitáveis.
---- Pode deixar! Deste período em diante, logo após as aulas, eu vou para a biblioteca! Vou pegar firme!
---- Isso, meu rapaz! - disse-me ele - nada está perdido ainda!
---- Mas seu currículo está horrível!
---- Vou melhorá-lo a partir deste semestre! Vou começar a estudar com afinco!
---- Mas nem os melhores alunos da universidade se atrevem a se inscrever em tantas disciplinas! Oito! Fica muito pesado! E você foi reprovado em quatro delas no último período!
---- Inscreva-me nestas, por favor! Eu sei o que estou fazendo! Conheço minhas possibilidades!
---- Seu currículo já está cheio de reprovações! Você só vai fazer piorá-lo! Seu rendimento acumulado está extremamente baixo!
---- Vou elevar meu acumulado e encher meu currículo com os melhores conceitos!
Minha orientadora me olhava com espanto. Eu tinha perdido quatro disciplinas no último período, e tinha sido obrigado a refazer meu horário.
---- Já ouviu dizer que a universidade vai recomeçar o jubilamento?
---- Já! E este assunto tá me enchendo o saco!
A mulher desistiu. Me ajudou a montar minha grade de matérias, assinou meus papéis, eu me levantei e saí andando.
Ao entrar na sala de Cálculo 1, dou com os olhos num veterano que aparece em todas as salas onde estou repetindo matérias. O sujeito já tem alguns fios de cabelos brancos, ele também é branco, de óculos, sério. Está ficando gordo, a idade chegando. Patrimônio da universidade. Não sei como não foi jubilado! Está sentado na última carteira. Ele sempre se senta na última carteira. Olha fixamente para o quadro-negro. O professor diz alguma coisa referente a derivação e ponto de inflexão e o veterano olha para o quadro-negro como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez. Fico com pena dele e me sento ao seu lado. Tento puxar conversa:
---- Esta matéria é um saco, né, cara?
O sujeito faz um som gutural com a garganta:
---- Grunf!
Fecha ainda mais a cara. Não apreciou nem um pouco minha aproximação. Eu insisto:
---- É a quinta vez que eu me matriculo nesta merda!
---- Grunf!
---- Há muito tempo que tá estudando na universidade?
---- Grunf!
E o cara se vira pro meu lado, me dá uma olhada horrível, eu me assusto e me levanto e vou me sentar mais longe.
Tinha uns caras que se achavam os maiorais porque tinham conseguido entrar na universidade e estavam tirando boas notas. E ficavam alardeando aquilo. Um idiota ex-chofer de caminhão era desse tipo. Floresteiro, grandão, voz grossa, barrigudo. Fez todas as matérias de calouro comigo, depois, desapareceu. Engoliu a grade. Trombamos outra vez na Microbiologia. Nem sei porque deixou aquela disciplina pra fazer mais tarde. Era extremamente caxias. Então, o chofer de caminhão tava na sala prática de Microbiologia mexendo nuns tubos, eu entrei, coloquei meu caderno sobre a banca, e me aproximei de seu grupo. Havia apenas duas pessoas. Os outros dois alunos tinham faltado. Cada grupo era composto de quatro pessoas. Eu não gostava de meu grupo. Só alunos fracos. Esforçados, mas fracos. Lá estava ele! Ele e uma aluna do alojamento. Me aproximei porque o cara era eficiente e eu tava a fim de assinar seu relatório logo que ele ficasse pronto. Eu tinha tomado bastante na hora do almoço, estava razoavelmente tonto. Nada que me impedisse de assinar meu nome no papel do cara. A moça ficou deveras surpresa com minha chegada. O chofer não se mostrou nem um pouco satisfeito. Mas bati a bunda numa banca perto dos dois e fui ficando. Os dois cus-de-ferro iam mexendo nos tubos, flambando uns chumaços de algodão, transando uns meios de cultura, etc. Era até bonito ver os dois manejando aqueles troços! Vez ou outra eu dava alguma opinião para despistar, lógico!, porque estava completamente por fora daquele troço.
O chofer de caminhão me perguntou:
---- E aí, cara, cadê seu grupo?
Ri pra ele e disse:
---- Vou variar de grupo hoje! Variar de vez em quando é bom, você não acha?
Foi a única vez que passamos dentro do bairro proletário durante a noite. Normalmente passávamos numa estrada ao lado, mais em conta para chegarmos rápido ao cume do morro de saída. Passamos dentro do bairro, estávamos voltando de nossas andanças, decidimos não subir aquela encosta enjoada, e ficamos zanzando pelas ruas sem calçamento, procurando outra alternativa para deixarmos o local. Era de se esperar que alguém de obra me reconhecesse naquele lugar. A maioria dos operários morava ali.
Então, íamos passando numa rua poeirenta, um cara me chamou:
---- Hei, doutor!
Parei. Olhei. Era um pedreiro brincalhão que sempre trombava comigo em obras. Estava na porta de um barraco com um copo na mão, as luzes do casebre estavam iluminadas e parecia haver uma festa no lugar. Me aproximei do cara. Lhe apresentei Cida. Ele nos convidou a entrar. Entramos, atravessamos os pequenos cômodos do barraco e no terreiro havia um bom punhado de pessoas. Mulheres de vestidos baratos, algumas com panos enrolados na cabeça, homens bêbados, crianças fazendo algazarra.
Dito Boca-Torta, velho de guerra, tocava seu antigo cavaquinho. O cara era pintor antigo na cidade, mas ficara mais conhecido devido à perícia com o instrumento. Me fez um gesto com o cabeça ao me ver chegar. Havia outros operários meus conhecidos no terreiro e o dono da casa, o cara que me chamara, Nazário, trouxe copos, cerveja, ofereceu pinga e tira-gostos. Aceitamos. Ficamos ali.
A estudante feminista depressa se enturmou com suas colegas de infortúnio. De correr atrás. De onde eu estava, conversando com os operários, podia ouvir Cida falando com as mulheres. Que era preciso que todas elas reclamassem seus direitos. Não levassem desaforo para casa. E, caso não pudessem de todo estudar, que ao menos não ficassem completamente analfabetas, ignorantes. Que lessem sempre algum jornal, alguma revista, procurassem saber o que acontecia no país, no mundo. Que as mulheres apenas poderiam mudar a situação de dominação lutando elas mesmas pelos seus direitos. Que falassem, reclamassem até encher o saco! Aprendessem uma profissão! Procurassem ganhar seu próprio dinheiro! A situação das mulheres já melhorara muito, dizia a moça, mas ainda havia muita coisa a ser consertada. Era preciso se manter alerta. Cida ia falando e bebendo cerveja e pinga. Estranhei ao vê-la bebendo cachaça! Detestava! Adorava vodca. Mas lá estava ela! Estava enchendo o rabo! E as mulheres dos operários, todas de copos nas mãos, iam ouvindo a militante falar e iam concordando com ela:
---- Ieu sempre falo com minhas fia! Quem num quisé istudá pode percurá dá um jeito na vida! Arranjá um marido trabaiadô e criá uma famia!
---- Minha fia cansô de iscutá essas coisas, mas num pode vê homi de jeito ninhum que cai de costa e abre as perna! Tá lá in casa, fudida, ium monte de fio, na maior merda!
---- Cumadi, ieu sempre falo: trabáio desde criança! Num perciso de fedaputa de homi ninhum! Pra nada!
---- Pois é, cumadi, meu marido num me dá nada, mais eu faço o qui ieu quero! Saio de casa sem avisá, demoro a vortá, tem dias qui nem vorto e num adianta ele me perguntá onde que ieu tava quei ieu nem respondo!
---- A "sá" moça só fala coisa importante, qui interessa muito pra gente!
Deixei que Cida se adiantasse um pouco no caminho. Aproximadamente duzentos metros de morro íngreme. A moça ia muito torta. Trocava as pernas, cambaleava, tropeçava. E ia com aquelas imitações que surpreenderiam a Simone de Beauvoir ou a Betty Friedan:
---- Intão, cumadi, nóis decidiu qui o mió pra nossa famía era pô us minino no patronato. Si nóis num pusesse eles lá, cedo nóis ia tê probrema com marginal dende casa. .... ---- Mais, cumadi, oceis num sente sardade das criança?... ---- Nóis sente, cumadi, mais todu fim de semana elas pode vim visitá a gente, sabe, cumadi?... ---- Igualeu tava falano com o cumpadi....
Que feio! Cida ia desligada, aparentemente muito satisfeita com aquela palhaçada. Depois, parou. De falar e de andar. Colocou as mãos na cintura, dobrou ligeiramente o corpo para a frente, me esperou chegar perto dela e disse, ofegante:
---- Cum...cum...padi?
---- O que foi? Cansou de bobagens?
---- Num... tô aguentano... andá... mais... não, cumpadi!
---- Nós ainda tamos muito longe da universidade ou do meu quarto!
---- Intão, nóis... vai... vai... tê qui durmi no meio... do... mato, cumpadi!
---- Tá falando sério, cara?
---- Claro!
---- A madrugada tá meio fria, cumadi!
---- Nem tô... sintindo... cumpadi! Tô muito...torta, bicho! Tortinha!
Eu ja imaginava que Cida não ia conseguir chegar. Tinha mais de meio litro de pinga e um tonel de cerveja na barriga!
---- Vamos arrumar um lugar pra deitar então, cumadi!
Havia uma grande moita de cipós à borda da estrada. Pisei em cima daquilo, amassei à exaustão e a cama estava pronta!
Cida tinha se sentado à beira do mato. Disse-lhe:
---- Pode deitar, cumadi. Os aposentos estão no jeito!
---- Me ajuda a me levantar, Julinho?
Cida me estendeu as mãos, eu a puxei com força. Pesada!
Então, a moça se deitou de barriga para cima, eu lhe suspendi a sáia, lhe puxei a calcinha, passei um pouco as mãos naquelas coxas lisas, fortes, depois, me deitei por cima dela e fui empurrando bem devagar o peru. Cida estava inerte, os braços ao lomgo do corpo.
---- Cumadi?
---- Hum? - ela respondeu, a voz quase inaudível.
---- Mexe ao menos um pouquinho, querida!
---- Num tem jeito... cumpadi! Tô... tô... morta!
---- Tá gostoso, cumadi?
---- Áááiii!
Fiquei bombando a xoxota sequinha de Cida. Logo ela ficou molhada, escorregadia. Deliciosa!
---- Diga alguma coisa, cumadi! Fala se tá gostoso!
Cida ficou suspirando baixinho. Depois, eu a empurrei com toda a força contra o chão.
---- Ái... cumpadi! Ái! - ela gemeu, a voz quase inaudível.
Então, saí de cima de seu corpo, me deitei ao seu lado, e a moça adormeceu.
Pouco depois, fui pelo mesmo caminho.
Férias. O pessoal da universidade tinha sumido para casa. Fui atrás do Caxias, fui procurar um trampo. Fui andando e tentando imaginar o que dizer pro cara. Eu sabia o que ele me perguntaria:
---- O que você arrumou na universidade neste último semestre, Júlio César?
O que poderia eu responder pro cara? Que tinha sido aprovado em uma única disciplina - que nem era considerada matéria? Ou que ainda estava cursando matéria de calouro? Fui me aproximando da obra e pensando...
Era de manhã. Havia uma obra nova sendo iniciada logo ao lado da obra do Caxias. Parei para observar uns caras que tinham vindo procurar emprego temporário. Estavam sentados no passeio no outro lado da rua. Uma laje imensa ia ser enchida. Serviço pesado, mas mais lucrativo. Cobrava-se mais caro, tinha de ser feito rápido, atraía os caras que não gostavam de trabalhar com freqüência e que tinham disposição pra enfrentar uma barra daquelas pelo menos algumas vezes. Normalmente pessoas fortes e agressivas. Todos tremendamente debochados. Apareciam pinguços contumazes também. Esses geralmente eram descartados.
Lá estavam! Uns trinta peões. Faziam graça uns com os outros, riam em voz alta, se tocavam com as pontas dos dedos. Bastava tolerar algumas poucas horas de sofrimento e pronto! Já teriam defendido uma grana para a pinga, para um carteado, para uma trepada com uma putinha de primeira! Eles sempre falavam isso, sempre pensavam nisso. E o dia tava maneiro pra carregar concreto: bonito, ensolarado, céu limpo. Eu não tinha pressa de falar com o Caxias. Nem mesmo sabia se ele tinha alguma coisa, algum trampo pra mim. Me encostei a um poste e fiquei sacando os papos dos caras. Carregar concreto, por um dia que fosse, era mil vezes melhor do que tolerar obras todos os dias, todos concordavam. A grana era muito maior, a dureza era momentânea, e, sendo-se bom de serviço, se fazia o nome. Sempre que houvesse lages, eles seriam lembrados. O trabalho diário amolece a vontade, transforma os peões em morcegos, em chupa-sangue dos patrões! Apresentavam mil e uma razões pra enfrentar a lage.
O chefe da obra, o engenheiro, demorou a dar as caras no pedaço. E chegou apenas para dizer que não precisaria de peões ali. Ele tinha contratado uma betoneira. O concreto já vinha pronto, era só colocar o cano condutor - a bomba - ligar a máquina, e ela jogaria o concreto onde se quisesse. Questão de poucas horas. E a companhia concretadora tinha seus próprios funcionários.
Os enchedores de lages estavam perdendo espaço para as máquinas. Os caras já tinham visto este sistema algumas vezes, em alguns lugares, mas agora estava ficando por demais comum! Preocupante! E as firmas construtoras estavam revestindo as paredes externas com cerâmica, usando argamassa ensacada. Nem os serventes estavam tendo facilidade pra arrumar trampo! E as firmas estavam também colocando janelas de alumínio ao invés de janelas de ferro. E estavam usando vigas de aço ao invés de concreto. Paredes revestidas com cerâmica, janelas de alumínio! Logo, logo estaria também faltando serviço para pintores. Os caras permaneceram sentados durante algum tempo, depois se levantaram, saíram andando. Rostos sérios, não havia motivo para sorrisos. Era o progresso.
Entrei na obra do Caxias. Lá estava ele, no escritório. Nunca saía de cima daquelas plantas, daqueles cálculos. Caxias gostava de cálculos, de números! Nascera, ao meu contrário, para ser engenheiro.
---- E então, Júlio César?
---- Vim outra vez em busca de trabalho!
Caxias deu um sorriso pra me deixar à vontade. Disse:
---- Tá mesmo a fim de trabalhar, moço?
---- Pode ter certeza!
Caxias mexeu nuns papéis sobre a mesa. Perguntou:
---- Quando vamos ter as festas de sua formatura?
---- Hi, cara, vai demorar!
---- Mas a teremos, sem dúvida!?
---- Lógico!
---- Ótimo!
Foi um saco!
Eu não tinha feito pré-matrícula no semestre anterior. Tinha tentado fazer oito disciplinas - pelo segundo período consecutivo - e tinha sido reprovado em sete - pelo segundo período consecutivo! Por isso, meu currículo tinha vindo com todas as matérias do semestre anterior, menos uma delas, que só era oferecida no segundo período. Estava tendo problemas pra me matricular no princípio do ano. Queria acrescentar Entomologia Florestal, mas não sabia se havia modo. Minha orientadora tinha viajado, não estava no ginásio de esportes. Fui atrás do chefe do departamento de Engenharia Florestal. Também não o encontrei. E eu não podia perder tempo, pois tinha deixado pra fazer a matrícula na última hora do último dia. Todo semestre eu fazia a mesma coisa! Se não a fizesse naquele momento, perderia a vaga na universidade. Eu estava realmente preocupado!
---- Vá atrás do chefe do Registro Escolar. - alguém me disse.
Fui.
O cara era conhecido meu. Expliquei-lhe minha situação. Ele pegou meu currículo, ficou olhando de cabeça baixa durante alguns minutos.
---- Huuumm, huuumm! - fazia ele.
Pausa.
---- Tsk, tsk, tsk!
Pausa.
---- Tsk, tsk, tsk!
Depois me olhou de baixo para cima com os grandes olhos pretos cheios de ironia. Perguntou, com voz jocosa:
---- Estas são as únicas matérias que conseguiu fazer até hoje?
---- São.
---- E levou sete ferros no semestre passado?
---- Isso!
---- E no atrasado também?
---- Isso!
---- E ainda tá querendo oito disciplinas neste período?!
---- Tô querendo acabar o curso rápido. Uma das matérias que perdi apenas é oferecida no segundo período. Vou colocar outra no lugar.
---- Acabar rápido?! A impressão que se tem é que você nem tem vindo às aulas! Quase só reprovações!
O quê o cara tinha a ver com aquilo, porra?! A universidade não era dele!
---- Vou pegar firme a partir deste semestre.
O sujeito fez mais uma pausa. Depois, disse:
---- A universidade vai recomeçar o jubilamento, sabia?
---- Ah, é? Não sabia!
---- E seu rendimento acumulado parece não ter jeito de ser recuperado! É desligamento na certa!
---- Será que é mesmo?
---- E, mesmo que você se formasse, com este currículo ridículo não conseguiria arrumar emprego em lugar algum!
---- Será que não, mesmo?
Silêncio. Dei um suspiro profundo.
O cara ficou calado por um momento, depois, disse, apontando o formulário impresso com os conceitos:
---- Sabe esta matéria aqui?
Adiantei os olhos.
---- Qual?
---- Solos 2.
---- O que tem ela?
---- Você a perdeu no último período!
---- Perdi!
O cara deu mais uma olhada atenta no fomulário, olhou pra mim, franziu a testa, e falou:
---- E no penúltimo também!
---- Também!
---- E neste ela vai ser ministrada por um professor que está vindo dos Estados Unidos! O cara é ferrador!
---- E daí?
---- Daí que os alunos têm de saber mais do que ele!
---- Não se preocupe. Eu vou saber mais do que ele!
O chefe do Registro Escolar, então, arranjou um horário na grade de matérias, acrescentou Entomologia, assinou, fez - hum! -, e me passou aquilo.
O sujeito tinha a cara muito ruim.
Era um ato automático de princípio de semestre: primeiro a matrícula, depois - ir ao banco para fazer a reinscrição no Crédito Educativo! Senão, em caso de meu pouco dinheiro ganho nas férias acabar, como ia me arrumar? Entre outras coisas, eu preciso dar umas trepadas, beber uns goles! Então fui, me sentei numa poltrona enquanto esperava o atendente se desocupar, e fiquei ali.
Finalmente, me sentei na frente do moço, e ele procurou meus papéis e afirmou não tê-los encontrado, e logo começou com rodeios:
---- Você tem certeza de que já esteve inscrito no programa de crédito educativo?
---- Lógico!
---- Há quanto tempo?
---- Desde a época de sua implantação.
---- Mas eu não consigo achar seus papéis!
---- Eles devem estar por aí, em algum lugar.
---- Então, deixe-me dar mais uma procurada.
O cara se pôs a mexer num monte de páginas no micro, abriu arquivos, fechou arquivos, mexeu, mexeu, abriu gavetas, e disse nada ter encontrado. Fiquei sacando a cara magra do sujeito. O cabelo negro penteado num pequeno topete para trás. O nariz afilado, pontudo, fundo nos lados.
---- Engraçado, estes papéis deviam estar aqui!
Me acendeu uma luzinha! O banco era federal, a universidade era federal, logo, alguém da direção da instituição devia ter comunicado ao banco que minha situação escolar era muito ruim e que eu não ia me formar e que o banco nunca veria a cor de meu dinheiro!
---- Escute, me parece que o banco não tá querendo refazer minha inscrição, não é isso?
O cara de rato deu um pigarro, fuçou qualquer coisa sobre a mesa e disse, sem me olhar no rosto:
---- Sabe como é, eles sempre colocam algum empecilho!
---- Mas a gerência fica sabendo da situação dos inscritos?
---- O pessoal aqui fica sabendo de tudo!
---- Bisbilhotice?! Que feio!
O cara nada respondeu, eu me levantei e me despedi.
---- Até mais. Deixemos isso pra lá!
---- Não me leve a mal! É que eu nada posso fazer!
---- Tchau!
E, assim, fiquei sem meu Crédito Educativo.
Tinha tanto tempo que eu não via o Classe Média! O cara tava realmente levando a sério as decisões que tinha tomado, os conselhos do pai: estudar, subir na escala social, ter o procedimento correto. Certamente, toda noite antes dormir dava uma lida no bilhete com os lembretes que extraíra do livro de sociologia.
Então, eu estava sentado no D.C.E. e o cara se aproximou.
---- Bom dia, Júlio César!
---- Olá, Bastos!
Ficamos conversando durante algum tempo. Bastos estava alegre. Me disse que ficara muito amigo do sobrinho de um professor titular da universidade. E que às vezes saíam juntos à noite. Que o cara não bebia, não fumava, não se envolvia com mulheres fáceis. Gente boa! E que ia haver uma festa na casa do professor e o seu amigo o tinha convidado pra ir. Ele iria, lógico, e começaria a estabelecer laços sociais de alto nível – o networking. Seu curso estava já quase acabando e ele queria ter em quem se apoiar após se formar.
O cara disse estar impaciente pra chegar a hora da festa. Seu pai lhe tinha ensinado como proceder em sociedade, como pegar em copos com elegância, a comer de boca fechada, a não chupar os dentes, a rir com moderação, a fazer mesuras para as madames. A ouvir com atenção as conversas dos doutores, das pessoas de nível social superior, a não desmentir nenhuma afirmação dos sujeitos, mesmo que estapafúrdias. Era a primeira oportunidade que tinha de pôr estes ensinamentos em prática em sociedade!
O Classe Média estava limpíssimo. De óculos novos, sapatos brilhando, cabelos muito bem penteados. Desejei-lhe felicidades na empreitada. Que se desse bem com as pessoas da sociedade porque delas é a chave do reino dos céus! São elas quem têm as chaves do cofre do dinheiro do contribuinte.
O cara me agradeceu e desapareceu.
Uma e meia da tarde. Passo a mão em meu caderno e me dirijo à universidade. Aula de Microbiologia. Aula prática. Estou morto de sono, mas vou mesmo assim. Estou mal na matéria. Paro nas quatro pilastras e fico esperando uma bunda gostosa para seguir até ao campus. Neste horário, bundas boas não são problema. Centenas de alunas sobem a reta a pé. Algumas ficam paradas logo depois das pilastras, no princípio da avenida, esperando por alguma possível carona. Lá estão algumas. Todas bonitas. Fico olhando para as bundinhas delas e logo passa um carro e pára e as carrega. Estas eu perdi.
Mas dou sorte: logo aparece uma pra lá de gostosa e passa direto pelo ponto de carona: vai a pé! É alta, morena, de cabelos caidos nos ombros. Os cabelos estão molhados. Saiu do chuveiro agorinha, certamente. Os peitos pequenos. Usa sutião. Calça esporte branca, muito apertada. Calcinha miudinha. Parece muito séria.
Dou-lhe uns dez metros de dianteira e depois começo também a andar. A moça pisa com passos curtos, rápidos, pisa com os pés ligeiramente espalhados, o que lhe dá ainda mais charme. Tem a cintura fina, trabalhada no torno. Bundinha indescritível! Redondinha, firme, perfeita. Vou lhe seguindo a bundinha, lhe sacando a calcinha, tentando adivinhar a cor de sua calcinha, e tentando adivinhar a forma de sua xoxota: será que tem os lábios lisos ou enrugados? será que é cabeluda? ou talvez com pouco pelo? ou talvez sem pelos? será que tem o testeiro saliente? ou magro? ou mediano? Como será ela nua?
---- Será que a moça é boa de cama? - eu me pergunto.
--- É lógico! - eu mesmo me respondo - Deus é perfeito em suas obras!
Então, vou seguindo a bundinha linda da moça e ela vai rebolando e entra num dos laboratórios do prédio de Biologia e eu vou atrás e entro no laboratório de Microbiologia.
Foi o Bunda Branca quem me deu a notícia. Era depois do almoço, eu estava sentado no D.C.E., o cara chegou, entrou no barzinho, e pouco depois, saiu com uma lata de cerveja na mão.
---- Quer tomar uma cerveja, bicho?
---- Obrigado, cara! Acabei da almoçar agorinha.
Bunda deu uma longa golada na lata. Disse:
---- E aquela guria que saía contigo, bicho?
---- Cida. O quem tem ela?
---- Você dançou nela!
---- Dancei?! O que você quer dizer?!
---- A gente ia pras férias, ela ia no ônibus, muito amuada. O Antônio Carlos se sentou na mesma poltrona que ela. O cara levantou o astral da menina. Foram no maior papo.
---- Antônio Carlos tem carro. Por que iria de ônibus? O cara mora muito longe daqui!
---- Acontece que o pai dele não tem mais onde ser pão-duro. Não é sempre que ele tem grana pra gasolina. Então, vez ou outra ele viaja de ônibus ou mesmo de carona.
---- E daí Cida ter ido junto com ele?
---- Daí que ela passou todas as férias na casa dele. Ele é podre de rico! Riquíssimo! Mora na mesma cidade que eu. Mora numa senhora mansão!
---- Ela não fica com gente esse tipo de gente que gosta de dominar as pessoas! Não gosta de burgueses. Estava apenas passeando.
---- Passeando?! - Bunda fez um gesto de escárnio e deu uma gargalhada.
---- Eu conheço a moça, cara! Cida é militante feminista. Já leu Simone de Beauvoir, Betty Friedan. Até aquelas militantes mais antigas, dos primórdios do movimento pela emancipação das mulheres! A Lucy Stone, que era do século dezoito! Principalmente a Flora Tristan, que disse que a obra de libertação das mulheres e dos trabalhadores deve ser realizada pelos próprios interessados. Ela estuda baseada nestes preceitos! Ela é maluca pra fazer as cabeças das mulheres que se deixam levar e dos trabalhadores! Nós costumávamos ir ao maior bairro proletário da cidade, e ela tava sempre tentando motivar as donas, as filhas, os filhos dos operários a não serem submissos. Que ganhassem seu próprio dinheiro. Aprendessem uma profissão. Fossem tão independentes quanto possível! Que estudassem! Ela vai implantar as idéias de justiça social, de participação democrática, nas terras do pai dela após se formar, logo que começar a movimentar o terreno!
---- Ha! Ha! - fez Bunda. - Quais terras? - perguntou.
---- O pai da moça tem alguns alqueires de terra. Ela vai se formar, vai fazer um empréstimo bancário, vai movimentar as terras, e vai ser dona de seu próprio negócio, mandar em seu próprio nariz.
Bunda acabou de tomar a cerveja, atirou longe a lata vazia, passou a manga da camisa nos lábios e disse:
---- Ela ficou dois meses na fazenda do Antônio Carlos, cara! Ela dormia com ele! Às vezes eles saíam juntos, passeando de carro. Um Mercedes cinza, conversível, reluzente. Costumavam andar de mãos dadas ou abraçados, também! Ficavam pelos bares nas tardes e madrugadas. Houve um churrasco na fazenda, eu fui convidado, e ela estava lá - e muito à vontade! Ficou o tempo todo na beira da piscina - e com uma tanguinha desse tamaninho! - Bunda fez um gesto de pequenez, aproximando as pontas dos dedos indicador e polegar da mão direita - e sem a parte de cima da tanga!
Bunda me aborreceu!
Fiquei em silêncio e Bunda perguntou:
---- Você comia aquilo, bicho? Boa demais! Moreninha! Engraçadinha! Bonitinha! Com o cabelinho molhado jogado na testa então... E tem jeito de ser muito boa de xoxota!
Talvez notando meu desconforto, Bunda se levantou, entrou outra vez no barzinho e saiu com duas latas de cerveja. Estendeu- me uma delas. Acabei ficando motivado a matar uma lata. Ficamos bebendo e ele ia me falando: que conhecia as mulheres. Elas podiam gostar demais de uma cara pobre - até que aparecesse alguém que tivesse dinheiro! Ou então elas se casavam com o cara pra não ficar pra titia e depois o chifre comia desembolado.
E o Bunda me disse uma coisa assustadora!
---- Eu tenho a impressão que ela já tá morando com ele, bicho! Tá morando com ele num apartamento lá na praça!
Foi um colega de quarto do Bastos que me contou o que tinha acontecido com o cara na festa na casa do doutor. Ele tinha realmente ido com o sobrinho do bacana. A festa era na garagem da mansão. O pessoal da cidade tinha a mania de fazer as coisas nas garagens! Estavam comemorando a indicação do doutor pra chefe de um dos departamentos da universidade e o aniversário de um dos filhos pequenos do sujeito. Então, o Classe Média chegou à porta da garagem com o sobrinho do pessoal, a mulher do cara tava fritando bolinhos num canto da garagem, o moço o levou até à dona e o apresentou. A garagem estava lotada de pessoas de nível social superior, homens e mulheres. Havia também algumas crianças de nível social superior. Ganharam um pratinho de salgadinhos, se sentaram no chão e ficaram comendo aquilo. Não havia cadeira pra todo mundo. Após algum tempo, se levantaram do chão, subiram uma escada lateral, o sobrinho do cara o levou pra dentro da casa, pra que ele tivesse uma idéia de como é uma mansão das pessoas de classe social superior. Se sentaram na sala, enorme, de piso mais do que brilhando, os móveis supimpas, e ficaram ali. Ficaram conversando. Depois, desceram a escada. Isto, o próprio Classe Média tinha contado pro colega de quarto dele: desceram a escada, e pararam à porta da garagem. Bastos queria tomar um copo de cerveja apenas para que o pessoal de nível social superior, ou seja, da sociedade, visse que ele sabia pegar no copo com classe, sabia sorver o líquido sem fazer barulho, enfim, que ele tinha bons modos - sabia proceder em sociedade. Nem gostava de bebidas alcoólicas. Então, o Bastos falou pro sobrinho do cara:
---- Vamos tomar uma cerveja para lavarmos a boca?
O doutor estava mexendo nuns troços sobre uma mesa, de costas para os dois, e falou alto, sem que ninguém lhe dirigisse a ele:
---- A cerveja acabou!
Ficaram em silêncio. O sobrinho do bacana disse:
---- Vem comigo, bicho! Vamos voltar lá pro primeiro andar!
Tornaram a subir as escadas, voltaram para o primeiro andar, entraram na mansão, o cara pegou um litro de conhaque, pegou um copo, pôs uma dose e estendeu aquilo pro Classe Média, dizendo:
---- Pra você lavar a boca, meu amigo! Leva pra tomar no alojamento. A cerveja acabou!
Então, o Bastos falou:
---- Vamos embora? Vamos dar uma volta na rua?
---- Vamos embora, bicho!
Tornaram a descer a escada. Tornaram a parar à porta da garagem. O que viram?! O doutor com uma garrafa de cerveja na mão direita e outra na mão esquerda! E o cara tinha dito que a cerva tinha acabado!
Classe Média ficou extremamente sem graça! Era primeira vez que ousava pôr os pés na casa de um figurão, tivera o cuidado de proceder direitinho e levara ferro! O cara deu um jeito de sair de fininho, pegou a rua e desapareceu! Jogou o copo com a birita fora. Os colegas de alojamento desconfiaram que tinha acontecido alguma coisa. Ele fizera tanta propaganda da festa e voltara muito jururu! Poucos dias depois, ele contou. Pediu que ninguém falasse fora do quarto. Sua moral ia cair. O pessoal morreu de rir! Este negócio de classe alta, de sociedade, é um troço muito sério!
Princípio de período letivo.
Começo de tarde.
Havia sol na tarde. Sol fraco, de final do dia. A universidade estava alegre, festiva. Bem-ti-vis saltitavam sobre os gramados e cantavam nos cimos das palmeiras. Pardais faziam a algazarra de sempre entre as folhas das magnólias. Cães se esticavam indolentes nas portas dos prédios, sobre os gramados, como se fossem os donos do pedaço. O dia ia embora.
Estudantes retardatários passavam com seus catálogos gerais nas mãos. Iam renovar as matrículas, regularizar suas situações. E calouros aos montes. Eu estava sentado no D.C.E., sob o pé de champagnat.
Bunda se aproximou, com aquele sorriso manjado, os dentes todos à mostra:
---- E aí, cara, tudo bem?
---- Tudo.
---- As férias foram legais?
---- Muito!
---- Vamos tomar uma cerveja?
---- Eu não. Agora realmente não tô a fim.
Bunda parou de sorrir, ficou por um momento me encarando. Provavelmente percebeu meu dilema. Disse:
---- Vim apenas pegar meus papéis, bicho! Vou partir pra uma universidade particular. Aqui tá muito pesado!
---- Eu também tô achando.
---- Não quer mesmo tomar uma cerveja?
---- Não, agora não.
---- Então, depois a gente se vê.
---- Tá legal.
Se foi.
Fiquei pensando: o que eu ia ficar fazendo na universidade, porra? Eu sabia que não teria saco pra tolerar aquelas merdas todas, aqueles carrinhos idiotas de cinemática, as equações, da física, as mais de mil fórmulas das químicas, aqueles odores horríveis dos laboratórios, e mais numeros de cálculos e... e o quê? E mais os professores bobos, de nariz empinado, de peito estufado, e... mais inda o quê? E ainda havia todas aquelas disciplinas pra cursar! Eu não ia conseguir fazer tudo aquilo! Na verdade, eu não queria nem ver aquelas merdas na minha frente.
Eu tava perdendo minha vaga na universidade, não ia renovar minha matrícula, mas sabia que não havia outro modo. Continuei debaixo do pé de champagnat.
Classe Média passou pela reta. Ia sério, de nariz empinado, os óculos na ponta do nariz, a roupa muito bem passada, muito limpa, o cabelo bem cortado, sapatos brilhando. Sem dúvida, estava terminando o curso. E talvez fazendo poucas disciplinas. Levara a sério os conselhos tirados do livro de Sociologia: mantivera a honradez, não jogara, evitara as mulheres fáceis e, provavelmente, mesmo as difíceis, o álcool, o fumo, e fora sempre pontual em seus compromissos. Depois, ia correr atrás do mestrado. E depois, do doutorado. Logo a seguir, emprego! Talvez alguma empresa corresse atrás dele. Ou uma universidade! Assim o cara desejava. E, a seguir, ia só subir na vida! A classe média só pensa nisso! Arrumar bom emprego, juntar dinheiro, comprar carrão, casar com mulher boa de bunda, de preferência rica, alcançar posição social. Comprar iate, fazenda, se possível até avião! E ia poder entrar na casa das pessoas da sociedade pra tomar o que quisesse - cerveja, pinga, café... um monte de coisas!
Eu tinha a grana da matrícula no bolso. Continuei sentado no D.C.E., sob o grande pé de champagnat, e o dia foi morrendo, a noite vinha descendo, e alguns caras se amontoaram nos pequenos bancos de concreto pra tocar violão e cantar e beber cerveja.
Não renovei minha matrícula.
Depois, foi a vez do futuro doutor-sapateiro se aproximar de mim. Foi ao barzinho, comprou um refrigerante, sentou-se ao meu lado:
---- E aí, menino? Renovou sua matrícula?
---- Não. Decidi não mexer com este curso mais não!
---- Sempre achei mesmo que você não tinha queda pra essas coisas!
---- É mesmo?!
O cara deu uma risadinha. Estava satisfeito. Tinha voado na grade de matérias. Seguira o currículo e ainda fora mais além, adiantando o curso. Fizera sapatos e um curso superior: estava quase completando a Engenharia Florestal!
---- Você não ia se formar mesmo não, cara! Você é vagabundo demais! Muito vagabundo!
Não respondi. O cara deu mais uma golada no refrigerante e disse:
---- Em toda porta de boteco em que eu passo, ou em qualquer bar em que eu entro, você está!
Fiquei em silêncio. O sapateiro foi chupando o refrigerante até que acabasse. Perguntou:
---- Você já fez bastante bagunça em sua vida, não já, Júlio?
---- Fiz e continuo fazendo! Ainda não tô morto, cara!
---- Já trepou muito?
---- Lógico!
---- E bebeu alguma pinga?
---- Lógico!
---- E pitou algum baseado?
---- Também!
---- Muda para o curso de Letras. Você trabalha no meio das pessoas de nível social inferior. Essas pessoas são agredidas, espoliadas continuamente! A literatura é baseada em confrontos, em conflitos!
---- E daí?
---- Daí que depois você escreve livros! Basta que você estude muita teoria literária. E aprenda as manhas dos escritores: observar as pessoas, a natureza, o mundo como um todo. Você pode ganhar muita grana com isso, cara! Você já viveu muito! Primeiro viver - depois escrever! Acho que histórias você tem de sobra!
Fiquei maluco para aquele sujeito desaparecer e parar de me encher o saco! Disse, com desinteresse:
---- Ah, é? Então, vou pensar nisso!
---- Já leu alguma coisa de literatura americana, Júlio César? Estudou alguma coisa disso?
---- Às vezes leio algum livro.
---- Vários dos grandes escritores americanos eram operários. Sabia?
---- Não!
---- William Faulkner era pintor de paredes!
---- É mesmo?! Não sabia!
---- Pois era! Colega seu! E ele chegou a ganhar o Prêmio Nobel, menino! E revolucionou a literatura mundial com seus escritos pouco ortodoxos! Incrível, não?
---- É mesmo!
O sapateiro era mesmo foda!
---- E John Steinbeck era pedreiro! Ele também ganhou o Prêmio Nobel! Falando dos deserdados pelo avanço da tecnologia na agricultura. Na desumanização da sociedade!
---- Impressionante!
---- E Sinclar Lewis tinha um monte de profissões baixas! E escrevia como um Deus!
---- Nossa!
---- E Mark Twain trabalhava num barco que subia e descia o Mississip. Antes, foi pintor autônomo - outro colega seu! Foi marinheiro - seu sonho desde criança - e, depois, comandante! E ficou famosíssimo como escritor!
Dei um suspiro profundo. O sapateiro estava descarregando a alegria dele toda em cima da minha tristeza!
---- E Jack London?! Passou fome, foi pirata de ostras, foi bamburrador de ouro, operário de fábrica! Depois, começou a escrever - e aos quarenta anos estava podre de rico! E ficou famoso para sempre!
Eu estava apavorado com aquele cara. Se ele se demorasse muito, falaria os nomes de todos os escritores americanos e meu saco ia estourar!
Mas ele parou em Jack London. Se levantou, deu uma espreguiçada e disse:
---- Pense no que estou lhe dizendo. Você merece se dar bem! É um bom menino!
---- Pode deixar!
O cara então sumiu. Foi embora. Provavelmente foi fazer sapatos.
Eu também não me demorei na universidade. Levantei-medo banco. Pus o pé na reta.
Desci pra cidade.
Altivo se levantou como que para ir embora. Em absoluto silêncio. Demorou a abrir a boca.
---- De modo que, depois do SENAR, nada feito. Nada mais apareceu. Fiquei definitivamente desempregado!
O engenheiro ficou olhando com raiva pro calçadão, segurando a pasta preta onde carregava o catálogo com as amostras de bebidas, e depois, disse:
---- Mas não estou frustrado, não, moço! Quando trabalhei no SENAR, deixei marcas de minha competência. Todos os meus alunos me adoravam. Me chamavam de professor!
Ficamos em silêncio e o professor fez que ia embora, deu uns poucos passos para a frente, deu os mesmos poucos passos para traz, e divagou:
---- Mas eu não sou o único que se formou com dificuldades e se fodeu, não, cara! Eu conheço vários ex-alunos que estão comendo capim em firmas pequenas, vendendo insumos agrícolas, máquinas agrícolas, fertilizantes, porque não se empregaram. Alguns viraram donos de botecos, de lojas de produtos baratos, ou mesmo se tornaram funcionários públicos de baixo escalão, porque não tiveram como devolver ao povo o dinheiro que ele investe na aquisição de conhecimento dos estudantes nas universidades.
Altivo ia falando e apertando a alça da pasta com a mão direita, e eu notava que ele estava muito puto com aquele catálogo de produtos baratos na mão. Ele:
---- Eu sei de um ex-aluno que se tornou dono de motel em beira de estrada! Se formou pra mexer com putas, com caras bêbados e drogados, porque não é parente de ninguém, na época da ditadura militar nenhum parente seu fez a cama, puxou o saco dos milicos, preparou o terreno pra família se arrumar! Agora, ele tá lá, tolerando ouvir os gemidos dos caras gozando a noite inteira em seus ouvidos. E a mulher morrendo de ciúme, com medo que alguma metedeira ponha as mãos em seu doutor.
Altivo deu outra vez uns poucos passos pra frente, parou, deu os mesmos poucos passos pra traz, e parou. Disse:
---- Mas, em compensção, eu conheço inúmeros filhos de papai, parentes de doutores, de professores, que estudaram nas coxas, fizeram as matérias tocadas, na certeza de que se empregariam logo após a formatura e, de fato, foram acabando de pegar os canudos e entrando em empregos!
---- Em todo caso, eu ainda tive a felicidade de terminar um curso superior. Tive esta glória, esta coragem. Pior é o povo, que nem sabe ler direito. Nem tem oportunidade de aprender direito.
..... reapareceu à porta e gritou, com raiva:
---- O POVO TÁ FODIDO! FODIDO! ELE NÃO TEM COMO DEIXAR DE PAGAR OS IMPOSTOS!
Enfim, desapareceu.
Continuei bebendo e pensando: o Altivo tava fodido mas ao menos tinha conseguido uma esposa. E provavelmente bonita, porque ele ERA um engenheiro-agrônomo, porra! e o cara chegava em casa, tomava um banho pra tirar o cheiro de pinga, jantava e ia pra cama com a esposa. Então, ele abria as apostilas com as disciplinas que tinha cursado na agronomia (ele devia ter guardado as apostilas, porque tinha sido um aluno diligente) e ia falando com a esposa, contando pra ela sobre as experiências genéticas de Mendel, o ciclo de Krebs da Bioquímica, aquelas merdas todas de outras disciplinas, e ela deitava a cabeça no ombro do engenheiro-vendedor de pinga e dizia:
---- Oh, que ótimo, que marido inteligente eu arrumei!
E, mais tarde, antes de dormir, eles trepavam.
De manhã, no outro dia, o engenheiro passava a mão em sua pasta, dava um beijinho na esposa, e ia vender mais pinga e bebidas ordinárias!
---- HA, HA!
Emocionante!
Fiquei bebendo até não sei que horas. Até acabar o dinheiro da matrícula. Era alta noite já quando saí dali. Estava torto! Tortíssimo!
Estava puto! Triste! Cheguei ao meu quarto de madrugada, me deitei, acordei de manhã na maior ressaca, fui a um boteco, bebi outra vez, à tarde acordei de ressaca, fui ao boteco, bebi outra vez, voltei pro meu quarto, me deitei, no outro dia acordei de ressaca, fui ao boteco e bebi outra vez e...
Fiquei muitos dias indo ao boteco e bebendo e dormindo e acordando de ressaca e indo ao boteco e bebendo e dormindo e acordando de ressaca e...
E, assim, me despedi do curso de Engenharia Florestal.
De modo que foi isso: eu não tinha conseguido!
O pessoal da obra foi complacente comigo. Eu costumava ir à construção nos princípios de semestre para fazer graça com os caras e daquela vez cheguei sem cadernos, sem livros, de cara amarrada. Provavelmente todos já estivessem sabendo que eu estava fodido na universidade. Cheguei, entrei pelo portão, parei por algum tempo, alguns dos caras me olharam em silêncio, e me dirigi para o escritório. Lá estava o Caxias, sentado atrás de uma escrivaninha.
---- Deu sorte, Júlio César!
---- Por quê ?
---- Nós íamos mesmo colocar uma placa pedindo pintores. Há muito serviço, falta mão-de-obra na cidade. Você chegou em boa hora!
---- E por que você sabe que vim em busca de serviço? Caxias mexia nuns papéis e assim ficou. Lógico que o cara sabia! Fiquei olhando pra cara do cara. Os óculos de fundo de garrafa. O rosto sério, inchado. O cabelo ralo, com um pequeno topete caído na testa.
Ficamos em silêncio e ele disse:
---- Venha comigo. Vou lhe mostrar o serviço.
Fui com ele. Subimos pelo guincho.
Havia uns caras lixando as paredes pra passar o selador que fazia o fundo para a pintura em alguns dos andares.
Entramos em um apartamento vazio, com as paredes no ponto de lixa e pintura. O Caxias me tratava com todo o cuidado.
---- Acha que vai ter coragem de enfrentar este serviço, Júlio César? Lixação de parede é muito desagradável!
---- Pode deixar comigo. Eu vou.
---- Use uma lixa mais grossa. Número oitenta. As paredes ficaram bastante ásperas. Depois você arremata com uma mais fina. Facilita para a massa corrida.
---- Tudo bem.
Dobrei a folha de lixa em quatro. Comecei a lixação. O Caxias se colocou de lado e ficou me observando por algum tempo. Depois, desapareceu.
O bispo da igreja do Arlindo tinha sido empregado de uma companhia telefônica. Não sei se era escriturário ou se trabalhava em cima de escadas na rua. Ou se trampava nas galerias subterrâneas. Era empregado de uma companhia telefônica. Mal relacionado socialmente, lógico, porque a "sociedade" não ia se relacionar socialmente bem com um reles empregado de uma companhia telefônica. E o cara possivelmente não era parente de nenhum membro do Lions nem do Rotary nem de nenhum reitor nem de pró-reitor nem de professor universitário nem de mulher de professor e nem de chefes de departamento e nem de políticos nem de qualquer outro tipo de pessoas importantes! Então, como estava na pior e precisava ganhar dinheiro, resolvera se ordenar bispo por conta própria. Deu uma lida na bíblia e começou a pregar a palavra de Deus lá do jeito dele. E ensinara as marretas para um monte de "pastores". Muita gente acreditou na conversa do cara. E, após colocar milhares de pessoas falando aquelas palavras de ordem, mudara para o exterior. Tinha comprado mansões, uma rede de televisão, um banco, e inúmeros imóveis. E espalhara templos por todo o país. E estava estendendo os tentáculos no exterior. Encanara a perna. Os filhos do cara também tinham ficado numa boa. A mulher também, lógico! Os pastores do bispo também ganhavam uma grana maneira, sem dúvida! Muita gente levava dinheiro para eles, quase todos os dias, porra! Depois, provavelmente, eles dividiam a grana com o bispo. No exterior, o bispo andava de lancha. Frequentava ótimos restaurantes. Rodava em carrões. Morava em um super-condomínio fechado, com dezenas de seguranças! Possivelmente trepava com boas mulheres. E começara a ser bem aceito socialmente, lógico!
Era manhã, a hora em que Cida entrou na obra. Chegou até ao apartamento onde eu trabalhava. Eu estava em cima da escada, tinha a desempenadeira de aço em uma das mãos e a espátula na outra. Estava catando uns buracos no teto. Ao me abaixar para começar a descida, dei com os olhos da moça em meu rosto. Usava uma sáia novinha, cor-de-rosa, transparente. Dava para se ver a calcinha. Não tinha mais aquela ridícula fitinha ensebada no tornozelo. O cabelo, ainda encaracolado, mas dava para se ver que tinha passado por tratamento de luz no cabeleireiro. Dois enormes brincos dourados pendiam das orelhas morenas. Ficamos nos olhando por algum tempo.
Interrompi meu movimeto.
Permaneci em cima da escada.
---- Você desapareceu, Júlio César!
---- Tô por aí mesmo!
---- Tá tudo bem com você, Júlio César? - perguntou.
---- Tá tudo bem.
Cida correu os olhos pelas minhas roupas sujas de pó, de tinta.
---- Vim lhe trazer um convite de minha formatura.
Fiquei em silêncio olhando pela janela.
---- Gostaria muito de te ver no ginásio. Vai ser uma festa muito bonita.
Olhei para ela.
---- Há um convite para o baile também.
Para o baile!? Por um momento pensei que a moça estivesse debochando de mim.
Continuei olhando para ela.
---- Posso esperar você?
---- Vou fazer força.
Cida ficou me olhando. Perguntei:
---- Como descobriu que eu tava trabalhando aqui?
---- O Antônio Carlos já o viu entrando várias vezes neste prédio. Ele tá morando logo aqui na frente.
Eu sabia que ela tava morando com ele!
Cida correu os olhos pelas paredes do cômodo, pelas minhas roupas e disse:
---- Júlio, eu fiz sua inscrição para o curso de Letras. Basta que você faça o vestibular.
Fiquei calado. Fiquei sacando o corpo de Cida. Ela nunca fora de se jogar fora, mas depois que começou a sair com o Bobão, ficara muito melhor. Mais esbelta, mais refinada, mais distinta, mais o quê? Mais tudo de bom! Até os peitinhos maravilhosos pareciam mais empinadinhos. Gostosinha!
---- Você viu o que que a polícia fez com os operários na favela outro dia, Júlio? Meteram o pau nos caras, mataram um deles. Se você estivesse lá, e com um diploma de curso superior, provavelmente eles não mexeriam com você! O diploma faz muita diferença!
Fiz um gesto de assentimento com a cabeça, mas não disse nenhuma palavra.
---- Cadê a chave do meu quarto? - perguntei.
---- Oh, me esqueci dela! - Cida exclamou, pondo a mão direita na testa - Depois a trago pra você. Ou então a enfio debaixo da porta de seu quarto mais logo.
---- Certo.
Fiquei olhando o corpo de Cida e nem acreditando que eu já tinha me deitado em cima daquelas carnes. Enfiado o peru naquela bundinha. Lambido aquela beleza de xoxota. Rangado inúmeras vezes aquela pererequinha. Mordido aqueles peitinhos. Passado a língua naquelas curvas todas. Mas de fato eu já tinha feito tudo isso!
---- Vou embora. Vou descer.
---- Quer que eu a acompanhe até lá embaixo?
---- Pode deixar. Não é preciso.
Cida atravessou o cômodo, deu uma olhada na rua lá embaixo, pela janela, voltou para a porta, deu mais uma olhada em meu rosto e disse:
---- Tchau, Júlio!
Fiquei observando Cida se afastar.
---- Tchau - respondi baixinho.
Esperei Cida sair do prédio, depois, desci da escada, me encostei ao batente da janela e fiquei vendo as pessoas andando na rua, lá em baixo.
O sol batia bonito nas fachadas das casas, nas folhas das árvores, nas pedras do calçamento, mas eu não conseguia enxergar nada de beleza naquilo.
Fiquei olhando a rua, os carros, as pessoas, lá embaixo...
Lá embaixo...
A reta se encheu novamente de carros. De gente. De alegria. De festas. Mais uma formatura. Era para ser também a minha. Cida ia pegar seu canudo. Antônio Carlos - o Bobão - ia pegar seu canudo. Válber, o lambedor de xoxotas de putas, ia pegar seu canudo. Até Zezete, a maluca, já tinha pegado o seu e desaparecido! Centenas de caras iam pegar seus canudos. Doutores!
Fiquei bastante tempo sentado na grama. Ressaca!
Quando os carros pararam de passar para o ginásio, e as pessoas rarearam na reta, me levantei. Gritei:
---- PORRA!
Desci para a rua.
Fiquei zanzando pela noite.
A noite... Os bares... Os botecos...
Em um deles, um bêbado dizia, a voz anasalada, fina, apertando a garganta com as pontas dos dedos:
---- Eu perdi, sim? Desculpe, sim? Eu sei que eu perdi!
Depois, repetia, vagarosamente, escandindo as palavras:
---- Eu... sei... que... eu... perdiiiii...
O que será que ele tinha perdido?
Será que eu também tinha perdido alguma coisa?
Fiquei bebendo.
Havia muita algazarra dentro do bar, mas eu estava completamente absorto.
A mulher tinha me tocado o joelho, agachada à minha frente, mas eu nem tinha me apercebido disso. Ela disse:
---- Hei, cara! Tá com algum problema? Tem muito tempo que você tá olhando pra aquele ponto ali sem mover os olhos ou a cabeça!
A moça tinha segurado meu joelho, e o balançou. Olhei pra ela. Vi que também estava torta. Era branca, magra, os cabelos castanhos cacheados caídos na testa. Lábios sem pintura. Saia curta.
Ela insistiu:
---- Tá com algum problema?
Não respondi. Apenas olhei pro seu lado e virei lentamente o rosto.
---- Não quer minha companhia? Eu não quero terminar minha noite sozinha, bicho!
Fiquei olhando pra ela.
Ela pegou meu queixo, puxou meu rosto pro seu lado e disse:
---- Eu moro sozinha. Vamos pro meu quarto, bicho. Eu tenho uma geladeira cheia de bebidas. E eu enrolo um baseado massa pra nós, cara! Se você preferir uma carreirinha...
A maluquinha!
---- E a gente pode dar a trepada mais gostosa! A gente pode trepar a noite inteira, bicho!
A fisionomia da moça era suave. Traços finos, perfeitos. Mas apenas respondi:
---- Hoje não, por favor!
---- Por quê?
Fiz um gesto de impaciência:
---- Eu quero ficar sozinho! Eu preciso ficar sozinho! Por favor!
A moça ainda demorou algum tempo antes de se levantar e se ir. Antes, me encarou bem dentro dos olhos durante alguns minutos. Depois, desapareceu cambaleando.
Minha cabeça zunia quando acordei. Ouvia passos de pessoas lá fora. Passos apressados. Conversas à meia voz. Hesitei antes de abrir os olhos. Finalmente, abri. Pelas frestas da porta, entrava a luz da tarde. O quarto na penumbra.
---- Olá, Júlio?
Cida! Havia entrado no quarto enquanto eu dormia! Estava sentada num canto, os cabelos bonitos caindo ao lado do rosto, a saia florida levantada até os joelhos. Os dentes branquíssimos, a pele morena. Linda! E as coxas! E os enormes brincos de argola!
---- Tá de ressaca outra vez?
Não respondi. Fiquei olhando para a cara bonita de Cida.
---- Tô indo embora. Vim trazer sua chave.
---- E o churrasco de formatura? - perguntei, com esforço.
---- Não vou. É muita bagunça.
Cida ficou me encarando fixamente, em silêncio. Eu fiquei olhando pra ela. Eu sabia o que ela estava pensando! Estava se lembrando de tudo que tínhamos feito durante o tempo que ficáramos juntos: as trepadas, as bebedeiras, os amassos, as andanças. O vento soprando e a lua... as estrelas... a luz do sol... o cheiro de mato... os grilos cricrilando... os pássaros... os crepúsculos... as estradas poeirentas... às vezes o barro... as conversas com as senhoras dos trabalhadores.
Tudo!
Agora ela tinha de ir embora. Ia se casar com um ricaço, a mocinha. Ia andar de Mercedes, a feminista. Morar em mansão. Ter um monte de empregados. De vez em quando, molhar a bunda na piscina. Herdeira das idéias da Simone de Beauvoir, da Betty Friedan! Não ia engordar nem ficar com os peitos caídos. Não ia pôr as mãos na massa pra fazer bolos nem ficar contando os tostões pra tratar da família nem precisaria aprender trabalho de agulha nem lavar roupas e nem o que mais constitui prenda do sexo feminino!
E ia deixar para os filhos alguma coisa mais do que um monte de tijolos vermelhos na frente de um barraco e uma charrete velha com os arreios apodrecidos.
Mas Cida não estava alegre.
Fiquei lambendo o rosto de Cida com os olhos.
Cida deu um suspiro profundo. Disse:
---- Júlio, tira minha calcinha?
Eu me levantei um pouco da cama, Cida se aproximou e eu lhe puxei a calcinha, lhe puxei a saia pela cabeça. Sem sutiã!
A moça se deitou.
Me sentei ao lado de Cida e fiquei passeando os olhos pelo seu corpo. Era o mesmo corpo moreno que eu já havia lambido, apertado, chupado, amassado tantas vezes. Só que parecia muito mais gostoso.
Cida me pegou os ombros, me puxou contra seu corpo e eu me deitei sobre ela. Cida beijou minha boca babenta com força e nós ficamos ali. Me passou os dois braços em volta do pescoço, as duas pernas em volta do tronco, e nós ficamos trepando bem devagar, gostoso, gostoso. E eu ia lambendo as bochechas de Cida e Cida ia gemendo e falando umas bobagens nos meus ouvidos, como uma puta de Zona, e me enfiando a língua dentro da boca e me passando bem devagar as mãos pelo corpo, pelas costas, pelas pernas, pela bunda, e peneirando, eu ia apertando os peitinhos de Cida e penetrando a xoxota macia, apertada, de Cida, e buscando os cantinhos, e Cida gemendo, dizendo:
---- Queria que isto não terminasse nunca, Júlio! Nunca!
Depois a xoxota de Cida ficou completamente molhada, mas nós não paramos e eu lhe segurei as nádegas para encaixar nela com mais força o peru e ela começou a gemer alto outra vez, suspirando: --- Vou gozar mais, Júlio! Outra vez!
Então, Cida gozou outra vez e eu continuei lhe penetrando a xoxota e ela estendeu as duas pernas sobre a cama, e sua xoxota ficou extremamente apertada e ela deu um grito e eu dei um grito e gozamos e nos apertamos com toda a força e caí de lado.
O suor escorria pelo meu corpo. Minha cabeça ainda zunia. De fora, vinha o barulho de pessoas passando na calçada. De carros em movimento. Fiquei de olhos fechados e sentia a claridade atravessando minhas pálpebras.
Cida se levantou. Ouvi o farfalhar de sua roupa sendo vestida. O ruído de seus sapatos sendo calçados. O barulho do fecho de sua bolsa sendo aberto e o deslizar do pente pelos seus cabelos.
Depois, se sentou ao lado de meu corpo, passou a mão direita em minha testa molhada, em meus cabelos. Disse:
---- Júlio César?
Olhei para os olhos castanhos tristes de Cida.
---- Você vai fazer aquilo que eu lhe disse, não vai?
Encolhi os ombros num gesto de desconhecimento:
---- Você vai voltar pra universidade, bicho! Volte pro curso de Letras. Você é poeta, cara!
Quase Cida em fez rir! Poeta?!
---- Todos os poetas são malucos, cara! Beberrões, fodidos!
Cida nunca esteve tão linda!
---- Depois você escreve livros! Vai se dar bem!
Eu nunca ia me esquecer da imagem bonita dos cabelos castanhos de Cida lhe caindo pelo rosto moreno!
---- Diga alguma coisa, Júlio! Você me promete?
Vacilei em responder.
---- Promete, Júlio?
Cida tinha a voz chorosa!
---- Prometo! - disse, baixinho.
---- Eu ainda quero ler livros que você escreveu.
---- Pode deixar!
E Cida continuou a me passar devagar a mão direita pela testa, pelos cabelos, pelas bochechas. Depois parou e fez silêncio. Ficamos no mais profundo silêncio, um olhando com a mais profunda ternura para a cara do outro.
Cida deu um suspiro profundo. Disse:
---- Vou embora daqui a pouco com minha família.
Fiquei calado.
---- Eles não querem ir nem ao baile nem ao churrasco. Eles não gostam de festas!
Continuei em silêncio.
Cida deu outro suspiro muito profundo, ficou olhando fixamente pro meu rosto, e disse:
---- Daqui a quinze dias vou me casar com o Bobão.
Abaixei os olhos para meus pés e nada respondi.
Depois, Cida se dobrou sobre meu corpo, deu um beijo bem rápido em minha boca e disse, os olhos marejados:
---- Adeus, Júlio!
Não respondi.
Virei-me de bruços. Cida se levantou, abriu a porta, e a puxou pra fechar e passar a chave. Fiquei ouvindo Cida tentando encaixar a chave no buraco da fechadura. Depois, ouvi a chave deslizando pra dentro do quarto, por debaixo da porta. Ouvi os passos de Cida se afastando com pressa. Eu ouvia passos e conversas de outras pessoas na tarde. Barulhos de carros passando na rua. Tristeza no quarto e na tarde da rua.
Então, coloquei o travesseiro sobre a cabeça e puxei o cobertor sobre o corpo. Eu estava suado. Fazia calor, mas, mesmo assim, me cobri com o cobertor.
Dobrei o braço direito sob a testa e me afundei no mais profundo torpor.
E fiquei sozinho na penumbra do quarto, no escuro de meus pensamentos.
Eu estava tremendo.
Fazia calor, mas eu tremia.
Então, dei um suspiro tristonho.
E chorei.

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